Por Marcelo Mendez
E chega segunda-feira, dia nobre pra crônica futeboleira. Aqui no Canela de Ferro não é diferente. E a nobreza a qual me refiro é muito menos pelo que aconteceu nos campos nossos e muito mais pelo sujeito o qual me fulmina a mente e os pensamentos nos últimos dias, anos e vida. Darcy Ribeiro veste a chuteira pra bater uma bola conosco aqui...Darcy faz parte da mais fina intelectualidade brasileira. Pensador que foi muito grande como Escritor, Antropólogo, Sociólogo, Ministro e principalmente como Homem. Como disse Antonio Candido, “Darcy impressiona pela incrível capacidade de viver várias vidas numa só, enquanto maioria de nós mal consegue viver uma...”
Dentre seus vários feitos, dessas suas lindas vidas, o mestre escreveu um livro que me emociona pelo que tem de mais Legitimo, do que tem de mais representativo como Brazuca. O seu livro O POVO BRASILEIRO é pra ler por todo sempre. Um capitulo dele, de nome Criatório de Gente, tem la algo que muito nos apetece aqui para assuntos ludopédicos. O Cunhadismo.
O velho uso indígena que servia para incorporar o fulano as suas famílias, as suas tradições e seus ganhos era uma espécie de amarra que firmava grupos familiares que acabavam virando corporações mesmo. Junto com o casamento do cara com a índia, vinha toda uma leva de gente junto. Mais ou menos o que tem acontecido com nosso futebol. Pois senão vejamos o que ocorre...
Após a derrota da maravilhosa seleção nossa em 1982, na copa da Espanha, criou-se um pensamento fixo e burro que o futebol brasileiro precisava se europeizar, precisava ser mais forte, marcar mais, dar mais carrinho, ser mais truculento para não perder mais copas como perdeu aquela para Itália. Com essa premissa surgiu no Brasil uma figura pra lá de contraditória
O técnico de futebol. Sim amigos... sumiu aquela figura do Treinador.
Aquele sujeito bom, conhecedor da pelota, sabedor das coisas do campo e da vida, não teve mais espaço. No lugar dele surgiu aquele caboclo empolado, pernóstico, com ternos bem cortados e cafonamente belos, ostentando arrogantemente um Boss, um Armani em um sol de 42 graus de Rio Preto ou Madureira. Um cara frio, tacanho, sem nada de próximo, sem calor humano sem uma reação que seja verdadeiramente honesta e real.
Essa condição é algo que se alastra e que contamina todos os setores ludopédicos conscientemente ou não, como no caso do clássico de ontem entre Santos x Corinthians, terminado em vitória do peixe por 1x0 na Vila Belmiro. Por lá, dois homens do futebol; Tite e Murici Ramalho.
Nenhum deles pode ser enquadrado dentro desse tipo ae do técnico neoliberal que descrevi acima. Mas o cunhadismo do mal rola por osmose no futebol...
A nova que surge é a necessidade de mudar o jeito de Paulo Henrique Ganso jogar. O homem é uma das melhores coisas que apareceram no futebol nosso nos últimos 15 anos ao lado de Neymar. E agora se diz que “Desse jeito que Ganso joga, ele não teria lugar no Manchester City, no Milan, no Manchester United, no Real Madrid". Bem, azar do City, do Milan, do Manchester e do Real Madrid, então !
Em um jogo besta, chato, modorrento, óbvio e comum, um jogador que para, que tem a ousadia rara nos tempos de hoje de, pensar! Ele pega uma bola, faz o tempo parar de acordo com sua vontade, tem por lá a inspiração de um Ailton Lira, Didi e Jair da Rosa Pinto e mete uma bola imortal para Ibson marcar o 1x0 final.
E com um passe o homem salva-nos da mediocridade plena. Com um passe de fita métrica, contraria toda a falácia dos “pofexô” de futebol e suas teses de velocidade, trombada e correria e novamente da ao futebol um pouco de encanto. E ae, querem mudar o moço...
Amigo leitor vos digo. Uma das coisas que mais nos caracterizam é nosso poder sermos nós mesmos. Nossa enorme vontade de sermos Brasileiros, nos faz um povo ímpar no mundo todo. Como já cantou o amigo Vicente Barreto, “A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho, ninguém precisa consertar”.
A gente é caboclo, a gente tem a pele morena, a gente fala português do nosso jeito, a gente não é grande, mas a gente é o Romário contra os Suecos; se derem um vacilo a gente entra no meio da sua zaga de gigantes e metemos gols de cabeça.
É no mínimo uma atitude duvidosa, tentar adaptar um jogador da mais fina estirpe, do que há de mais nobre na nossa linhagem ludopédica há um pseudo modernismo. Mais honesto seria lutar para afirmar tudo isso em campo. Fazer valer o que nos diferencia em campo, o que nos fez sermos de fato o país de futebol que um dia fomos. É muito triste ver tudo isso acontecendo e não fazer nada. Da um baita desanimo e vontade de fazer outra coisa. Bem...
Vou então assoviar um samba e ler o Darcy...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.