Pastilhas de um Carapuceiro - Monalisa das calçadas

Por Xico Sá

É um segundo da mais absoluta beleza. Essa semana dei sorte e flagrei novamente um desses momentos. Geralmente, eles acontecem na rua. Lá vinha a morena. Minhas retinas fatigadas fecham em close. Que maravilha. Aquele sorriso, como digo, indecifrável. Porque não se trata de um sorriso besta de alguma felicidadezinha passageira, de um ganho financeiro, da sorte no amor ou no jogo. É mais enigmático.

Muito mais do que o sorriso da Monalisa, que, reza a lenda, era o sorriso de uma grávida. Não é o sorriso dos paraísos artificiais dos remédios tarjas pretas ou de alguma pastilha psicodélica. Nada. Não é apenas o sorriso de quem recebeu uma notícia alvissareira, passou no concurso ou viu o regime fazer o efeito pretendido, uns quilos a menos, nova silhueta, que beleza! Nem chega perto.

Também não é o sorriso de quem ouviu uma cantada de amor com requintes de vida eterna.

A moça que ri sozinha na calçada é um mistério.

Não é o riso de quem ouviu uma piada, um “gostosa”, “tesouro”, como dizia o Didi Mocó etc etc. É bem mais profundo. O poeta Manuel Bandeira, em correspondência com o cronista Rubem Braga, dizia que se tratava de momento raro, raríssimo, era mercadoria que não tinha preço, êxtase, coisa mais linda... Mas não arriscou um diagnóstico. Nem entrou no mérito, observou, e pronto, basta.

Será que a moça que vem na calçada ri de alguma coisa que despencou-lhe, naquele exato instante, do trapézio da memória? Alguma coisa muito engraçada dos tempos em que ela era uma pequena, uma piveta, quem sabe uma queda de uma árvore ao subir pela primeira vez no pé de jambo da frente da casa suburbana?

Não é o sorriso de quem recebeu carta do estrangeiro, carta do amor que um dia escafedeu-se, saiu para comprar o king size do desamor e do desprezo.

Às vezes parece um pouco com um certo sorriso de maldade. Uma pontinha de vingança, quem sabe. Mas que nada. Só parece. Nada disso. À medida, mesmo naquele rápido segundo, que os lábios voltam ao normal, desfazendo o sorriso, vê-se que não tem nada de maldoso naquele retrato.

Muito menos é tingido pelo gloss sabor uva da ironia ou o batom vermelho das vingativas. Não, não é nada irônico, nada ressentido.

Quanto mistério num sorriso de tão pouco tempo. Daria uns cinco anos de vida em troca do esclarecimento desse enigma de um segundo. Chego até a refletir, cofiando a barba rala e dando pequenos nós na costeleta: será que é consciente, será que elas sabem que o misterioso sorriso toma conta do rosto naquela hora?

Não, também não é só sexo. Por mais que o gozo, a pequena morte, como dizem os franceses, faça bem à pele e seja motivo do carnaval particular no peito, não é esse ainda o motivo isolado daquele sorriso, um sorriso mais invocado do que o sorriso do gato de Alice.

Gastaríamos telas e mais telas, árvores e mais árvores, em especulações ainda sem rumo. Coisa de agoniar o juízo. Melhor mesmo apreciar, estoicamente, esse lindo mistério das crias das nossas costelas.

Xico Sá, escritor e jornalista, colunista da Folha, autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e mais 10 livros. Na TV, participa do programa “Saia Justa” no canal GNT. E agora é parceiro nosso aqui pelas bandas do Pastilhas. (Texto extraído do blog O carapuceiro)
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