Álbuns Clássicos - Canto das Três Raças (Clara Nunes)

Por Marcelo Mendez

O legal de falar aqui dos discos clássicos são as ótimas lembranças que eles nos remetem. Era o ano de 1979 na Rua Tanger...

Aquele era um tempo ermo, onde não tinha computadores, internet, pastilhas coloridas e “Mac Donalds” no Parque novo Oratório era para os mais interados aí, algo próximo ao nome de um meia direita escocês, ou galês. Naquela época as pessoas tinham mais tempo para se frequentarem e conviverem.

Das minhas lembranças de menino, consta uma dessas vivencias. No PNO, já havia o terreiro da Dona Nena, ainda hoje minha vizinha. Aos domingos quando não tinha as funções de santo, sempre rolava uma galinhada com samba. A coisa começava cedo, quando as mulheres acordavam para depenar as galinhas, preparar os molhos e temperos. Naquela hora a primeira musica que eu ouvia de minha casa, era o tal CANTO DAS TRES RAÇAS, cantada a plenos pulmões por Dona Nena, uma senhoura negona que tem hoje 81 anos, nigeriana, mãe de santo de 1,90 de altura e altivez.

Eu sabia que era aquela a minha hora de levantar e curtir as coisas maravilhosas que curti de menino de subúrbio. Hoje, ÁLBUNS CLÁSSICOS vai trazer aqui um pouquinho disso com um disco que embalou aqueles momentos lindos de minha tenra infância.

Então, senhouras e senhoures com vocês O CANTO DAS TRÊS RAÇAS da guerreira CLARA NUNES de 1976...

E que mulher foi Clara!

Nascida Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, vinda de Paraopeba, Minas Gerais, Clara para mim é uma das maiores cantoras do mundo! Mulher forte, guerreira, correta, talentosa, se destacou por suas pesquisas sobre musica popular brasileira, seus ritmos, folclores e nuances, pelas origens e história de seu povo, de quem realmente construiu essa história. Reside na minha retina de menino de 9 anos aquela morenona lindíssima rodando, fazendo a gira maravilhosamente santa, ao som de Morena de Angola... Veio do pai...

Seu Mané Serrador, o papai, era Marceneiro em uma fábrica de tecidos e também era ótimo violeiro. De pequena Clara lembra do velho levando os filhos para Folia De Reis e das festas de santo no quintal de casa. Morreu cedo, assim como sua mãe e desde então começa a luta de minha heroína.

Ralou como tecelão, peoa de firma e o diabo até que em 1960, após conhecer Aurino Araujo, tem la por este a sua primeira gravação viabilizada, SERENATA DO ADEUS. Dai a coisa decola... Clara grava participações em programas de radio e TV até que vem finalmente o primeiro disco, em 1969 pela Odeon “Beleza que Canta”. Na década de 70 chega à afirmação como Cantora de Samba à vera mesmo...

Clara passa a gravar discos que jamais ficam abaixo das 100 mil cópias vendidas até chegar ao estrondoso 1 milhão de cópias com “Claridade” em 1975, com um hino do samba que quem sabe o Vinicius não coloca aqui de bônus (hahaha) “Mar Serenou”. Aí chegamos então em 1976...

Isso é disco pra ouvir de joelho!!!

Contando com essa preciosidade que é a faixa-título O CANTO DAS TRES RAÇAS, composta por Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte, tem nele umas odes como Lama de Mauro Duarte, Tenha Paciência e Riso e Lagrimas de Nelson Cavaquinho, Retrato Falado do meu amigo e mestre Eduardo Gudin e Paulo Cesar Pinheiro...

Em 1977 o disco chega aos absurdos 1 milhão e duzentos mil cópias vendidas! No ano seguinte, Clara grava um disco que se torna um dos mais importantes da história do samba no Brasil, FORÇAS DA NATUREZA, totalmente dedicado aos estudos sobre o partido alto, mas aí é outra história que a gente conta outro dia...

Hoje deixamos aqui o Canto Das Três Raças no Player, e o presente como sempre tá na capa, é só clicar na imagem.

Tasca o play ae!

Clara Nunes - Canto das três raças
Share: