Um lugar para arquiteturas, artes e afins - Nossas casas

Por Angela Rosch Rodrigues | 

O tema CASA pode até parecer “simplório”; por fazer parte de nosso cotidiano, moramos em uma e estamos cercados por elas. As pessoas sempre precisaram de um espaço que atenda à necessidade primária do ABRIGO, mesmo que seja somente para dormir e comer (a própria palavra LAR está relacionada ao local onde se ascende o fogo).

De um modo geral, as casas têm um único problema: por acompanharem e refletirem a dinâmica dos modos de vida, tendem a se tornarem obsoletas. Como morar bem HOJE numa casa bandeirista, numa sede de fazenda de café e até numa moderna casa do início do século XX? Não é impossível, mas seriam necessárias muitas adaptações.

Assim, são muitas as casas de “outros tempos” que hoje não são usadas como moradia, mas são adaptadas para outros USOS, geralmente, de ordem cultural pelo próprio valor histórico que possuem.

Temos vários exemplos, perto de nós, abertos à visitação. Somente para citar alguns aqui na capital paulista, vale mencionar: A Casa do Grito, no Parque da Independência é uma referência interessante que remonta a 1844. Consta na tela “Independência ou morte” (1888) de Pedro Américo, mas não fazia parte do cenário em 1822.

A Casa Bandeirista no Butantã, construída originalmente em taipa de pilão, é um típico exemplar da organização residencial em nossa região dos séculos XVII e XVIII.



A Casa das Rosas, um dos últimos casarões da Av. Paulista, projetada por Ramos de Azevedo em 1928, hoje abriga um centro cultural. Do mesmo ano a Casa Modernista, na Rua Santa Cruz, do arquiteto Gregori Warchavchik, constituindo a primeira obra da denominada arquitetura moderna no Brasil.

O Museu da Casa brasileira, que está instalado no antigo casarão com referências ecléticas e neoclássicas da década de 1940 que pertencia à família Prado.

A sede do curso de pós-graduação da Arquitetura e Urbanismo da USP, no bairro de Higienópolis, que funciona no palacete Vila Penteado, construído em 1902, um dos últimos remanescentes do estilo art nouveau na cidade de São Paulo.

Além das casas de pessoas abastadas ou ilustres que geralmente ficam para a posteridade, vale mencionar também outros tipos de moradas. O conjunto da Vila Maria Zélia no bairro do Belenzinho, por exemplo, foi concebido e construído entre 1911 a 1916 para abrigar os funcionários da tecelagem adjacente. Algumas das edificações originais desaparecerem, outras como as antigas escolas para meninos e meninas aguardam recuperação. Mas é interessante observar que mesmo com descaracterizações a vila mantém sua função de moradia, ainda que com outro caráter.

Outro interessante exemplo sobre a manutenção do USO da habitação é o Edifício COPAN, projetado por Oscar Niemeyer com a colaboração do arquiteto Carlos A.C. Lemos. O edifício que de fora chama a atenção por sua forma sinuosa, foi construído entre 1952 a 1961, ainda hoje reúne cerca de 1150 apartamentos de 1, 2 ou 3 dormitórios convivendo com um andar térreo de uso comercial.

O fato a ser destacado aqui é que o modo com que as pessoas constroem e organizam suas casas tem sido crucial para se compreender um determinado contexto histórico - sócio - cultural.

O programa “padrão” desta mesma casa em que moramos HOJE - com salas (de estar, jantar, TV), lavabo, quartos, banheiros, cozinha, lavanderia, escritório, varanda, quarto de empregada, despensa, garagem e jardim - não é só importante para a organização de nossa vida, mas, com certeza, pode se tornar um valioso documento para as futuras gerações compreenderem este nosso estilo de vida.

Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.
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