O levante contra a obviedade ludopédica no futebol paulista e a falta que Paulo Francis me faz...

Por Marcelo Mendez.

Houve um tempo, lá pelo começo dos anos 90 que o meu maior barato era correr na banca de jornal pra comprar o Estadão e ler o “Diário da Corte”, uma coluna sensacional do meu mestre Paulo Francis. E tenho um milhão de motivos para dizer que Francis é uma das maiores referências que tenho em minha vida. Uma delas tem muito a ver com nossa coluna futeboleira aqui...

Francis, homem culto, inteligentíssimo, lidamente exagerado em tudo, talentosíssimo, é muito mais que jornalista, cronista e coisas do tipo. Foi o último dos jornalistas opinativos dessa maldita imprensa bundona, pelega e viciada. Mestre Francis, que outrora fora um ferrenho trotskista nos anos 50 e 60, “neoliberou” geral nos anos 80 e 90. E no que pese o fato da gente concordar ou não com os argumentos do homem, jamais faltou da parte dele, opinião, decisão e discussão sobre esse e qualquer outro assunto.

Paulo Francis foi tudo na vida. Menos óbvio. Coisa que o diabo do nosso futebol adora ser!! Vejamos o clássico de ontem em Presidente Prudente.

Amigo leitor que me acompanha aqui em Canela De Ferro sabe o quanto primo por fugir da vala comum da imprensa futeboleira. Seria muito fácil seguir pelo viés comum dos idiotas da objetividade; bastava seguir pela aquela baboseira do “O jogo começou bastante movimentado, com o Santos começando melhor, saindo na frente com o Neymar, mas, recuando no segundo tempo, propiciando assim que o Palmeiras melhorasse na partida, conseguindo a virada após as modificações de Felipão...” Na boa:

Quem aguenta ler uma porcaria dessas?

O que aconteceu os senhores viram pela televisão. O papel do cronista não é lutar contra as imagens, não é recriar nas retinas no leitor, algo que é fato e que foi visto em tempo real a quem possa interessar. O que fazemos aqui é comentar o que se vê, pelo prisma de quem quer pensar um pouco sobre aquilo que lhe é oferecido as vistas. E aí está o cerne da questão...

O 2x1 do Palmeiras, ontem, em Presidente Prudente em cima do Santos, teve tudo do que mais se tripudia a quem quer um pouco de vida nova nos campos de futebol. Foi óbvio. Cretinamente óbvio. Teve lá o Palmeiras jogando cheio de volantes, com um poste na área de nome Fernandão, esperando por uma bola parada, dos santos pés de marcos assunção para ver se escorava alguma coisa para as redes alvinegras. Como de fato, aconteceu no gol de empate do moço para o meu verde.

O Santos, meio desinteressado da coisa, teve lá uns lampejos de Neymar, que fez gol, que comemorou o aniversário, que até tentou, mas, não conseguiu fugir do roteiro viciado do nosso preguiçoso futebol do começo de temporada. Sentiu a queda de rendimento de seu time que não conseguiu correr no senegalês verão de Presidente Prudente. Foi vitimado por um gol de Juninho do Palmeiras, após um desvio idiota na zaga santista que sacramenta o 2x1 final e tá; E daí?!

Depois do jogo, as velhas explicações, os velhos vícios da imprensa, as obviedades ludopédicas todas, “Ah... a expulsão do Ibson foi correta?” ou, “Mas o Santos sentiu o calor”, ou senão.... “O time do Palmeiras se não é um primor técnico, ao menos é esforçado...” - Balela!

O time do Palmeiras é um lixo! A expulsão de Ibson foi retumbantemente óbvia, como tudo que foi o jogo ontem, o calor que fez em Prudente, fez pra todo mundo e não só para o time Santista, mas que diabo...

Será possível que não se tem mais opinião no jornalismo atual?!?!

Que diabo de sanha relativista é essa?! Será que seremos todos tragados pelo monstro sorumbático dos canalhas fundamentalistas óbvios? Minha nossa...

Até lá segue o bonde e chuparei um Chica-Bom em homenagem ao grande Paulo Francis...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
Share: