Por Angela Rosh Rodrigues |
As reflexões de grandes personalidades sempre foram determinantes para a compreensão da importância da preservação do patrimônio. Na França, por exemplo, Victor Hugo escreveu “O Corcunda de Notre-Dame” (1831) com o objetivo de promover a importância da catedral de Paris que passava por graves degenerações.
As reflexões de grandes personalidades sempre foram determinantes para a compreensão da importância da preservação do patrimônio. Na França, por exemplo, Victor Hugo escreveu “O Corcunda de Notre-Dame” (1831) com o objetivo de promover a importância da catedral de Paris que passava por graves degenerações.
Aqui em nosso país, a figura de Mário de Andrade geralmente está ligada às suas obras literárias de vanguarda em meio ao desenvolvimento do Modernismo no Brasil como “Paulicéia Desvairada” (1922), “Amar - verbo intransitivo” (1927), “Macunaíma” (1929), dentre outras; não é à toa que o nome da Biblioteca Municipal de São Paulo seja em sua homenagem.
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| Retrato de Mário de Andrade por Tarsila do Amaral. Fonte: www.portalsaofrancisco.com.br (esq.) Biblioteca Mário de Andrade. Fonte: www.prefeitura.sp.gov.br (dir.) |
Como um intelectual de ampla visão cultural, Mário de Andrade também teve um papel decisivo para a preservação do nosso patrimônio. Durante o Estado Novo, na década de 1930, Gustavo Capanema do Ministério de Educação e Saúde solicitou a Mário de Andrade um anteprojeto para a criação de um órgão de preservação nacional. Mário demonstrou então uma abordagem avançada cuja concepção antropológica de cultura enfatizava o caráter popular e a identidade local. Naquele momento, este anteprojeto foi adaptado e a redação final ficou por conta do advogado Rodrigo Melo Franco de Andrade instituindo em 1937 o SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que atualmente é conhecido como IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Os conceitos lançados por Mário são muito atuais e hoje subsidiam idéias referentes ao “patrimônio imaterial”, ou seja, aquele patrimônio que não pode ser medido pela materialidade física, como o frevo, a Feira de Caruaru, dentre outros. Neste anteprojeto consta ainda a determinação do termo “tombamento”, que, ainda hoje, é utilizado como o principal instrumento para a preservação dos nossos bens culturais.
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Mário de Andrade, viagens culturais (1927). Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/ (esq.)
Patrimônio imaterial - Frevo. Fonte: www.onordeste.com (dir.) |
Logo depois da criação do SPHAN foi instituída a repartição do Estado de São Paulo da qual Mário de Andrade chefiou os trabalhos durante alguns períodos até 1945 (quando faleceu). Além das “missões” culturais com o objetivo de registrar saberes populares e folclóricos nas regiões Norte e Nordeste em fins da década de 1930, Mário de Andrade junto com equipe técnica andou pelo Estado de São Paulo com o propósito de identificar construções que tivessem interesse histórico e que devessem ser recomendados para a proteção (tombamento), embora muitas estivessem em franco estado de degeneração.
Entre as suas “andanças” Mário de Andrade destacou edifícios religiosos como a Igreja de São Miguel (São Paulo – São Miguel Paulista), a Matriz de São Luiz de Paraitinga e a de Santana do Parnaíba; além de casas de cadeias, fortes e alguns poucos exemplares de arquitetura civil.
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Igreja de São Miguel - São Miguel Paulista. Fonte: diretolivre.blogspot.com.br (esq.)
Matriz de Santana do Parnaíba. Fonte: jrholanda.wordpress.com (dir.) |
Mas Mário se encantou mesmo pelo Sítio Santo Antônio em São Roque, conjunto que continha um magnífico exemplar de casa bandeirista com sua capela. Ele comprou essa propriedade para doá-la ao SPHAN quando morresse, o que de fato ocorreu. A casa-sede e a capela passaram por trabalhos de restauro entre 1940 a 1947. Vale a visita!
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Sítio Santo Antônio - Casa Sede (São Roque – SP) / Sítio Santo Antônio – Capela (São Roque – SP).
Fonte: tunel-tempo.blogspot.com.br
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Definitivamente, o pioneirismo cultural de Mário de Andrade merece um capítulo a parte em nossa História.
Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.



