Por Marcelo Mendez
Desde molequinho ouvia esse disco por conta de meu pai, o Velho Mauro. Mas confesso que ali com 12, 13 anos a coisa obviamente não me chamava atenção. Isso até o dia que fiz minha primeira grande cagada amorosa e levei merecidamente meu primeiro cartão vermelho da dona de então.
Foi duro...
Com 17 anos senti que os caminhos do coração seriam lindos sim, mas por vezes também poderiam ser doloridos e tensos como tudo que há de bom na existência plena. Era uma terça-feira, fucei nas garrafas de casa, encontrei la uma de Cynar, uma outra de Fogo Paulista, enchi o potão, chorei pra caralho e coloquei na vitrola o primeiro disco que vi pela frente. Hoje to vindo aqui para contar um pouco da história dessa bolacha.
Ah Piazzolla...
Piazzolla é o que tenho de mais latino, de mais sangue, de mais amor, de mais ódio, de mais fúria de mais ternura, de mais pleno e mais denso sem se preocupar com o equilíbrio pífio das conveniências... Piazzolla é meu igual. Piazzolla num toca na minha pick up, ou no cd player, Piazzolla me toca na alma, no lindo convexo que é o meu ser latino.
Nascido Ástor Pantaleón Piazzolla no ano da graça de 1921 em Mar del Plata, começou a viver música desde seus 4 anos de idade quando seus pais zarpam para Nova Iorque em busca de melhores condições de vida. Por lá, em 1933 começa a ter aulas de piano, se apaixona pelo Jazz e no meio disso tudo, ainda moleque, conhece o cantor Carlos Gardel. O que muda radicalmente sua vida. Rodou ao longo das décadas seguintes, ao longo de grandes caras do Jazz, da literatura, da música... Um inovador!
Ao longo dos anos fez de tudo para dar uma cara moderna ao Tango. Mudou seu timbre, sua harmonia, sua concepção, sua cara. Conta com parceiros do naipe só de Jorge Luis Borges para esse ensejo...
Aí chegamos no ano de 1974.
Piazzolla já andava meio de saco cheio das coisas quando tem a ideia de tentar algo totalmente diferente. Então monta seu octeto e entra em estúdio para gravar um dos discos imortais do século XX
Libertango é divino!
Conta com todas as inovações descritas acima em músicas antológicas como Libertango, Meditango, Violentango e um desses momentos em que o homem alcança a divindade... Na música ADIOS NONINO Piazzola chegou a dizer que “Deveria estar rodeado de anjos me assoprando a melodia dessa música. Porque nunca mais vou conseguir fazer algo próximo de Adios Nonino”... Então para o player ae embaixo num vai dar pra deixar algo que não seja ela. Para entender um pouco do que é o tango, bem.. Tem um compositor argentino de nome Discépolo que acho que definiu mui bien la cosa:
"O tango é um pensamento triste que se pode dançar"
Então os senhores tasquem o play ae embaixo, cliquem nas capas para pegar a bolacha e perigas ver...
Astor Piazzolla e o Quinteto Tango Nuevo - Adios Noninho (Holanda/1985)
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.

