O soneto dos impuros e a Incomunicabilidade Palmeirense segundo Michelangelo Antonini

Por Marcelo Mendez

O futebol nosso de toda a segunda aqui no Canela de Ferro nos remete hoje a uma reflexão, quer dizer, remete a mim esse pobre e velho cronista a uma daquelas coisas do coração... que falam ao coração a partir de assuntos ludopédicos. Enfim...

Quem me conhece sabe do amor que tenho pelo Meu Palmeiras.

Alguns poucos queridos e selecionados amigos sabem da história da minha família, das ótimas tardes no Palestra com meu velho Pai, Seu Mauro... Aqui vos digo que o meu verde é algo muito maior do que apenas um time de futebol. É algo que faz parte da minha vida, portanto esse é um sentimento que não precisa ser manifestado a todo instante afinal de contas, a gente não quer ficar falando de nossa vida o tempo todo. Mas após o último sábado com a vitória do Palmeiras por 2x1 em cima da Ponte Preta, um pensamento me veio à mente.

O atual momento entre eu e o Palmeiras. Uma coisa pra lá de Antonioni...

Michelangelo Antonioni é mestre do cinema italiano e mundial. Criou a partir dos anos 50/60 uma série de filmes que ficaram conhecidos como parte da Trilogia da Incomunicabilidade. Uma tese do mestre de que vivamos um mundo sem esperança de nada, de nenhum entendimento nas relações humanas.


Em seu filme clássico, o imortal A NOITE, ele usa para afirmar essa tese um casal, Lídia e Giovanni, que insatisfeitos com seu casamento tentam em uma noite discutir a relação deles, mas de maneira inútil já que não coneguem de forma alguma definir o motivo da desavença. Eis o cerne da Obra:

Para Michelangelo Antonioni, os relacionamentos afetivos entre casais parecem nunca encontrar uma saída satisfatória e dai se dá a Incomunicabilidade da coisa toda. Ai que tá o nó da coisa em nossos assuntos ludopédicos... O que passa entre o Palmeirense e o seu Palmeiras?

O amigo leitor que me acompanha aqui bem sabe das coisas que luto para voltar a ver em campos de futebol. Já me defini aqui como um mendigo ludopédico que vaga de estádio em estádio com um pires na mão implorando, “um chapéu no zagueiro por favor...” “Uma Caneta por entre as pernas, moço...” “Um lançamento bem feito, por gentileza”... “Um pouquinho só de encanto pelo amor de Deus-que-ceis-credita nas entrevistas...” E nem to pedindo tanto...

Mesmo para um time como o Palmeiras que não é lá uma benção, mas têm uns bons jogadores como Daniel Carvalho, como o Valdivia quando ele resolve jogar bola, Marcos Assunção, o bom lateral Juninho, o ótimo camisa 9 Hernan Barcos... Mesmo esse time pode ter la um bom futebol para apresentar. Sábado por exemplo tava tudo certo para isso acontecer:

Noite bonita, o time embalado, jogando para frente, abrindo o placar com Juninho as 3 minutos de jogo, ampliando com Assunção aos 18 em um gol de falta só pra variar e o time da Ponte, totalmente entregue, perdido, sem ter pra onde ir, sem ter como correr pra lugar algum que não fosse o precipício, o calvário das chuteiras pífias... Era só seguir tocando a bola, criando espaços e abrir uma goleada. Mas bem...
Sabe la o diabo porque, o time recuou, deixou de atacar, perdeu o ímpeto de golear e até conseguiu tomar um gol no final do primeiro tempo, finalizando o 2x1 que seguiu burocraticamente por todo segundo tempo naquela manjada premissa de “Seguramos o resultado e mantivemos os três pontos...”

“Seguramos o resultado...”

Coisa mais triste. Mas aqui para assuntos ludopédicos vivemos uma nova ordem. Existe la os torcedores “neoliberais-globalizados” que se contentam com isso de “conseguir o resultado”. É a tal da meta e como já andei falando, um homem que só vive para a meta é um cara muito chato. Prefiro aquele homem la do Leminski que, “com uma dor é muito mais elegante.” E aí se dá a incomunicabilidade que me apetece para o causo nosso.

Eu não sei mais o que fazer para conseguir afinar a minha relação com o meu Palmeiras enquanto torcedor. Já fico em duvida em saber se eu não deveria também ficar feliz com o resultado no placar, com a tal liderança no Campeonato Paulista, com esse arremedo de grandeza que o esforçado time nosso tem dado ao tão sofrido torcedor.

Sei lá...

Eu entendo que uma partida de futebol tem muitos outros compromissos muito mais relevantes para quem gosta dele. Isso vai além do tal “resultado”. Futebol é arte. É cultura, organização, política, sociedade e alegria. Eu sinto muito meu Palmeiras...

Sinto muito, mas não da pra ficar feliz com um pobre 2x1 em cima da Ponte Preta em um sábado de lua dos amantes... Em uma noite para Fellini filmar Duda Cavalcante em Ipanema, não posso me contentar com Jeane Moreau em quarto fechado discutindo um casório com meu xará Mastroianni. Eu quero mais, quero outro tipo de encanto. E nem é tanto o que lhe peço:

Só quero te ver feliz de novo, meu Palmeiras...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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