Por Marcelo Mendez
Eis que novamente nos encontramos aqui na coluna Canela de Ferro para tratar das coisas ludopédicas da terra brasilis. Como sempre, com algo para se pensar, com uma proposta que foge demais do comunzão do óbvio pungente e dominante. Bem...
Tivemos no ultimo final de semana uma rodada de clássicos por todo o Brasil em seus campeonatos estaduais. Tivemos a vitória do Corinthians na capital por 1x0 sobre o São Paulo, o Vasco batendo o Flu de virada no Rio por 2x1, Fortaleza batendo o Ceará de virada por 2x1 também e por aí vai. Mas será que isso é realmente importante? Vamos ver...
Aqui, o Canela de Ferro é uma coluna semanal. Geralmente eu procuro me ater para o que acontece no final de semana, para os fatos ludopédicos que de fato se aproximem do que o Futebol de fato é, ou seja; um esporte. Que trate isso não como um negócio como vem sendo feito sistematicamente, mas, como um esporte. Diante disso tudo o que aconteceu com o menino Wendel nos treinos da categoria sub-15 do Vasco da Gama não pode ficar de fora dessa nossa Análise.
Na ultima semana após um mal estar sentido pelo menino durante os treinos no CT de Itaguaí, o garoto teve que ser levado às pressas para uma unidade de atendimento médico próxima, conduzido pelo seu treinador, já que no CT não havia médicos, não havia estrutura nem nada. No ambulatório não resistiu e aos 14 anos de idade o menino teve seu sonho de vestir a camisa cruzmaltina, falecendo antes de chegar sequer a adolescência. Aí uma série de questões vem à tona.
A primeira; o CT de Itaguaí é de propriedade de Pedrinho Viceçoti, ex-lateral esquerdo de Vasco e do meu Palmeiras, que hoje é empresário de futebol. Fico a me perguntar como pode um empresário conseguir comprar um terreno e fazer um CT e os times do Rio não conseguirem! É impressionante que um clube como o Vasco Da Gama não tenha em 2012 um Centro de Treinamento devidamente equipado que de a devida assistência a esses garotos. Sempre lembrando que o menino não tinha o sonho de jogar no CT do Pedrinho, ele veio pra jogar no Vasco da Gama.
A segunda; consta que do acordo que o Vasco tem com Pedrinho, o Clube de São Januario fica encarregado de pagar pelo aluguel do espaço além de dar ao empresário uma cota de 10% na negociação de cada jogador por lá revelado e vendido para exterior. Oras, então eu quero um emprego desses! Então eu monto aqui uma barraca de frutas no osso, alugo para você amigo leitor vender suas frutas, compradas de seu bolso, você me paga pelo aluguel do espaço da banca e mais 10% de cada fruta que você mesmo vender!!! Mas é um negócio da arábias!!!
Por ultimo vêm as justificativas e os fatos estarrecedores:
O Vasco, cuja camisa tem o patrocínio da Eletrobrás, uma empresa pública que da o meu, o seu e o dinheiro de todo mundo para patrocinar o departamento de futebol do time da Colina, não fornecia alimentação para o garoto porque ele “apenas estava em testes”. Com 14 anos de idade, sozinho no Rio De Janeiro vindo de Minas, o garoto que estava aos cuidados do Vasco, não tinha direito a um café da manhã a um almoço.
Em um universo surreal, onde o futebol midiático insiste em viver, onde se tem isenção fiscal pra time de futebol construir estádio com grana pública, onde são feitas pencas de desapropriações arbitrárias como vem acontecendo nos arredores das obras da reforma do Maracanã, onde as cifras de televisão dobram, onde é cobrado 80 reais por um ingresso de estádio que não oferece ao torcedor uma privada para mijar... Um garoto de 14 anos não tem direito de tomar café da manhã.
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De acordo com as discrepâncias da Terra Brasilis o absurdo é até coerente; assim como milhares de garotos de 14 anos, o menino Wendel não teve direito à saúde. Não teve direito à alimentação, lhe foi negada todo e qualquer tipo de assistência social, como de fato acontece em todo território nacional. Mas a nossa digressão aqui é outra...
Wendel estava sendo “testado” por uma equipe de futebol, em um CT de um renomado empresário do esporte que, em caso de sucesso do menino levaria 10% do bolo. Quer dizer; Estando o menino sobre todas essas asas, de quem é a responsabilidade pelo que aconteceu? Ninguém?!?!
“Foi uma triste fatalidade?!?!”
Mas até quando a gente vai ver esse tipo de “Fatalidade” acontecer por aqui? Todo mundo se choca, o Brasil é a “República dos Homens em Choque” onde todo mundo se estarrece, mas ninguém faz absolutamente nada! O que aconteceu com esse menino, no universo paralelo do futebol Midiático brasileiro não vale nada. Já, já a mídia bundona, pelega e vendida o transformará em “noticia velha” e em alguns dias ninguém sequer lembrará o assunto.
Isso tudo será trocado pelas três substituições que Leão fez ontem, no pênalti que Jadson perdeu, no gol de cabeça de Danilo no meio da zaga são paulina e tudo será justificado por um tal “lead” de importância definido por um pauteiro meia boca de redação. Bom aqui isso não vai acontecer.
Não vou falar de porcaria de jogo nenhum e ficará a você, leitor nosso de cada segunda-feira a reflexão pertinente das coisa que acontecem no futebol nosso e do nosso papel (Jornalistas, torcedores, consumidores de pay-per-view, ingressos, camisas, produtos licenciados...) no meio dessa ludopédia toda.
Eu não sei se isso vai adiantar alguma coisa, mas se for para fazer pensar, que tudo ocorra como bem me ensinou o bom Belchior, quando cantou em sua mítica Palo Seco:
“Eu quero que esse canto torto feito faca corte a carne de vocês”
Sendo pleno, tudo é muito válido...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.