Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Caminhos e estradas

Por Angela Rosch Rodrigues | 

É sempre interessante verificar a forma com que as civilizações se apropriam do espaço através de seus caminhos; inevitavelmente, procura-se percorrer as menores distâncias e desvia-se dos principais acidentes geográficos buscando uma forma rápida e prática.

Muitos já escutaram aquele velho ditado: “Todos os caminhos levam a Roma”; de fato, o êxito deste Império esteve em parte associado à implantação de uma rede de estradas em ótimas condições que interligava até os territórios mais longínquos. As estradas romanas se caracterizavam pela inteligente técnica da pavimentação, caminhos em que pedras eram cuidadosamente justapostas para facilitar a marcha das tropas com todo seu aparato militar. A célebre Via Ápia (em torno de 300 A.C.), ainda surpreende pela engenhosa magnitude que percorre mais de 300 km. Uma boa rede de caminhos ou estradas era determinante não só por questões militares, mas também para intercâmbios comercias (como as Rotas da Seda que ligavam a Europa ao Oriente) e culturais. O tradicional Caminho de peregrinação de Santiago de Compostela, que liga o sul da França ao norte da Península Ibérica, foi fundamental, principalmente durante a Idade Média, para o desenvolvimento do dialeto galego-português que originaria a língua portuguesa.

Trecho da Via Ápia. Fonte: pt.wikipedia.orgTrecho do Caminho de Santiago de CompostelaFonte: www.brasilescola.com

Na América central, por exemplo, o Império Asteca com a capital em Tenochtitlan (onde hoje é a cidade do México) possuía estradas que ligavam o Oceano Pacífico ao Mar do Caribe, de modo que o imperador Montezuma tinha o privilégio de comer peixe fresco todos os dias e foi rapidamente informado da chegada dos espanhóis. As tribos indígenas brasileiras também possuíam uma rede de caminhos complexa que se conectava com outros povos. 

Na porção sul/sudeste do Brasil havia o chamado Peabiru (nome Tupi) uma estrada de 1,60m de largura sinalizada pela plantação de um tipo de erva que sempre nascia no mesmo local, conta-se que ligava os Andes ao Oceano Atlântico pelas atuais cidades de São Vicente e Cananéia abrangendo um percurso de 3000 Km. Foi por essa via que bandeirantes, como Raposo Tavares, se embrenharam pelo interior.

Vencer a “muralha” da Serra do Mar sempre foi um desafio e tanto para os habitantes da “Terra Brasilis”. Nesse caso fica bem evidente o paralelismo das estradas, sempre tentando amenizar as dificuldades do trajeto. Em 1790, foi iniciada a construção da primeira calçada de pedras no Brasil colônia, que iria percorrer 50 km e 700 metros de desnível na direção entre Santos e São Paulo amenizando o trajeto original (Estrada do Mar, ano 1661) em até 20%: a Calçada do Lorena; um empreendimento audacioso e grandioso, cuja construção que ficou a cargo do engenheiro militar João da Costa Ferreira, envolvia trabalhos de calçamento e contenção do terreno.

Trecho da Calçada do Lorena. Fonte: pt.wikipedia.org / Trecho da Calçada do Lorena. Fonte: www.ecofotos.com.br (Foto de Adilson Morales)
Seguindo um trajeto próximo, foi iniciada em 1840 a construção da Estrada da Maioridade, depois de algumas reformas foi renomeada como Caminho do Mar (Estrada Velha de Santos). Em meio ao projeto desenvolvimentista do governo de JK que visava a ampliação rodoviária, a Via Anchieta foi construída em fases a partir de 1947, ampliando e melhorando o acesso Porto – Capital, o que levou ao fechamento da Estrada Velha de Santos.

Trecho Rodovia Anchieta. Fonte: São Paulo Antiga
Atualmente tanto a calçada do Lorena quanto o Caminho do Mar são acessíveis através de visitas guiadas, em que é possível desfrutar de uma vista deslumbrante entre caminhos e monumentos históricos comemorativos como os projetados pelo arquiteto francês Victor Dubugras na década de 1920 (Pouso de Paranapiacaba, Rancho da Maioridade e Belvedere Circular, dentre outros). Vale uma visita!

Trecho “Caminho do Mar” (esq.) e Belvedere Circular, Km 46. Fonte: arvoresdesaopaulo.wordpress.com 
Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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