Por Carolina Vitorino e Priscila Tâmara |Irrita-nos um pouco essa época do ano, porque dá pra sentir o espírito natalino fortemente entrelado ao espírito capitalista, onde a idéia do que é novo é sempre melhor.
E sobre esse pretexto, o culto ao objeto leva as pessoas a consumirem exageradamente como se isso fosse fazer de suas vidas algo melhor.
A moda, embora na maioria das vezes seja estereotipado como universo de glamour e futilidade, tem papel importante na sociedade e interfere constantemente na vida das pessoas, seja em seus relacionamentos, atitudes, personalidades ou em seus hábitos cotidianos, dessa forma sua função vai muito além desse pensamento predefinido de moda-fútil.
A moda permite o convívio das pessoas, construindo o meio social a partir de suas regras, imposições quanto aos comportamentos e quanto aos relacionamentos. Lipovetsky (1989) defende a ideia que a moda é um dos motores essenciais que regem a sociedade. No entanto, o sistema da moda que impulsiona o consumismo, não tem o objetivo de transformar o ser humano em marionete, mas sim libertá-lo, permitindo que este, constitua sua identidade a partir do que ela oferece, além de garantir a inserção dele como parte do grupo social.
E nós precisamos enxergar o papel da moda na sociedade, perceber o valor do “objeto” roupa. Então vamos usar aqui o exemplo de um cara bem conhecido por criticar o tão falado capitalismo: Karl Marx.
Uma das críticas de Marx ao capitalismo é a sua deturpação da condição humana, condição essa explorada através do trabalho, quando a alienação passa a ser um dos fatores que faz com que o trabalhador perca sua essência humana quando é colocado numa fábrica, por exemplo, e passa a ser parte de um processo produtivo onde a lei da mais-valia impera sobre ele, porque o que esse trabalhador irá receber será muito menor do que o valor que a empresa receberá com o produto que ele ajudou a fabricar.
E isso vira uma grande bola de neve, dessas que a gente vê nos filmes de Natal, porque o vício do capital e a coisificação das relações sociais acabam potencializando a alienação do indivíduo, e o trabalho humano que deveria distinguir o homem do animal, passa de livre a algo ligado somente a sobrevivência. Marx, em sua vida, usou os objetos a seu favor.
E isso vira uma grande bola de neve, dessas que a gente vê nos filmes de Natal, porque o vício do capital e a coisificação das relações sociais acabam potencializando a alienação do indivíduo, e o trabalho humano que deveria distinguir o homem do animal, passa de livre a algo ligado somente a sobrevivência. Marx, em sua vida, usou os objetos a seu favor.
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O segundo ensaio, que dá nome ao livro, é uma discussão sobre a transformação das roupas em mercadoria. Acompanhamos a história das roupas no século XIX, principalmente o casaco de Marx.
Nessa parte o autor nos coloca dentro do lar dos Marx nos anos 1850 quando estava exilado em Londres. A família vivia num dos piores quarteirões, passando os maiores perreios, e durante esses anos recorrentemente viviam da penhora dos objetos familiares e de uso pessoal, uma prática generalizada de sobrevivência na classe operária inglesa da época. Usavam-se as roupas no domingo e penhoravam na segunda pra retomá-la no fim de semana seguinte.
Marx, enquanto escrevia “O Capital” ia e vinha à loja de penhores, e dentre os objetos que iam e vinham estava o seu casaco, porque para frequentar o Museu Britânico, onde fazia suas pesquisas precisava estar bem vestido, e ele sabia o valor que seu casaco tinha. Coincidência ou não, todo o primeiro capítulo de “O Capital” traça as migrações de um casaco, visto como uma mercadoria, no interior do mercado capitalista. Foi então que escreveu coisas do tipo: "Penhorar um objeto é desnudá-lo da memória, pois, somente um objeto desnudado de sua particularidade histórica pode novamente se tornar uma mercadoria e um valor de troca”. “O que fizemos com as coisas para devotar-lhes tal desprezo? E quem pode se permitir ter este desprezo? Por que os prisioneiros são despojados de suas roupas a não ser para que se despojem de si mesmos?”. A memória que o casaco carrega e a relação do seu dono com o mesmo acabam gerando reflexões sobre consumo, valor dos bens de consumo e a relação deles com as pessoas.
Já o último ensaio de Stalybrass trata sobre a noção de caminhar em diferentes peças clássicas. Racionaliza sobre peças de diferentes séculos, como Édipo e Lear. Compara a forma de caminhar de cada um dos personagens e a sua importância e sua época. Édipo não pode caminhar direito pela mutilação que sofreu, enquanto Lear não precisa andar pelo poder que tem. O autor levanta um importante ponto sobre a dificuldade de se caminhar e como desvalorizamos esse ato quando conseguimos realizar naturalmente depois de aprendido. Reflete sobre o fato de que muitas atitudes que tomamos são tão naturalizadas em nossas vidas que não percebemos mais como devemos valorizá-las.
Tá aí nossa indicação de presente, para qualquer época do ano, não necessariamente para o Natal. Repensar sobre o valor que os objetos têm em nossa vida, e que a nossa vida tem para eles.
Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
