Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Muros, muralhas e fortes

Por Angela Rosh Rodrigues |

Hoje em dia é comum as pessoas entrarem em seus respectivos prédios, condomínios, casas com altos muros, guaritas, sistemas de alarme, grades, etc. e acharem, numa espécie de paranóia contemporânea, que a questão da segurança é um problema atual. O fato é que dando uma rápida olhada, sem profundidade, pela história dá pra perceber que isso não é novo. Ainda que com conotações diversas, segurança e proteção sempre foram preocupações recorrentes. Basta pensar que a única construção vista da Lua é uma Muralha!

Trecho da muralha da China. Fonte: Wikipedia
Castelos, fortes, fortalezas, torres, muros e a própria fundação de um povoado eram pensados de forma geograficamente estratégica (boa visibilidade, proximidade de fontes de água potável, relação com outras vias de acesso, etc.) para se garantir, não só a segurança, mas também o domínio de um território. Um caso bem ilustrativo é o complexo de Alhambra (Granada – Espanha), localizado no alto de uma colina, próximo à Sierra Nevada (cujas águas das “neves eternas” abastecem até hoje as famosas fontes da fortaleza). O conjunto teve o início de sua construção em torno de 1230 e foi o último reduto mouro na Península Ibérica a ser reconquistado pelos católicos somente em 1492.

Alhambra: vista do conjunto. / Alhambra: detalhe do uso da água no pátio de los Arrayanes. Fonte: Wikipedia
Aqui em nosso país, não é diferente. Ao longo do imenso litoral, o problema da segurança foi crucial para os colonizadores. Os principais núcleos urbanos foram fundados de forma a estarem amparados por um porto protegido, é o caso claro de Salvador guardado pela Baía de todos os Santos e do Rio de Janeiro guardado pela Baía de Guanabara, ou seja, um porto seguro, em que fosse possível encontrar afluentes de água doce. Até a cidade de São Paulo, cujo núcleo inicial foi onde hoje está o Pátio do Colégio, está visivelmente no alto de uma colina abastecida por águas fluviais (Rio Tamanduateí).

Mapa com indicação da baía de Todos os Santos. / Mapa com indicação da baía de Guanabara. Fonte: Wikipedia
Nesse contexto, os engenheiros militares vindos de Portugal, principalmente durante os dois primeiros séculos de colonização, foram de extrema importância por organizarem as novas cidades, realizarem obras de arquitetura civil e projetarem os equipamentos de defesa - fortes. Ainda hoje nos deparamos com esses exemplares, só pra mencionar alguns: Forte de Santo Antônio da Barra (Salvador), Forte dos Reis Magos (Natal), Forte Defensor Perpétuo (Parati), Fortaleza de São José da Ponta Grossa (Florianópolis) e o Forte de São José da Barra do Rio Negro (Estado do Amazonas).

Salvador: forte Sto. de Antônio da Barra e farol. / Florianópolis: Forte de São José da Ponta Grossa. Fonte: Wikipedia
No Estado de São Paulo, podemos mencionar dois exemplares interessantes, que chegam até nós após trabalhos de restauro e estão abertos à visitação: a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (Guarujá), cuja origem data de 1584, posteriormente teve acréscimos. E o Forte de São Tiago – ou São João (Bertioga), reconstruído em 1770, restaurado a partir de 1945. A localização estratégica dessas edificações pretendia garantir a segurança, principalmente, contra ataques piratas.

Guarujá: forte de Sto. Amaro da Barra Grande. / Bertioga: forte de São Tiago - ou São José. Fonte: Wikipedia
O tema, complexo e fascinante, tem sido detalhadamente estudado no âmbito acadêmico.

Vale uma visita!

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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