Por Angela Rosch Rodrigues |
"Sou arquiteta de formação e de coração. A maior motivação pra eu estudar e trabalhar nessa área sempre foi a mera possibilidade de ESTAR em um LUGAR. Entrar num espaço que eu havia projetado, visitar um edifício ou circular em uma cidade que somente se conhece por fotos é sempre uma experiência insubstituível!
"Sou arquiteta de formação e de coração. A maior motivação pra eu estudar e trabalhar nessa área sempre foi a mera possibilidade de ESTAR em um LUGAR. Entrar num espaço que eu havia projetado, visitar um edifício ou circular em uma cidade que somente se conhece por fotos é sempre uma experiência insubstituível!
A proposta destes breves ensaios é justamente essa, contribuir para a PERCEPÇÃO e VIVÊNCIA da arquitetura, da cidade, da obra de arte procurando relacionar, sempre que possível, com a realidade do nosso dia-a-dia. É um simples CONVITE, para que os leitores se sintam instigados a querer ESTAR em determinados lugares.
Nessa estréia, eu aproveito pra divulgar a exposição dos painéis “Guerra e Paz” e para abordar um pouquinho sobre a nossa arquitetura moderna."
“Guerra e Paz” e algumas pinceladas sobre a arquitetura moderna brasileira
Os painéis Guerra e Paz são de fato magníficos! Encomendados pelo governo brasileiro em 1952 e finalizados em 1956, os 280 metros quadrados pintados por Cândido Portinari abordam os terrores da guerra e as benesses da paz. Um contraponto tocante, chocante e atual (como toda obra de arte deve ser). Concebidos no “calor” dos interesses, especulações e ideologias da guerra fria, os painéis foram presenteados pelo ministério das relações exteriores brasileiro para o então recém inaugurado prédio da sede da ONU (Organização das Nações Unidas) em Nova York, cujo projeto contou com a participação do arquiteto Oscar Niemeyer.
Mesmo com toda sua mensagem tremendamente humanitária, essa obra-prima ficou durante décadas exposta de modo restrito, principalmente, depois dos ataques terroristas de 11 de Setembro, quando foi vetada a visitação pelo grande público aos saguões da ONU.
Devido a reformas que estão sendo feitas com previsão de término em 2013, a ONU liberou os painéis para serem expostos mundialmente. Eles desembarcaram no Rio de Janeiro em 2011, passaram por um detalhado processo de restauro e finalmente chegam à capital paulista em exposição gratuita para o grande público brasileiro no Memorial da América Latina.
Aliás, pra quem ainda não conhece o Memorial, que fica na Barra Funda e dá pra ir de metrô, essa é uma ótima oportunidade de unir o útil ao agradável! Concebido por Niemeyer o conjunto foi inaugurado em 1989 com uma proposta que abrange a exposição e divulgação da multiculturalidade latino-americana. Simplesmente imperdível!
Só pra situar, essa junção entre arquitetura e demais artes não é exclusiva de sedes de grandes instituições mundiais, muito pelo contrário, a arquitetura moderna brasileira, de reconhecido valor internacional, sempre atuou no sentido de estabelecer essa união.
Um exemplo pioneiro é o Edifício Gustavo Capanema no Rio de Janeiro, inaugurado em 1947 e projetado para ser a então sede do Ministério da Educação e Saúde. Além dos terraços-jardim de Burle Marx e das obras de outros renomados artistas modernistas, há os belíssimos painéis em azulejos de Portinari. O conjunto é patrimônio nacional, tombado pelo IPHAN desde 1948, vale a pena conferir!
Existem vários outros casos que poderiam ser mencionados dessa feliz união - arquitetura, artes, paisagismo - mas eu gostaria de ressaltar um exemplo primoroso no ABC paulista. No salão nobre do edifício da prefeitura municipal de Santo André está, simplesmente, a maior tapeçaria produzida por Burle Marx. Esta sede municipal foi projetada pelo escritório de Rino Levi em meados da década de 1960 e foi inaugurada em 1969. A belíssima tapeçaria compõe um painel de 26,6 metros de largura por 3,3 metros de altura, foi restaurada em 2006 e é possível visitá-la através de visitas monitoradas que podem ser agendadas através da Secretaria da Cultura de Santo André.
Fica então o convite: vamos lá?
Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas



