Álbuns Clássicos - O último malandro - Moreira da Silva

Já sabe né? Clica na capa e pega o presente.
Por Marcelo Mendez

Seu Tinoco sempre foi um bamba.

Me conhecia desde menino, do tempo que ensaiava na magnética Orquestra De Gafieira Sebá Gonzales, de tio Sebá, na garagem da velha casa de minha família na Avenida das Nações no meu Parque Novo Oratório. Seu Tinoco era trombonista, dos bons segundo meu tio:

“O Tinoco estica a vara do seu trombone e busca as notas e a nêga la no meio do salão” - Elogiava meu Tio. Seu Tinoco me chamava atenção...

Homem grande, bigode feito, bem aparado, cabelos esticados com gomalina, sempre vestido no Linho S-120, ternos bem cortados, chapéu com a aba virada pro lado, vira e mexe metia meu tio em confusão por conta de suas trapalhadas com a mulherada e não eram poucas as cabrochas. Em cada canto que a Orquestra de meu tio tocava, o homem tinha la um rabo de saia. Foi assim a vida toda. Grudei no homem...

Cresci ouvindo seus causos, suas bravatas, vendo suas conquistas, aprendendo com sua elegância, sua classe, sua imensa categoria. Eu tinha na época 17 anos e o Seu Tinoco já passava dos 70, (Tinha 78 anos de noites e como sempre me dizia; “Marcelo, em minhas veias corre orvalho... De tanta madrugada que já varei...") quando uma crise renal o debilitou. Forte, vaidoso o velho malandro aguentou o quanto pode, ficou meio puto de largar o seu maço de cigarros Minister Longo, de ter que abandonar o conhaque macieira e já no final da coisa eu sempre dava um jeito de passar em sua casa, onde morava com a filha Jandira e os netos.

Eu chegava, fazia sua barba à navalha, e então saíamos, comigo empurrando sua cadeira de rodas até a praça Marrocos, onde ficávamos conversando e esperando pra ver a mulherada. O Velho, sempre bem vestido, me fazia parar lá todos os dias, umas 17 horas para que ele pudesse apreciar o sacolejo das ancas alheias, apreciando o vai vem do quadril das moças do PNO. Vez por outra me enchia o saco por um cigarro meu, que com muita resistência eu dava. O Seu Tinoco então me dizia:

“Camel... Marcelo isso não é cigarro de boêmio. Sujeito bamba num fuma bicho, troca isso...”

Eu sorria e então, la pelas 18:30 a gente voltava para a casa dele onde ele chegava, dirigia-se com sua cadeira até a varanda e de lá, me pedia para por um disco na vitrola para que embalasse nossa prosa. Aí teve um dia em que ele não me recebeu às 16 horas como de costume...

Seu Tinoco, o velho malandro, enfim descansara, partia dessa para uma mais agradável. Claro que fiquei triste, mas depois entendi que era mesmo o que o velho queria. Tava de saco cheio disso aqui. Dias depois, passando em frente sua casa, dona Dira me disse se eu não queria ficar com o chapéu panamá de Seu Tinoco. Eu agradeci e pedi por um abuso; Queria o disco que ouvíamos todas as tardes e Dona Dira me deu com maior prazer. Hoje, álbuns clássicos vai falar desse disco, que guardo como maior de meus tesouros e que embalou a vida de toda uma geração de bambas, retos ou tortos como esse que vos redige essas linhas.

Então senhouras e senhores, com vocês O ÚLTIMO MALANDRO de Moreira Da Silva.

Nascido Antonio Moreira Da Silva, no ano da graça de 1902, Moreira cresceu no velho Rio De Janeiro dos Bambas, das cabrochas imortais, da Praça Onze, do começo das agremiações de bairro que viriam a ser chamadas “Escolas de Samba”. Lá pelo morros se criou, vida dura.

Órfão de pai, passou a infância de morro em morro até que já sujeito homem, finalmente descola um trabalho como motorista de taxi de onde conheceu a cidade, os botecos e as rodas de samba. Ali nas serestas, começa a vida de cantor, conhece os Bambas, faz seus primeiros contatos. Mas como a boêmia não enche a barriga, rapidinho Moreira se ajeita minimamente; Entra para o serviço publico, como motorista de ambulância conquistando assim a estabilidade tão necessária para nunca mais ter que voltar pro morro.

Começa na noite, cantando em bares, teatros, cricos e uma dessas, enquanto cantava o samba “Jogo Proibido” fez um sinal pra banda parar e começou a improvisar versos, causos para depois retornar a canção. A rapaziada pirou! Aplausos, apupos e então, Moreira acabara de criar um estilo pelo qual se consagraria como rei. O Samba De Breque.

Reinou por todos os anos 40, até que com a chegada dos anos 50 as coisas não iam la muito bem. Mas eis que por mais improvável que possa parecer, a tecnologia salva Moreira...

Na década citada, os velhos discos de 78 rotações eram substituídos pelos novíssimos “long plays”, os Lp's. Com isso as gravadoras viram a possibilidade de lançar aas obras registradas nos velhos bolachões, sem muito custo e com a possibilidade de faturar bem. Dessa forma, a Odeon manda chamar Moreira, que não gravava mais, havia 7 anos. Dessa forma, em 1958 nasce O ÚLTIMO MALANDRO, primeiro LP da carreira de Moreira e o malandro não deixou por menos...

Sabendo que na bolacha constariam verdadeiros hinos do samba nacional, tais como “Acertei no Milhar”, “Amigo Urso”, “Olha o Padilha”, “Chang Lang”, “Na subida do Morro”, tudo acertadinho pelo suingue bebop do grupo Astor e Seu Conjunto, o Malandro chamou o amigo, compositor e publicitário Miguel Gustavo para ajudar a se reinventar. Eis que o amigo da as dicas para os breques de Moreira, cria um personagem, um herói imaginário da malandragem carioca. Dali por diante, Moreira sai de cena para entrar por todo sempre KID MORENGUEIRA. Kid arrebentou...

O disco vendeu excepcionais 45 mil LP's em 1958, rendeu premiação do governador com a Medalha de São Sebastião do Rio De Janeiro, menção honrosa na ABI, disco de Ouro, uma grana boa e o caminho da eternidade na cultura nacional para esse homem que ensinou entre milhares de outras tantas cousas que...

“Em casa de vagabundo, malandro não pede emprego...”

Aprendi direitinho... Álbuns Clássicos de hoje, presta uma homenagem, portanto a dois velhos malandros; Seu Tinoco, com quem aprendi todos os atalhos da vida, e Kid Morengueira, a quem serei eternamente grato pelos momentos de embalo pelas noites profanas e lindas da minha São Paulo, que embora hoje seja um dondoca besta, reacionária e sem noção, outrora teve todo o encanto do seu lindo desvario...

No player aí embaixo o clássico “Acertei No Milhar”. Nas capas o presente e agora é com vocês:

Da um tapa no panamá, acerta o passo e bora dançar!!!

Moreira da Silva - Acertei no Milhar


Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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