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Um lugar para arquitetura - Patrimônio industrial

Por Angela Rosch Rodrigues |

Complexo de Ironbridge, Inglaterra. Fonte: www.erih.net/
A partir da década de 1960, a noção de “patrimônio cultural” tem se ampliado incluindo novas tipologias, categorias e também considerando nossa história mais “recente”. O desenvolvimento do conceito de “patrimônio industrial” deve ser entendido dentro desse contexto.

Mas o que é “patrimônio industrial”? Ele compreende vestígios materiais e imateriais da cultura industrial como máquinas, locais de manufaturas (fábricas, etc.), minas, locais de produção de energia (hidrelétricas, etc.), sistemas de transporte (ferrovias, pontes, portos, bondes, etc.); infra-estruturas sociais (cidades, vilas operárias, escolas, etc.).

As primeiras manifestações em prol da preservação desse tipo de patrimônio surgiram, basicamente, na Inglaterra, onde cidades industriais passaram por intensos processos de mudança no período pós - Segunda Guerra, o que gerou a necessidade de uma discussão em torno da valorização e reconhecimento de bens industriais como elementos de uma identidade memorial.

Ao longo das décadas outros países vêm reconhecendo o valor desse patrimônio; são associações locais que se mobilizam para o estudo, criação e manutenção de meios para a preservação como museus, rotas para a visitação (European Route of Industrial Heritage – ERIH), etc. O órgão internacional que defende exclusivamente esse patrimônio é o TICCIH (The International Comitte for the Conservation of the Industrial Heritage), foi criado em 1978 e tem segmentos em vários países, inclusive no Brasil (desde 2003).

O primeiro bem tombado pela UNESCO de caráter industrial foi a mina de Sal Wieliczka na Polônia em 1978, desde então muitos outros tem sido acrescentados como o complexo de Ironbridge (Inglaterra) e a impressionante cidade mineira de extração de cobre Sewell (Chile).

Interior da mina de Sal Wieliczka, Polônia. Fonte: www.kopalnia.pl e Vista da cidade mineira Sewell, Chile. Fonte: whc.unesco.org
O primeiro exemplar tombado no Brasil pelo IPHAN que se relaciona a esse tema foi a Fábrica de Ferro Patriótica – ruínas - (Ouro Preto, MG) em 1938; mas a primeira intervenção visando a recuperação parcial de bens industriais ocorreu em 1964 na antiga Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema (Iperó – SP).

Casa de Armas Brancas, Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, Iperó - SP. Foto: Autor, 2009 e Fornos, Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema, Iperó - SP. Foto: Autor, 2009
Nosso patrimônio industrial é riquíssimo, só para citar alguns exemplos: Vila Ferroviária de Parapiacaba (Santo André, SP), Ponte Hercílio Luz (Florianópolis, SC), Armazéns do Cais do Porto (Porto Alegre, RS), Fábrica de Vinho Tito Silva (João Pessoa, PB), Porto de Manaus (AM), Fábrica Santa Amélia (São Luís, MA), o “Caminho dos Moinhos” (municípios diversos, RS), Usina Parque Corumbataí (Rio Claro, SP); na cidade de São Paulo: Estação da Luz, Vila Maria Zélia, antiga Estação Júlio Prestes, Gasômetro, dentre outros tantos.

Complexo do Museu do Pão no Caminho dos Moinhos, RS. Produção com maquinário antigo para a visitação. Fonte: Revista AU - 168, p.40, 2008 e Usina Parque Corumbataí - Rio Claro, SP. Em funcionamento. Fonte: www.energiaesaneamento.org.br
Vila Ferroviária de Paranapiacaba, Santo André - SP. Fonte: pt.wikipedia.org e Estação da Luz, São Paulo - SP. Fonte:  pt.wikipedia.org
A partir da década de 1970, o processo de desindustrialização intensificou o abandono de áreas industriais no mundo todo, então nos deparamos com muitos remanescentes abandonados, ameaçados pela especulação imobiliária, outros que passam por mudanças de uso, e alguns, mais raros, que mantém uma atividade original ou próxima da original. No segmento da mudança de uso há experiências expressivas como na antiga mina de carvão Zollverein (Essen, Alemanha) com instalações para usos culturais diversos. Em relação ao patrimônio industrial em atividade, é interessante verificar o fascínio que maquinários antigos em funcionamento provocam nas pessoas, algumas empresas centenárias abrem suas linhas produtivas para a visitação como parte de um projeto publicitário.

Instalações com novos usos da antiga mina de carvão Zollverein, Essen, Alemanha. Fonte: pt.wikipedia.orgFábrica de Chocolate Maison Cailler (atual propriedade da Nestlé), em funcionamento desde 1819, aberta à visitação, Fribourg, Suíça. Foto André Rosch Rodrigues, 2012.

Ao longo das décadas o número de estudos internacionais e nacionais tem aumentado, mas ainda há muitos exemplares que se perdem por falta de conhecimento e sensibilidade. É importante ressaltar o potencial dos objetos ligados à história da industrialização (estejam com suas atividades extintas, ou não) e a necessidade de valoração desses remanescentes como elementos memoriais de nossa identidade cultural.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Preservação e patrimônio

Por Angela Rosh Rodrigues | 

Em linhas gerais, internacionalmente a preocupação com a preservação patrimonial tem início a partir do Renascimento e as discussões teóricas se ampliam na Europa principalmente a partir do século XIX. Aqui no Brasil, a preocupação com nosso patrimônio e com a criação de instrumentos legais de preservação começa aparecer a partir da década de 1920, porém somente foi instituída com a criação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), através do Decreto Lei de 1937. O autor do anteprojeto foi Mário de Andrade, mas a redação final ficou por conta do advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Naquele momento, o estado de degeneração de muitas edificações foi um ponto crucial que instigou a necessidade de alguma forma de preservação. A partir da década de 1930, algumas personalidades proeminentes do cenário intelectual moderno brasileiro integraram o corpo técnico do SPHAN por décadas, dentre elas, Lúcio Costa. O arquiteto responsável pelo Plano Piloto de Brasília atuou na diretoria da Divisão de Estudos e Tombamentos do SPHAN até 1972. Sua primeira atribuição foi na antiga Missão jesuítica de São Miguel (RS), onde consolidou as ruínas da antiga igreja e criou um museu com fechamento em vidro para acolher peças recolhidas dos outros antigos povoados jesuítas da região (no total são sete povoados).

Ruínas da Igreja de São Miguel (RS) e Museu projetado por Lúcio Costa. Foto: www.archdaily.com.br
Mas como funciona a preservação do patrimônio em nosso país? Aqui, basicamente, o principal instrumento legal de preservação é o “tombamento”, ou seja, a inscrição em uma lista oficial de bens em que se estabelece que determinada obra (edificada ou não) tem um tipo de valor. No âmbito do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual nome do SPHAN) que é o órgão de preservação de abrangência nacional há quatro “livros do tombo”: 1. Arqueológico, etnográfico e paisagístico; 2. Histórico; 3. Belas artes; 4. Artes aplicadas. Os bens podem ser tombados em uma ou mais categorias.

Museu do Ipiranga - São Paulo (SP), tombado pelo IPHAN nos livros: Arqueológico, etnográfico e paisagístico;
Histórico e Belas artes. Foto: Autor, 2012
A partir da década de 1960 iniciou-se um processo de delegar aos estados e, posteriormente aos municípios, os respectivos trabalhos de preservação. No Estado de São Paulo, foi criado em 1968 o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) e na capital paulista foi criado em 1985 o CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo). Aquilo que é tombado em instância nacional numa cidade é automaticamente englobado pelos órgão estaduais e municipais, mas o inverso não ocorre.

Capela no Morumbi, bem tombado da cidade de São Paulo pelo CONRESP, não é tombado nas instâncias estadual
e nacional. Foto: www.wonkas.com.br
Qualquer pessoa pode solicitar a abertura de um processo de tombamento, basta dar entrada nos trâmites dos respectivos órgãos. A partir dessa solicitação, serão feitas pesquisas históricas, visitas, aferições técnicas, etc. que irão atestar ou não a validade de se tombar um determinado bem. Mesmo enquanto não sai a promulgação final de um eventual tombamento, o bem passa a ter uma proteção legal a partir da abertura do processo de análise, assim qualquer tipo de obra que for incidir sobre essa edificação fica sujeita a uma avaliação pelos órgãos responsáveis.

É necessário ressaltar, que toda a questão da preservação patrimonial gera polêmicas, principalmente por conta da crescente especulação imobiliária que compromete muito daquilo que poderia ser preservado em nossas cidades. Além disso, há a problemática que deriva do próprio tombamento e sua efetiva validade como instrumento de preservação. Em muitos casos, a conta de “quem ganha e de quem perde” com um tombamento não é suficientemente clara, e há contestações sobre o ônus de se manter um bem tombado sendo comuns embates entre população, órgãos de preservação e proprietários.

Cine Belas Artes, protagonista de recentes polêmicas na cidade de São Paulo, teve sua abertura de processo de tombamento encaminhada. Foto: vejasp.abril.com.br
As pessoas que trabalham nesse meio e que conhecem o assunto sabem da amplitude que ele encerra. Mesmo após décadas de discussão e atuação o tema da preservação ainda é pouco divulgado para o público em geral e merece atenção, sem contar que há muitos municípios que ainda não possuem um Conselho e um corpo técnico estruturado que analise os processos. Nosso país pode ter uma história recente se comparado a outros, mas não menos importante ou rica, há monumentos de valor inquestionável, basta apurar a sensibilidade ao valor de nossa história e nos empenhar em querer preservá-la para as gerações futuras. É um equívoco considerar que a “marcha do progresso” exclua a nossa memória, muito pelo contrário, a engloba.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas - O 'Metropolitano'

Por Angela Rosh Rodrigues | 

A importância do metrô (nome corrente em português do “Metropolitano”) é inquestionável para a mobilidade urbana de qualquer cidade. O primeiro metropolitano foi instalado em 1863 naquela que foi, por décadas, a cidade mais populosa do mundo – Londres. Atualmente a maior rede de metrô do mundo é a da Xangai com cerca de 420 km, Nova Iorque e Londres vem em seguida com 418 e 408 km, respectivamente.

Além da inovação e facilidade que esse transporte sobre trilhos traz ao planejamento urbano, estações de metrô são também projetadas com atenção se tornando elementos interessantes na paisagem urbana. Em Paris, por exemplo, são emblemáticas as entradas de estações do arquiteto Hector Guimard, construídas entre 1899 e 1900, no chamado estilo Art Nouveau que associa desenhos rebuscados a materiais como ferro e vidro e nos remetem a uma típica expressão do modernismo do fim do século XIX. Desse mesmo período, é o projeto do arquiteto Otto Wagner para a estação Karlplatz em Viena representativa do movimento moderno denominado “Secessão vienense”.

Paris, saída de estação do Metrô por Hector Guimard. Fonte: www.avenuedstereo.comViena, estação de Kalrplatz por Otto Wagner, década de 1890. Fonte: en.wikipedia.org/wiki
As estações do metrô de Moscou construídas durante o governo de Stalin a partir de 1935, também são reconhecidas mundialmente pela suntuosidade de sua decoração interior, com revestimentos nobres que remetem a um tema palaciano, ainda que haja inúmeras referências à revolução comunista. A rede metroviária de Moscou está entre as dez maiores do mundo com cerca de 300 km de trilhos. No hemisfério Sul a primeira rede de metrô instalada foi em Buenos Aires, inaugurada em 1913 e que hoje conta com cerca de 52 km.

Moscou, suntuosidade nas estações de metrô. Fonte: www.esvaziandoamochila.comBuenos Aires, construção do metrô em 1912. Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/
No Brasil, a primeira implantação do metropolitano foi na cidade de São Paulo. Embora houvesse projetos de planejamento urbano que vislumbrassem a necessidade anteriormente, a efetiva construção somente teve início na década de 1970, sendo inaugurado em 1974. A partir daí outras capitais e cidades tem desenvolvido suas redes de metrô como Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Teresina, Brasília, Fortaleza, Campinas, dentre outras. Atualmente as maiores redes do Brasil estão em Brasília e, principalmente, São Paulo com cerca de 75 km.

A Estação da Sé foi inaugurada em 1978, numa operação urbana que alterou a configuração do marco zero da cidade, constituindo praça com paisagismo de Burle Marx e a criação de um museu de esculturas a céu aberto com obras de artistas plásticos como Marcelo Nitsche e Caciporé Torres.

São Paulo, estação da Sé – inauguração 1978. Fonte: www.memoriametro.com.br
Tendo em vista essa experiência, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), desenvolveu durante a década de 1990 incentivos a projetos com o objetivo de integração cultural. O denominado projeto “Arte no Metrô, vencedor da V Bienal de Arquitetura em Buenos Aires (1993) promoveu a instalação de obras de renomados artistas plásticos em algumas de suas estações - como Maria Bonomi, Alex Fleming, Gilberto Salvador, Tomie Ohtake, Fernando Lemos, dentre outros – contabilizando um acervo de 86 peças.

Metrô de São Paulo, instalações de Tomie Ohtake, década de 1990 / Metrô de São Paulo, instalação Fernando Lemos, década de 1990. Fonte: www.memoriametro.com.br
Atualmente, o tema metrô numa cidade como São Paulo é associado a uma questão vital de manutenção da fluidez urbana e envolve a problemática da restrição, da cada vez maior demanda e das polêmicas geradas pelas desapropriações, como aquela ainda na década de 1970 do Colégio Caetano de Campos na Praça República que felizmente não foi efetivada devido à reinvindicação da mobilização popular em prol de sua preservação.

Ainda assim, o fato destacado aqui, além da inegável necessidade desse meio de transporte, é a importância da construção de estruturas de qualidade e utilização criativa desses espaços de deslocamento que são parte do cotidiano das grandes metrópoles e que, certamente, compõe a história de nossa cultura.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Cemitérios e túmulos

Por Angela Rosch Rodrigues |

Há quem ache um tanto mórbido, mas para muitas das ciências sociais o estudo de ritos e mitos ligados à morte são uma fonte riquíssima de estudo, pois cada cultura e crença possui uma determinada relação com o tema. Para as artes em geral, não poderia ser diferente: a arquitetura e escultura tumulares constituem um amplo capítulo. Nessa área, não existe nada de mais emblemático do que as pirâmides do platô Gizé, imensos e misteriosos conjuntos de pedra, designados pela historiografia tradicional como túmulos (embora hajam controvérsias), estrategicamente implantados onde o Sol se põe e onde a cheia do Nilo não atinge, simbolizam de forma contundente a relação que os homens podem estabelecer entre vida, morte e eternidade, pois lá - à parte do atual apelo turístico - tudo é deserto, tudo é silêncio.

Pirâmides - Platô de Gizé, Cairo - Egito
No segmento cristão, foi comum durante muitos séculos cemitérios em anexo às igrejas e também a prática de que alguns fiéis ou membros distinguidos fossem sepultados dentro do templo. Na Catedral de Westminster, por exemplo, estão grandes figuras históricas como: Isaac Newton, Charles Darwin, Charles Dickens, Händel, dentre outros.

Catedral de Westminster, Londres - Inglaterra. Túmulo Isaac Newton. (fonte: pt.wikipedia.org). / Catedral de
de Westminster, Londres - Inglaterra. Túmulo Charles Darwin. (fonte: tumulosfamosos.blogspot.com.br)
O aspecto simbólico dos cemitérios realmente é pujante, seja porque guardam os remanescentes de vidas anônimas cujos feitos foram ou não heróicos ou porque guardam aquelas personalidades mais marcantes da História. Assim, alguns cemitérios são mundialmente conhecidos e inevitavelmente entram nos circuitos de visitação como: o Cemitério Nacional de Arlington – Washignton, com a famosa sequência de lápides idênticas dos soldados; o Cemitério Père-Lachaise em Paris com os túmulos de Balzaz, Comte, Chopin, Edith Piaf, Jim Morrison, etc.; o Cemitério Central de Viena, com os grandes mestres da música erudita Beethoven, Bramhs, Johann Strauss (pai e filho); dentre outros.

Cemitério de Arlington, Washignton - EUA. / Cemitério Central de Viena, túmulo de L. V. Beethoven – Áustria.
(fonte: 
pt.wikipedia.org/wiki)
Aqui em nosso país há diversos cemitérios de reconhecido valor cultural, inclusive, tombados pelo IPHAN, dentre eles podemos destacar as ruínas do cemitério e igreja jesuíta de Porto Seguro e o Cemitério do Imigrante em Joinville, de origem predominantemente protestante, fundado em 1851 e tombado em 1962. Já Na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição em Ouro Preto, está sepultado Aleijadinho.

Ruínas de Igreja e Cemitério jesuíta, próx. ao centro histórico Porto Seguro - BA. (fonte:projetocaminhosportoseguro.blogspot.com) / Cemitério do Imigrante, Joinville - SC. (fonte: skyscrapercity.com)
Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, Ouro Preto - MG (fonte: pt.wikipedia.org) / Tumulo de Aleijadinho, Ouro Preto - MG. (fonte: tumulosfamosos.blogspot.com)
Na cidade de São Paulo, há a importante referência do Cemitério da Consolação, inaugurado em 1858, numa localização estratégica por questões de salubridade, fora do núcleo central, que com passar do tempo e o crescimento urbano está hoje totalmente inserido na cidade. Lá estão diversas personalidades como: Marquesa de Santos, Monteiro Lobato, Ramos de Azevedo (que projetou o pórtico de entrada, muros laterais e capela do cemitério), Mário de Andrade, famílias industriais (Crespi, Matarazzo, Penteado), dentre outros. No segmento da arte tumular, o cemitério é uma referência por conter esculturas dos renomados Victor Brecheret, Celso Antônio Silveira de Menezes, dentre outros.

Cemitério da Consolação - Capela, projeto Ramos de Azevedo. (fonte: commons.wikimedia.org) / Cemitério da Consolação - Escultura Victor Brecheret. (fonte: pt.wikipedia.org)
Visitar e apreciar esses lugares é sempre uma experiência interessante e impactante, ainda mais com uma recepção como a do pórtico de entrada do cemitério da cidade de Paraibuna no Vale do Paraíba em São Paulo, digna de virar título do premiado documentário brasileiro (1998) baseado no livro Era dos Extremos: o breve século XX do historiador Eric Hobsbawm (1998).

Pórtico de entrada - Cemitério da cidade de Paraibuna - SP (foto: Flávio Pereira Cláudio Vieira)

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Mário de Andrade e a preservação de nosso patrimônio

Por Angela Rosh Rodrigues |

As reflexões de grandes personalidades sempre foram determinantes para a compreensão da importância da preservação do patrimônio. Na França, por exemplo, Victor Hugo escreveu “O Corcunda de Notre-Dame” (1831) com o objetivo de promover a importância da catedral de Paris que passava por graves degenerações.

Aqui em nosso país, a figura de Mário de Andrade geralmente está ligada às suas obras literárias de vanguarda em meio ao desenvolvimento do Modernismo no Brasil como “Paulicéia Desvairada” (1922), “Amar - verbo intransitivo” (1927), “Macunaíma” (1929), dentre outras; não é à toa que o nome da Biblioteca Municipal de São Paulo seja em sua homenagem.

Retrato de Mário de Andrade por Tarsila do Amaral. Fonte: www.portalsaofrancisco.com.br (esq.)
Biblioteca Mário de Andrade. Fonte: www.prefeitura.sp.gov.br (dir.)
Como um intelectual de ampla visão cultural, Mário de Andrade também teve um papel decisivo para a preservação do nosso patrimônio. Durante o Estado Novo, na década de 1930, Gustavo Capanema do Ministério de Educação e Saúde solicitou a Mário de Andrade um anteprojeto para a criação de um órgão de preservação nacional. Mário demonstrou então uma abordagem avançada cuja concepção antropológica de cultura enfatizava o caráter popular e a identidade local. Naquele momento, este anteprojeto foi adaptado e a redação final ficou por conta do advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade instituindo em 1937 o SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que atualmente é conhecido como IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Os conceitos lançados por Mário são muito atuais e hoje subsidiam idéias referentes ao “patrimônio imaterial”, ou seja, aquele patrimônio que não pode ser medido pela materialidade física, como o frevo, a Feira de Caruaru, dentre outros. Neste anteprojeto consta ainda a determinação do termo “tombamento”, que, ainda hoje, é utilizado como o principal instrumento para a preservação dos nossos bens culturais.

Mário de Andrade, viagens culturais (1927). Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/ (esq.)  
Patrimônio imaterial - Frevo. Fonte: www.onordeste.com (dir.)
Logo depois da criação do SPHAN foi instituída a repartição do Estado de São Paulo da qual Mário de Andrade chefiou os trabalhos durante alguns períodos até 1945 (quando faleceu). Além das “missões” culturais com o objetivo de registrar saberes populares e folclóricos nas regiões Norte e Nordeste em fins da década de 1930, Mário de Andrade junto com equipe técnica andou pelo Estado de São Paulo com o propósito de identificar construções que tivessem interesse histórico e que devessem ser recomendados para a proteção (tombamento), embora muitas estivessem em franco estado de degeneração.

Entre as suas “andanças” Mário de Andrade destacou edifícios religiosos como a Igreja de São Miguel (São Paulo – São Miguel Paulista), a Matriz de São Luiz de Paraitinga e a de Santana do Parnaíba; além de casas de cadeias, fortes e alguns poucos exemplares de arquitetura civil.

Igreja de São Miguel - São Miguel Paulista. Fonte: diretolivre.blogspot.com.br (esq.)  
Matriz de Santana do Parnaíba. Fonte: jrholanda.wordpress.com (dir.)
Mas Mário se encantou mesmo pelo Sítio Santo Antônio em São Roque, conjunto que continha um magnífico exemplar de casa bandeirista com sua capela. Ele comprou essa propriedade para doá-la ao SPHAN quando morresse, o que de fato ocorreu. A casa-sede e a capela passaram por trabalhos de restauro entre 1940 a 1947. Vale a visita!

Sítio Santo Antônio - Casa Sede (São Roque – SP) / Sítio Santo Antônio – Capela (São Roque – SP). 


Definitivamente, o pioneirismo cultural de Mário de Andrade merece um capítulo a parte em nossa História.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Caminhos e estradas

Por Angela Rosch Rodrigues | 

É sempre interessante verificar a forma com que as civilizações se apropriam do espaço através de seus caminhos; inevitavelmente, procura-se percorrer as menores distâncias e desvia-se dos principais acidentes geográficos buscando uma forma rápida e prática.

Muitos já escutaram aquele velho ditado: “Todos os caminhos levam a Roma”; de fato, o êxito deste Império esteve em parte associado à implantação de uma rede de estradas em ótimas condições que interligava até os territórios mais longínquos. As estradas romanas se caracterizavam pela inteligente técnica da pavimentação, caminhos em que pedras eram cuidadosamente justapostas para facilitar a marcha das tropas com todo seu aparato militar. A célebre Via Ápia (em torno de 300 A.C.), ainda surpreende pela engenhosa magnitude que percorre mais de 300 km. Uma boa rede de caminhos ou estradas era determinante não só por questões militares, mas também para intercâmbios comercias (como as Rotas da Seda que ligavam a Europa ao Oriente) e culturais. O tradicional Caminho de peregrinação de Santiago de Compostela, que liga o sul da França ao norte da Península Ibérica, foi fundamental, principalmente durante a Idade Média, para o desenvolvimento do dialeto galego-português que originaria a língua portuguesa.

Trecho da Via Ápia. Fonte: pt.wikipedia.orgTrecho do Caminho de Santiago de CompostelaFonte: www.brasilescola.com

Na América central, por exemplo, o Império Asteca com a capital em Tenochtitlan (onde hoje é a cidade do México) possuía estradas que ligavam o Oceano Pacífico ao Mar do Caribe, de modo que o imperador Montezuma tinha o privilégio de comer peixe fresco todos os dias e foi rapidamente informado da chegada dos espanhóis. As tribos indígenas brasileiras também possuíam uma rede de caminhos complexa que se conectava com outros povos. 

Na porção sul/sudeste do Brasil havia o chamado Peabiru (nome Tupi) uma estrada de 1,60m de largura sinalizada pela plantação de um tipo de erva que sempre nascia no mesmo local, conta-se que ligava os Andes ao Oceano Atlântico pelas atuais cidades de São Vicente e Cananéia abrangendo um percurso de 3000 Km. Foi por essa via que bandeirantes, como Raposo Tavares, se embrenharam pelo interior.

Vencer a “muralha” da Serra do Mar sempre foi um desafio e tanto para os habitantes da “Terra Brasilis”. Nesse caso fica bem evidente o paralelismo das estradas, sempre tentando amenizar as dificuldades do trajeto. Em 1790, foi iniciada a construção da primeira calçada de pedras no Brasil colônia, que iria percorrer 50 km e 700 metros de desnível na direção entre Santos e São Paulo amenizando o trajeto original (Estrada do Mar, ano 1661) em até 20%: a Calçada do Lorena; um empreendimento audacioso e grandioso, cuja construção que ficou a cargo do engenheiro militar João da Costa Ferreira, envolvia trabalhos de calçamento e contenção do terreno.

Trecho da Calçada do Lorena. Fonte: pt.wikipedia.org / Trecho da Calçada do Lorena. Fonte: www.ecofotos.com.br (Foto de Adilson Morales)
Seguindo um trajeto próximo, foi iniciada em 1840 a construção da Estrada da Maioridade, depois de algumas reformas foi renomeada como Caminho do Mar (Estrada Velha de Santos). Em meio ao projeto desenvolvimentista do governo de JK que visava a ampliação rodoviária, a Via Anchieta foi construída em fases a partir de 1947, ampliando e melhorando o acesso Porto – Capital, o que levou ao fechamento da Estrada Velha de Santos.

Trecho Rodovia Anchieta. Fonte: São Paulo Antiga
Atualmente tanto a calçada do Lorena quanto o Caminho do Mar são acessíveis através de visitas guiadas, em que é possível desfrutar de uma vista deslumbrante entre caminhos e monumentos históricos comemorativos como os projetados pelo arquiteto francês Victor Dubugras na década de 1920 (Pouso de Paranapiacaba, Rancho da Maioridade e Belvedere Circular, dentre outros). Vale uma visita!

Trecho “Caminho do Mar” (esq.) e Belvedere Circular, Km 46. Fonte: arvoresdesaopaulo.wordpress.com 
Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Cozinhas

Por Angela Rosch Rodrigues |

Numa casa, um dos lugares em que a funcionalidade está sempre a toda prova é a cozinha. Por ser o local em que se preparam os alimentos, a cozinha sempre teve um papel fundamental na organização de qualquer programa (de hotéis a navios) principalmente no doméstico.

Do ponto de vista do SERVIÇO, a cozinha em muitos casos funcionava como um “anexo” às edificações principais, pois envolvia fontes de calor e acesso rápido para o lado externo da casa (nos atuais apartamentos isso ainda fica evidente pelo chamado “acesso de serviço”). Há também que se considerar o aspecto SOCIAL, o que envolve, dentre outros, as alterações com o passar dos anos do papel feminino na organização doméstica.

Quadro "Cozinha Caipira" (1895) José Ferraz de Almeida Junior. Fonte: artefontedeconhecimento.blogspot.com.br
Esses espaços funcionais estratégicos vêm sendo objeto de constante aprimoramento. Alguns estudiosos no pós Primeira Guerra desenvolveram conceitos importantes para chegarmos aos atuais padrões de organização.

Em 1922, nos Estados Unidos, Christine Fredericks Mary Pattison já havia realizado um estudo que considerava as linhas de circulação da cozinha (estudo do fio). Em 1926 a arquiteta vienense Margarete Schütte-Lihotzky (primeira mulher formada pela Wiener Kunstgewerbeschule Architektur), desenvolveu um sistema de setorização revolucionário e crucial para a história das cozinhas modernas: a chamada Frankfurter Küche (Cozinha de Frankfurt).

Esse projeto foi desenvolvido para otimizar ao máximo a organização das cozinhas e seu mobiliário, para que esses “módulos funcionais” fossem inseridos nos projetos de apartamentos residenciais que estavam sendo implantados em massa naquele período na Alemanha, muitos sob a responsabilidade do arquiteto Ernest May. Margarete pesquisou sobre as distâncias, cronometrou os tempos da circulação, definiu medidas padrão como alturas de balcão/bancada/pia, tamanhos de armários, formas de organizar os gaveteiros, talheres, etc.

Cozinha de Frankfurt. Fonte: www.vam.ac.uk                Cozinha de Frankfurt. Fonte: kwassl.net
Já na década de 1930, também nos Estados Unidos Catherine Krause Bauer Wurster teve como objetivo racionalizar os movimentos das cozinhas. Ela foi responsável pelo clássico livro Modern Housing for America (1934) de grande impacto nos anos da depressão por procurar melhorar ao máximo a qualidade dos espaços produzidos para as camadas sociais desprivilegiadas.

Pesquisas continuaram e na década de 1950 foi estabelecido na Universidade de Cornell, EUA (Ithaca) o chamado “triângulo de trabalho” um modelo que tem a pia como ponto médio entre o retirar os alimentos da geladeira ou despensa, o preparo e a cocção no fogão. A denominação de todas as configurações de cozinha estão relacionadas sempre com esses três equipamentos básicos- pia, geladeira, fogão - surgem então denominações como cozinha em “L”, em linha, etc.

Cozinha atual – bancada em linha (Geladeira/fogão/pia). Fonte: www.cozinhasmodernas.net
Além dessa questão da organização física - espacial, há de se considerar a evolução tecnológica dos demais aparelhos eletrodomésticos (geladeiras, liquidificadores, batedeiras, cafeteiras, torradeiras, fornos, lava-louças, processadores, etc.). Além da forma de armazenar os ingredientes ou os alimentos prontos (o uso de geladeiras nas casas tem início a partir de 1913), a principal mudança ao longo dos anos é a diminuição do provedor da fonte de calor – o fogão ou o forno; é só imaginar que daquele grande fogão à lenha, chegamos hoje aos nossos Cooktops, microondas, etc.

Fogão a lenha em metal. Fonte: www.bohnen.com.br                 Cooktop. Fonte: mocoloco.com
Nossas contemporâneas cozinhas planejadas repletas de facilidades, ou ainda aqueles “espaços gourmet” tão em voga em alguns empreendimentos imobiliários, continuam sendo núcleos vitais: o CORAÇÃO da casa. O fato é que há uma tendência natural para que as pessoas se reúnam para comer em volta do fogo e em meio ao labor, do mais simples ao mais elaborado, do preparo da alimentação.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Muros, muralhas e fortes

Por Angela Rosh Rodrigues |

Hoje em dia é comum as pessoas entrarem em seus respectivos prédios, condomínios, casas com altos muros, guaritas, sistemas de alarme, grades, etc. e acharem, numa espécie de paranóia contemporânea, que a questão da segurança é um problema atual. O fato é que dando uma rápida olhada, sem profundidade, pela história dá pra perceber que isso não é novo. Ainda que com conotações diversas, segurança e proteção sempre foram preocupações recorrentes. Basta pensar que a única construção vista da Lua é uma Muralha!

Trecho da muralha da China. Fonte: Wikipedia
Castelos, fortes, fortalezas, torres, muros e a própria fundação de um povoado eram pensados de forma geograficamente estratégica (boa visibilidade, proximidade de fontes de água potável, relação com outras vias de acesso, etc.) para se garantir, não só a segurança, mas também o domínio de um território. Um caso bem ilustrativo é o complexo de Alhambra (Granada – Espanha), localizado no alto de uma colina, próximo à Sierra Nevada (cujas águas das “neves eternas” abastecem até hoje as famosas fontes da fortaleza). O conjunto teve o início de sua construção em torno de 1230 e foi o último reduto mouro na Península Ibérica a ser reconquistado pelos católicos somente em 1492.

Alhambra: vista do conjunto. / Alhambra: detalhe do uso da água no pátio de los Arrayanes. Fonte: Wikipedia
Aqui em nosso país, não é diferente. Ao longo do imenso litoral, o problema da segurança foi crucial para os colonizadores. Os principais núcleos urbanos foram fundados de forma a estarem amparados por um porto protegido, é o caso claro de Salvador guardado pela Baía de todos os Santos e do Rio de Janeiro guardado pela Baía de Guanabara, ou seja, um porto seguro, em que fosse possível encontrar afluentes de água doce. Até a cidade de São Paulo, cujo núcleo inicial foi onde hoje está o Pátio do Colégio, está visivelmente no alto de uma colina abastecida por águas fluviais (Rio Tamanduateí).

Mapa com indicação da baía de Todos os Santos. / Mapa com indicação da baía de Guanabara. Fonte: Wikipedia
Nesse contexto, os engenheiros militares vindos de Portugal, principalmente durante os dois primeiros séculos de colonização, foram de extrema importância por organizarem as novas cidades, realizarem obras de arquitetura civil e projetarem os equipamentos de defesa - fortes. Ainda hoje nos deparamos com esses exemplares, só pra mencionar alguns: Forte de Santo Antônio da Barra (Salvador), Forte dos Reis Magos (Natal), Forte Defensor Perpétuo (Parati), Fortaleza de São José da Ponta Grossa (Florianópolis) e o Forte de São José da Barra do Rio Negro (Estado do Amazonas).

Salvador: forte Sto. de Antônio da Barra e farol. / Florianópolis: Forte de São José da Ponta Grossa. Fonte: Wikipedia
No Estado de São Paulo, podemos mencionar dois exemplares interessantes, que chegam até nós após trabalhos de restauro e estão abertos à visitação: a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (Guarujá), cuja origem data de 1584, posteriormente teve acréscimos. E o Forte de São Tiago – ou São João (Bertioga), reconstruído em 1770, restaurado a partir de 1945. A localização estratégica dessas edificações pretendia garantir a segurança, principalmente, contra ataques piratas.

Guarujá: forte de Sto. Amaro da Barra Grande. / Bertioga: forte de São Tiago - ou São José. Fonte: Wikipedia
O tema, complexo e fascinante, tem sido detalhadamente estudado no âmbito acadêmico.

Vale uma visita!

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Nossas casas

Por Angela Rosch Rodrigues | 

O tema CASA pode até parecer “simplório”; por fazer parte de nosso cotidiano, moramos em uma e estamos cercados por elas. As pessoas sempre precisaram de um espaço que atenda à necessidade primária do ABRIGO, mesmo que seja somente para dormir e comer (a própria palavra LAR está relacionada ao local onde se ascende o fogo).

De um modo geral, as casas têm um único problema: por acompanharem e refletirem a dinâmica dos modos de vida, tendem a se tornarem obsoletas. Como morar bem HOJE numa casa bandeirista, numa sede de fazenda de café e até numa moderna casa do início do século XX? Não é impossível, mas seriam necessárias muitas adaptações.

Assim, são muitas as casas de “outros tempos” que hoje não são usadas como moradia, mas são adaptadas para outros USOS, geralmente, de ordem cultural pelo próprio valor histórico que possuem.

Temos vários exemplos, perto de nós, abertos à visitação. Somente para citar alguns aqui na capital paulista, vale mencionar: A Casa do Grito, no Parque da Independência é uma referência interessante que remonta a 1844. Consta na tela “Independência ou morte” (1888) de Pedro Américo, mas não fazia parte do cenário em 1822.

A Casa Bandeirista no Butantã, construída originalmente em taipa de pilão, é um típico exemplar da organização residencial em nossa região dos séculos XVII e XVIII.



A Casa das Rosas, um dos últimos casarões da Av. Paulista, projetada por Ramos de Azevedo em 1928, hoje abriga um centro cultural. Do mesmo ano a Casa Modernista, na Rua Santa Cruz, do arquiteto Gregori Warchavchik, constituindo a primeira obra da denominada arquitetura moderna no Brasil.

O Museu da Casa brasileira, que está instalado no antigo casarão com referências ecléticas e neoclássicas da década de 1940 que pertencia à família Prado.

A sede do curso de pós-graduação da Arquitetura e Urbanismo da USP, no bairro de Higienópolis, que funciona no palacete Vila Penteado, construído em 1902, um dos últimos remanescentes do estilo art nouveau na cidade de São Paulo.

Além das casas de pessoas abastadas ou ilustres que geralmente ficam para a posteridade, vale mencionar também outros tipos de moradas. O conjunto da Vila Maria Zélia no bairro do Belenzinho, por exemplo, foi concebido e construído entre 1911 a 1916 para abrigar os funcionários da tecelagem adjacente. Algumas das edificações originais desaparecerem, outras como as antigas escolas para meninos e meninas aguardam recuperação. Mas é interessante observar que mesmo com descaracterizações a vila mantém sua função de moradia, ainda que com outro caráter.

Outro interessante exemplo sobre a manutenção do USO da habitação é o Edifício COPAN, projetado por Oscar Niemeyer com a colaboração do arquiteto Carlos A.C. Lemos. O edifício que de fora chama a atenção por sua forma sinuosa, foi construído entre 1952 a 1961, ainda hoje reúne cerca de 1150 apartamentos de 1, 2 ou 3 dormitórios convivendo com um andar térreo de uso comercial.

O fato a ser destacado aqui é que o modo com que as pessoas constroem e organizam suas casas tem sido crucial para se compreender um determinado contexto histórico - sócio - cultural.

O programa “padrão” desta mesma casa em que moramos HOJE - com salas (de estar, jantar, TV), lavabo, quartos, banheiros, cozinha, lavanderia, escritório, varanda, quarto de empregada, despensa, garagem e jardim - não é só importante para a organização de nossa vida, mas, com certeza, pode se tornar um valioso documento para as futuras gerações compreenderem este nosso estilo de vida.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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