Por Angela Rosch Rodrigues |
Há quem ache um tanto mórbido, mas para muitas das ciências sociais o estudo de ritos e mitos ligados à morte são uma fonte riquíssima de estudo, pois cada cultura e crença possui uma determinada relação com o tema. Para as artes em geral, não poderia ser diferente: a arquitetura e escultura tumulares constituem um amplo capítulo. Nessa área, não existe nada de mais emblemático do que as pirâmides do platô Gizé, imensos e misteriosos conjuntos de pedra, designados pela historiografia tradicional como túmulos (embora hajam controvérsias), estrategicamente implantados onde o Sol se põe e onde a cheia do Nilo não atinge, simbolizam de forma contundente a relação que os homens podem estabelecer entre vida, morte e eternidade, pois lá - à parte do atual apelo turístico - tudo é deserto, tudo é silêncio.
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| Pirâmides - Platô de Gizé, Cairo - Egito |
No segmento cristão, foi comum durante muitos séculos cemitérios em anexo às igrejas e também a prática de que alguns fiéis ou membros distinguidos fossem sepultados dentro do templo. Na Catedral de Westminster, por exemplo, estão grandes figuras históricas como: Isaac Newton, Charles Darwin, Charles Dickens, Händel, dentre outros.
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| Catedral de Westminster, Londres - Inglaterra. Túmulo Isaac Newton. (fonte: pt.wikipedia.org). / Catedral de de Westminster, Londres - Inglaterra. Túmulo Charles Darwin. (fonte: tumulosfamosos.blogspot.com.br) |
O aspecto simbólico dos cemitérios realmente é pujante, seja porque guardam os remanescentes de vidas anônimas cujos feitos foram ou não heróicos ou porque guardam aquelas personalidades mais marcantes da História. Assim, alguns cemitérios são mundialmente conhecidos e inevitavelmente entram nos circuitos de visitação como: o Cemitério Nacional de Arlington – Washignton, com a famosa sequência de lápides idênticas dos soldados; o Cemitério Père-Lachaise em Paris com os túmulos de Balzaz, Comte, Chopin, Edith Piaf, Jim Morrison, etc.; o Cemitério Central de Viena, com os grandes mestres da música erudita Beethoven, Bramhs, Johann Strauss (pai e filho); dentre outros.
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Cemitério de Arlington, Washignton - EUA. /
(fonte: pt.wikipedia.org/wiki) |
Aqui em nosso país há diversos cemitérios de reconhecido valor cultural, inclusive, tombados pelo IPHAN, dentre eles podemos destacar as ruínas do cemitério e igreja jesuíta de Porto Seguro e o Cemitério do Imigrante em Joinville, de origem predominantemente protestante, fundado em 1851 e tombado em 1962. Já Na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição em Ouro Preto, está sepultado Aleijadinho.
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Ruínas de Igreja e Cemitério jesuíta, próx. ao centro histórico Porto Seguro - BA. (fonte:projetocaminhosportoseguro.blogspot.com) / Cemitério do Imigrante, Joinville - SC. (fonte: skyscrapercity.com)
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| Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, Ouro Preto - MG (fonte: pt.wikipedia.org) / Tumulo de Aleijadinho, Ouro Preto - MG. (fonte: tumulosfamosos.blogspot.com) |
Na cidade de São Paulo, há a importante referência do Cemitério da Consolação, inaugurado em 1858, numa localização estratégica por questões de salubridade, fora do núcleo central, que com passar do tempo e o crescimento urbano está hoje totalmente inserido na cidade. Lá estão diversas personalidades como: Marquesa de Santos, Monteiro Lobato, Ramos de Azevedo (que projetou o pórtico de entrada, muros laterais e capela do cemitério), Mário de Andrade, famílias industriais (Crespi, Matarazzo, Penteado), dentre outros. No segmento da arte tumular, o cemitério é uma referência por conter esculturas dos renomados Victor Brecheret, Celso Antônio Silveira de Menezes, dentre outros.
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Cemitério da Consolação - Capela, projeto Ramos de Azevedo. (fonte: commons.wikimedia.org) / Cemitério da Consolação - Escultura Victor Brecheret. (fonte: pt.wikipedia.org)
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Visitar e apreciar esses lugares é sempre uma experiência interessante e impactante, ainda mais com uma recepção como a do pórtico de entrada do cemitério da cidade de Paraibuna no Vale do Paraíba em São Paulo, digna de virar título do premiado documentário brasileiro (1998) baseado no livro Era dos Extremos: o breve século XX do historiador Eric Hobsbawm (1998).
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| Pórtico de entrada - Cemitério da cidade de Paraibuna - SP (foto: Flávio Pereira Cláudio Vieira) |
Angela Rosch Rodrigues é arquiteta e urbanista, mestre em História e fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo e colaboradora do Pastilhas Coloridas.






