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Pastilhas de um Carapuceiro - Do amor ilhado de amor, ou conta outro velho Jim Jarmusch

Por Xico Sá 

"Estávamos em paraty, lembra, meu amor?". E uma vez cumprida a obrigação lítero-guntenberguiana-boêmia-picareta-cachacística da Flip, buscamos um barco para fugir, de ressaca, para uma ilha, quando o moço triste nos arrastou mar-adentro, tão lentos o motor e o rapaz, seguimos nada esperávamos a não ser trocar umas palavras novas como são os vocábulos inaugurais do amor sobre as águas repisadas pelos moços dos sertões e pelas mais lindas mineiras.

O moço triste nos contou tb uma história de amor sem sentido, como a nossa.

Passamos pelas ilhas dos milionários idiotas e eu gastei uns impropérios liricamente comunistas...

Passamos por um navio que lembrava uma favela romântica ou um navio igualmente milionário lindamente saqueado por piratas profissas.

Sim, amor, era Paraty, seguimos e o moço com cara de filme de Jim Jarmusch nos ancourou em um quintal de família. Parou o barco e achava que estávamos no paraíso. Nada havia lá de tão bom assim que já não esperássemos nos nossos coraçõezinhos superbonders & aralditosamente colados. Até as crianças eram chatas e não bebiam sangria como los niños de Espana. Nada para vender ou comprar, baby, nada mesmo, só uma areinha de nada, cinco metros se muito, e uma família triste, tão triste que nem havia um gordo feliz e sequer um radinho deixado por R. Crusoé ao pé de uma bananeira artificial.

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Pastilhas de um Carapuceiro - De como inventar um final feliz

Por Xico Sá

"Você pode fazer de mim uma mulher
digna de ser amada?" Ilia
Neste veraneio, lembrei muito de Ilia, encanto de moça, musa do mar Mediterrâneo, grega que não gostava das tragédias escritas na sua terra, preferia sempre um outro final para tais histórias. Daí contava o mais triste das desgraças caseiras, como Édipo-Rei, por exemplo, sempre com epílogo de felicidade. Ninguém matava ninguém, muito menos filho e pai, a mãe só entrava no meio e, no “the end”, todos espocavam champanhe no litoral.

Conheci Ilia em “Nunca aos domingos”, filme de 1960, dirigido por um bravo Jules Dassin, homem perseguido nos EUA por causa das suas ideias generosamente comunistas.

Ilia é uma bela e caridosa prostituta. Quando gosta mesmo de um cara, não cobra nada. Em um bar na beira do cais, brinca de transformar o trágico em leveza. Os marinheiros e demais convivas riem abestalhados com tamanha graça da fofa.

Ela ama a vida, desde que nunca ouça o que chama "a voz de domingo", a conversa fiada do homem apaixonado que lhe pede em casamento. Ela quer apenas se divertir. E pronto.

Mas eis que chega Homero, um norte-americano abestalhadíssimo que vai para a Grécia estudar as razões da derrocada do macho helênico. A pretensão é entender porque um povo tão sábio, cujos professores foram Sócrates e Aristóteles, entre outros bambas da filosofia e da arte, está entregue à farra, à esbórnia e à banalidade.

Ele tenta, de todas as maneiras, tirar Ilia daquela vida. Só o conhecimento salva, pensava o besta. A loira (a atriz Melina Mercouri) até que cai um pouco no conto do mala, mas logo se recupera. Apenas um pequeno drama.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Não se morre de amor nos trópicos

Por Xico Sá

Sossega, nega, não se morre de amor nos trópicos. A morte amorosa é uma invenção dos que hibernam como ursos da Sibéria ou cinzentos donzelos alemães...

O tio tenta uma filosofia de consolação para a amiga que sofre e pena entre a Angélica e Augusta como se fosse num inferno verde de fitzcarráldica fábula babilônica labiríntica, danou-se! a menina nas asas da hipérbole-helicóptera.

Te juega, nega, aqui não se morre disso.

Se o jovem Werther aqui fosse nascido, até choraria um tanto o seu infortúnio, mas já já algum vagabundo passaria na sua casa e eles iriam tomar um ele & ela (caldinho com cachaça) na Várzea ou no Pina, freguesia do Recife.

Iam tirar uma onda na barraca de Jesus ou no seu Rainha, na mesma cidadela invicta, iam tomar uma com Franciel, pura ingresia da Bahia, lá nas beiradas do mercado de São Joaquim, na frente daqueles garajaus com bodes pretos e galinhas idem, além dos gabirus na lama dos currulepes que ali dançam aos pés dos bêbados, seres com ou sem asas para trabalhos de macumba, como reza o manual de zoologia daquele cego portenho da gota.

Sossega, preta, roga uma praga neste peste e pronto, cai de novo na lama milagrosa do hedonismo. E se a vida atropelar, de nuevo, na mesma curva, anota a placa, menina, e arrisca no bicho.

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Pastilhas de um Carapuceiro - A mentira tem pernas curtas, mas torneadas

Por Xico Sá

A mentira tem pernas curtas, mas bem torneadas, como as de Lurdinha, por exemplo, minha prima e musa da lan house de Solidão, Pernambuco.

A mentira tem pernas curtas, mas é pra lá de sexy, usa um shortinho que só vendo, de parar a Rebouças, de fechar o comércio.

A mentira é só um modo menos doloroso de se editar a vida, um corte, uma linguagem, diz um amigo que não sai da sua gelada ilha de edição nem para ir ao banheiro.

Democrática, a mentira nasceu para todos como o sol dos trópicos.

Mente o católico e o evangélico também mente ao dizer que esse mal jamais sairia da sua boca. Mente o judeu, mente o árabe da Faixa de Gaza e só não mente o homem-bomba porque não volta para contar a história.

O macho mente, mas mente muito melhor a fêmea, ela tem a manha, o esmero, o escopo, a marcenaria da coisa, o dom de iludir como na canção de Noel & Vadico, a treta, o apuro, a língua, o domínio.

De tanto abusarmos da moça de pernas curtas, nós, os marmanjos, banalizamos tal prática, nos entregamos pelo olho, pelos trejeitos, mesmo quando se trata da mentira mais sincera.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Da arte de espiar as mulheres

Por Xico Sá

Tem alguma coisa que não bate nessa pesquisa inglesa, compadre. Ora, como assim, só gastamos, em média, 43 minutos por dia mirando las chicas, olhando para as mulheres?!

É o que revelou o estudo feito pela Kodak Lens Vision Centres, uma firma evidentemente interessada no que se passa na nossa vista, afinal de contas é do ramo e vive disso.
Menos de um tempo de jogo de futebol por dia de tocaia?

Não, compadre, mesmo os entrevistados sendo todos ingleses, rapazes mais tranqüilos, mais “cool”, como eles se acham, não é possível. O pior: na terra da Rainha ainda ficaram espantados com os números. Acharam que era tempo demais, tempo perdido, como se gastar as retinas com as fêmeas fosse coisa d´outro mundo, mal-assombro que balança as cortinas mesmo quando o vento está parado.

Tudo bem, as britânicas não possuem os belos latifúndios dorsais das nossas mulheres, mas 43 minutos a gente atinge nos trópicos assim que deixa o lar doce lar e pisa na calçada, caso dos pedestres inegociáveis como este bípede cronista. Aliás, gasto bem antes, pois adoro aquele momento em que a cria da minha costela escolhe as vestes, ah, quanta angústia, que lindo. E quando ela diz, dramática, como uma atriz de tragédia grega, “saco, não tenho roupa!” Mesmo com o armário repleto. Eu entendo. Aliás, ela nem diz mais, só pensa, e eu já adivinho.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Réquiem para o amor de muito ou samba do epitáfio

Por Xico Sá

Nem fomos ao mar para ver o nosso amor morrer na praia. Nosso amor morreu engarrafado, na correria do povo para deixar São Paulo, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora. Nosso amor largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz.

Stop, parou o nosso amor ou é apenas um sinal fechado?

Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Paraíso e saltando na Consolação, a linha do último metrô de todos os amores expressos. Aí nosso amor, puto da vida, bebeu cachaça, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, pegou um papelote de quinta na Augusta, gastou a pele, fez besteiras e vomitou bem muito o foie-gras dos nossos próprios fígados. Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, e não foi apenas o barulho da construção mais demorada do que a catedral de Colônia, a Transamazônica ou o castelo de Kafka.

Nosso amor só pode estar tirando onda da nossa cara, é o tipo do amor que sabe rir da nossa desgraça, um amor de rapariga da última luz vermelha do fim do mundo, um amor da porra, que não respeita as leis do cosmo, nosso amor é uma ficção barata, café puro, pão na chapa, nosso amor nem esfriou ainda o cadáver, acabou no auge, como a carreira de Pelé, como os Beatles, nosso amor era sábio.

E como os amores reencarnam, muito cuidado, senhoras e senhores, nosso amor pode estar rondando ai a sua área. Prendam o infeliz criminoso, onde está a polícia que não vê uma coisa dessas, tio Nelson? Nosso amor, para ser mais exato, acabou hoje, em plena sexta da paixão: sentimento que costuma alimentar os inícios, jamais os finais. Vai entender esse troço, nossos dialéticos corazones batiam o bumbo das contradições. O fato, amigo, é que nosso amor era mais bacana do que nós dois juntos!

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Pastilhas de um Carapuceiro - Psicanálise de pobre

Por Xico Sá

Foi numa prosa molhada com a melhor bagaceira de Salinas, aquela que entorta as pernas e endireita a alma, que discorremos, este cronista vira-lata e o menino bom Cláudio Assis, sobre a capacidade que os cães têm de ouvir os homens.

Já reparou, meu caro, como tem sempre um miserável se queixando da vida para o seu cachorrinho magro debaixo do viaduto, dentro do seu barril à Diogenes ou debaixo da marquise da esquina?

Sim, doutor Freud, psicanálise de pobre é blasfemar para o cão amigo.

O danado não fala nada, mas nos ouve que é uma beleza, presta mais atenção do que uma sábia coruja.

Falamos por horas, infinitas sessões pelo custo de um osso, o mesmo da sopa, aquele clássico osso que desce e sobe na cordinha gasta da rotina em molambos.

A mulherzinha, também só o fiapo de gente, foi embora com outro vagabundo mais lascado ainda? É com o cachorro que desabafamos, não com um semelhante, que ainda é capaz de espalhar e fazer chacota do nosso humaníssimo chifre.

Tirávamos a onda e Assis, que é do ramo do tal cinema, já pensava na cena. Corta para um cabra macho chorando diante do seu humilde cãozinho sem plumas lá no Mercado do Pirajá, em Juazeiro, o maior ajuntamento de cachorro magro do universo.

Mas claro, meu velho, que o vira-lata também um dia nos dá alta, enche o saco, finge que estamos curadíssimos, saudáveis até os miolos, não suporta mais as repetidas malices.

O cão, assim como Diógenes, o filósofo grego envelhecido no mais cínico dos barris de carvalho, como me contou o amigo Duda Fonseca, não suporta algumas frescuras humanas, como a ressaca moral, por exemplo. O bicho detesta.

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Pastilhas de um Carapuceiro - O orgulho macho do Sr. Detalhes

Por Xico Sá

Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada.

Está ai, nesse verso de Roberto e Erasmo, um dos maiores orgulhos da raça humana.

Mais importante do que o chifre em si, amigo de infortúnio e gaia ciência, seria a simples pronuncia do seu abençoado batismo.

Pense num cara que zela pelo seu próprio nome na praça!

A vaidade é tão grande que o nosso personagem, um dos melhores da canção romântica brasileira, parte do pressuposto que qualquer outro rapaz, que não ele, é apenas a pessoa errada, o cavaleiro da triste figura troncha, nada mais.

Nem do outro cabeludo, que pode aparecer na sua rua, o ciúme orgulhoso era tanto. Reza a lenda do velho Pasquim, aliás, que o cabeleira em questão teria sido o Tarso de Castro, escriba e macho de Passo Fundo, tchê.

Zero em modéstia e altruísmo, o Outro, o urso, o dom Ricardão de las Pontas, não passa de um coitadinho capaz de fazer a pequena lembrar do sr. dos detalhes tão pequenos.
Pense em um cara convencido: não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver.

Apenas em um capítulo do conhecimento humano, a criatura esquece o pecado da soberba e reconhece que não é o pai da matéria. Sim, no caso dos erros do português ruim, naquele 1971 pós-reforma ortográfica. Mas mesmo assim, observe, a falha é motivo de orgulho –duvida que a “pessoa errada” pise maltrate mais a língua pátria do que ele.

Pense em um cabra metido a besta!

Haja pabulagem, amigo, uma carrada de amor próprio, caminhões e mais caminhões auto-estima ladeira arriba.

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Pastilhas de um Carapuceiro - A mulher X A danada

Por Xico Sá

- Ou ela ou eu - disse Germana, toda metida no seu vestidinho de palha, no seu Ronaldo Fraga de bananeira.

O pobre do cachaceiro ficou passado, perplexo no seu zarolhismo a 45º de graduação alcoólica.

Arrastá-lo dos bares era um serviço humanitário tão comum à patroa quanto lavar roupa suja ou discutir a relação envelhecida em barris de estrago.

Mas naquele dia tudo seria diferente. Deparou-se logo com a birra da empalhada, que reivindicava, no mínimo, mais gratidão do cachaceiro a quem tanto manguaçara.

- Ou ela ou eu - disse de novo, botando fogo pelas ventas.

Sem permitir a réplica feminina, incendiou mais ainda o ambiente, a Mercearia São Pedro, diga-se, ali no alto da vila Madalena:

- Cansei de te derrubar em colo de vagabunda...

Embora muito educada, uma fofa, a patroa não suportou a humilhação:

- Você está acabando com a vida desse infeliz... Repare só o farrapo humano que virou.

- Ah, minha santa, a graça desse bofe sou eu, Bovary ces´t moi. Dou-lhe verve, ânimo, o luxo da coragem, mato-lhe a timidez e os assombros...

- Desalmada, destruidora de lares, você acaba com o que sobra desse infeliz...

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Pastilhas de um Carapuceiro - Marcação homem a homem

Por Xico Sá

Muito engraçado - sim, minha senhorita, pode chamar também de ridículo - como os homens se cumprimentam. Um dos costumes imutáveis da natureza do macho. Seja em inglês, nordestinês, mineirês ou na língua dos esquimós. É de uma delicadeza de fazer corar o Charles Bronson.

No “Gran Torino”, filmaço que andou pelos cinemas e já chegou em DVD, o Clint Eastwood, diretor e ator principal, dá uma aula ao seu pequeno pupilo sobre as saudações iniciais nos encontros dos cavalheiros. De morrer de rir. Ou de “se abrir”, como se diz na minha terra sobre o ato de gargalhar sem culpa ou cerimônia.

Falo da cena da barbearia, que não é capital no enredo mas injeta uma cápsula de testosterona no filme digna dos grandes faroestes. O durão Walt Kowalski (Clint), veterano da guerra da Coréia, mostra para o adolescente como adentrar o recinto e cumprimentar o barbeiro.

“Seu italiano ladrão de merda” é o mais agradável dos tratamentos que se ouve na pedagogia do velho. O sr. Walt treina o guri, que entra e sai no estabelecimento, repetindo a lição. O barbeiro responde à altura. “Seu china miserável eu acabou com a sua raça”. Uma onda.

Assim é no dia-a-dia, encontramos um chapa, amigão mesmo, e detonamos. Temos várias formas de esculhambá-lo carinhosamente: pelo seu lugar de origem, pelo seu time do peito, sexualidade, chifre, tamanho da pança, pouca resistência para a cachaça ou pela donzelice propriamente dita, claro, caso das criaturas que acumulam o queijo coalho do desejo no juízo.

Tudo é motivo para a gozação, o chiste, a pilhéria, a gréia, a fuleiragem social clube propriamente dita. É, macho, a gente não cresce nunca nesse aspecto. Neste e em mais uns seiscentos itens da existência. E olhe que não estamos falando daquela perobice do Peter Pan e sua roupinha clorofilada de viagem. A gente não cresce mas também não tergiversa. Essa lorota da Terra do Nunca ou Jardins de Kensington, sei não, melhor voltar à velha e resistente conversa de barbearia, please.

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Pastilhas de um carapuceiro - Na linha do coração e da vida

Por Xico Sá

Vejo aqui na linha do coração um amor mal-resolvido", soprou este mago que vos lê a sorte e sina. A mocinha, uma deusa balconista ali dos arredores da praça Patriarca/SP, assanhou as sobrancelhas. "Ele vai voltar pra mim?", avexou-se em saber.

"O infeliz te ama muito, mas é cheio de dúvidas e nove-horas, sabe como são essas coisas", tergiverso, na moral, enquanto afago, carinho esotérico com fundo levemente erótico, a mão direita -uma mão espadulada, conforme meus conhecimentos prévios de quiromancia.

A minha primeira consulente, na tenda improvisada no viaduto do Chá, sai comovida, esperançosa. Falar em amor mal-resolvido é golpe certeiro para qualquer alma penada. A consulta gratuita, "dumping" na concorrência cigana e baiana, atraiu os passantes. De graça, nego entra na fila até para ouvir o dia da morte.

O segundo foi chegando como quem chega do bar. Ótimo. Nada mais fácil do que prever o futuro de um ébrio. "Todo mundo crê em alguma coisa; eu, por exemplo, creio que vou tomar um uísque", recepciono a criatura, ajambrando um boutade de Grouxo Marx. "Me leva com vossa pessoa, então", soluça o rapaz, fino, bom humor. Com uma alma bêbada, melhor aplicar as cartas. Ele saca mais rápido e vai logo traçando o baralho, como se fôssemos disputar um truco. Começou a dar trabalho. Decido então o seu destino: dou-lhe umas moedas para tomar uma cerveja. Ele arreda, feliz, feliz...

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Pastilhas de um carapuceiro - Quando elas dizem 'estou confusa'

Por Xico Sá

Amigos machos, amigas fêmeas, como berram nas suas manchetes as revistas de modas & modinhas, o homem é mesmo a nova mulher e vice-versa.

O que impressiona o cronista não é nem o troca-troca de sexos, tampouco a confusão dos gêneros e suas modernidades. O que mais chama a atenção é o discurso amoroso de mãos trocadas: cada vez mais a mulher fala como homem e o homem, por seu modo, cada vez mais afina a voz e choraminga como uma mulher leitora de romances do tipo Sabrina, saca?

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Pastilhas de um Carapuceiro - Oração à Nossa Senhora dos que amam sozinhos

Por Xico Sá

Nossa Sra. dos que Amam Sozinho, perdoa-me pela insistência, nem mais é por tanto quere-la, é por deixar claro, nega que sopra das intimidades dessa oração, que só ela me faz passar da conta, perversa, cair no abismo mais lindo do gozo sem volta, como naquele encosto de beira de estrada, como na rodovia estrangeira de Sam Shepard, crônicas de motel, simbora!

Nossa Sra. dos que só pensam nela, cotovelos lanhados de tanta espera, tantos sustos nas ruas, nos bares, “é ela!!!”, Nossa Sra. Dos Cotovelos da Surpresa e das janelas, tão gastos, cinzas, peles, dobras, e tanta fome de viver aqui dentro, megalomaníaco, épico, terá sido a força do desprezo???

Não creio, sr. Albero Moravia.

É mesmo a paudurescência, nostalgia precoce das grandes histórias, o tempo inteiro, pensando, pensando, pensando, mas no fundo gostas!

Os joelhos lanhados pela romaria, devoção e insistência.

Nossa Sra. da Vida Alongada que consegue, nos seus exercícios de Kama Sutra, me levar à coisa mais sagrada.

Nossa Senhora!!!

Amor demorado, anjo exterminador da alcova sem pílulas milagrosas. Amor por tê-la, rara. Beijá-la delicadamente, como um cristão que dissolve na boca uma hóstia.

Amar por horas, riachinhos d´águas que não se sabem donde, cada cantinho dum mapa que se inventou só pra se perder depois, sentimento é a verdadeira bússola dum homem, perdido docemente lá embaixo, lá embaixo, daquelas tuas vestes modernas que nunca te escondem.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Em busca da sogra perfeita

Por Xico Sá

Folclorizada no último, espécie de bumba-meu-boi dos casamentos, a sogra sempre foi motivo de chacota e demonização nos lares doces lares. Óbvio que há um certo e maligno inseticida do exagero pulverizado sobre a mãe das nossas mulheres, mas, convenhamos, as referidas senhoras estão longe de obter o alvará de soltura e de inocência neste debate.

O problema é sério e universalíssimo. Não há a velha divisão antropológica -entre civilização e barbárie- em matéria de sogra. A mãe da cria das nossas costelas age da mesma forma em qualquer parte do planeta. Seja na Suécia, no Crato ou no reino dos esquimós e avatoscos.

Viram só a iniciativa da Igreja Católica na Itália? Começou a tentar reeducá-las, em nome da manutenção dos casamentos e da paz nos lares doces lares. Incluíu no pacote de moral cristã também os sogros. Eles perturbam menos, porém também carecem de uns bons pitos e cascudos.

O curso para as queridas sogras começou na cidade de Udine, no norte italiano. A tendência é que o Vaticano o estenda pelo mundo inteiro. O projeto, com ajuda de altos e gabaritados psicólogos, se chama "Famílias em diálogo, como ser pais eficientes com filhos que vivem a experiência de casal".

Em alguns rincões daquele lindo país macarrônico, os sogros são responsáveis por até 50% do desmantelo conjugal dos pombinhos. Os outros 50% devem ficar por conta do tédio propriamente dito e inevitável dos casais, claro, a falta de sexo, a infidelidade, o futebol retranqueiro etc etc.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Pelos poderes de Grayskull

Por Xico Sá

As mulheres com filhos são especiais, especialíssimas, mas o inesperado encontro com os seus rebentos, em um corredor estreito, minutos antes do dia clarear direito, podem nos deixar mais perdidos do que barata em salão de forró ou gafieira, uma loucura, uma batalha napoleônica, aquela coisa toda, pinel mesmo, sentindo-me um boa-praça da Tamarineira azeitando o eixo do sol na quarta-feira de cinzas, um calouro no Mira y Lopez, um trelelé que acabou de dar entrada no Galba Veloso, para ficar apenas em alguns dos sanatórios gerais do Recife, Fortaleza e Belo Horizonte.

Foi assim que me vi, revi, quando, numa ressaca miserável, rumei do leito amoroso em busca de um copo de água gelada depois da primeira noite com uma ex-ex-ex.

Tem mercadoria mais preciosa, amigo, em um final de madruga, depois de uma farra monstra, do que um copo de água gelada? Vale por um açude de Orós, vale por uma barragem de Tapacurá, vale por toda a bacia hidrográfica do rio das Velhas, prosseguindo aqui a nossa conversa com o Ceará, Pernambuco e Minas, a santíssima trindade que publica em respeitosos jornais essa crônica.

Pois sim, mal este abestalhado que vos bafeja a prosa abriu a porta... Mal este mamador profissa chutou aquele taco solto do apartamento da nega... Mal este infame mirou uma luz mínima, uma réstia de nada...

Mal este carga-torta, com uma brasa em cada branco do olho, tomou consciência do universo, Nossa Senhora dos Paus d´Água, mal arrumou os óculos fundo-de-garrafa sobre a napa moura, e já veio aquela criatura enfurecida com uma espada toda iluminada, incandescente, de modo a me deixar mais areado e perdido do que pitomba em boca de banguela.

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Pastilhas de um Carapuceiro - O cadarço moço!

Por Xico Sá

O personagem Edgar, da peça “Bonitinha mas ordinária”, do tio Nelson, dizia, salivando, obsessivo, atribuindo a sentença ao Otto Lara Resende: ”O mineiro só é solidário no câncer.”

O mineiro aqui entra como metonímia, claro, mas deixemos o próprio Edgar com a palavra, de novo: “Mas olha a sutileza, não é bem o mineiro, ou não é só o mineiro. É o homem, o ser humano. Eu, o senhor ou qualquer um, só é solidário no câncer. Compreendeu?”

Sim, a frase do tio Nelson continua atualíssima, mesmo que alguns desalmados, até mesmo parentes próximos, tentem ignorar doenças graves dos seus entes queridos.
Se no capítulo da saúde só há solidariedade no câncer, nas ruas, hoje em dia, o brasileiro só é solidário no momento do cadarço desamarrado.

Tente andar cem metros com os sapatos em desalinho.

Dificilmente conseguirá.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Sobre Homens & Busões

Por Xico Sá

Amigos e amigas, vai saber lá o porquê das somas completas dos inconscientes, mas num encontro outro dia com Fred 04, no clube Clash, em São Paulo, falamos de tudo, principalmente da importância ou da desimportância do ônibus, o velho busao, o busão-blues de todas as esperas e bacuraus perdidos madrugas adentro.

Até criamos, na utopia mais avexada, um movimento cuja milhagem é a narrativa, o homem e a mulher em pé na parada. Pense. Tem gente que gamou, casou e fez filhos a partir dessa hora, né? Mãozinhas dadas no mesmo assento, zolhinhos gastos com a mesma paisagem a caminho de casa, ela descendo e a gente, cavalheiros no último, beijando a mão e a recebendo na rua, PRINCESA de todos os meios-fios e calçamentos!

Só vale na vida o que se conta de pé, o resto é alcova e fuleragem... Fuleragem enquanto vingança do Nordeste, o melhor dos mundos, a nossa sabedoria particular de rir no nirvana ou na desgraça, a nossa linda lição de existência tão grande quanto a sabedoria de Nietszche.

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Pastilhas de um Carapuceiro - Algumas receitas de crônicas

Por Xico Sá 

Algumas saem fáceis, menina, como aquelas de Rubem Braga, como uma polaroid, uma pose digital, olha o passarinho, diga xis, um sabiá teimando contra o barulho da metrópole, fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis, na dança, na pista, uma moleza, como empurrar bêbado em ladeira, como Vinícius no elogio de uma saboneteira, como descer para um café ou uma cerveja aqui na esquina da Augusta, como quem costura para fora, mesmo sabendo quanto custa a mais-valia da musa da encomenda, mesmo sabendo que na vida não tem almoço de graça, muito menos sobremesa, mesmo sabendo que a vida não é café pequeno, mesmo sabendo que no fundo da xícara, na borra mais árabe, o desenho do futuro, Etelvina, é obscuro, o jogo do bicho, Etelvina, ainda não permite o teu luxo.

Algumas, menina, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, furando o asfalto para tirar uma florzinha de nada, a peleja do escriba com o lirismo que não chega nunca, as chagas abertas, croniquinha raquítica, só o fiapo de narrativa, sem sustança, sem tutano, coisinha sem graça, metalingüística, a crônica sobre a crônica falta de assunto.

Algumas vêem ao mundo para confundir a audiência, são crônicas-travestis, arte dos cronistas transgêneros... Pois é, menina, a gente não sabe se é um conto, uma rápida elegia expressionista, um poema em prosa, sabe-se lá, menina, mas mesmo não sendo nada já nasceram crônicas.

Algumas, não têm jeito, eram apenas notícias, que o dedógrafo teimou em decepar as aspas, minha menina, e enfeitar o naturalismo como pôde, coitado.

Algumas, menina, são para ninar as moças nas sestas, como as de Antônio Maria, sabia?
Algumas são de costumes, e até ficam como registros históricos, crônicas de épocas, já ouviu falar em João do Rio?

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Pastilhas de um Carapuceiro - Cão de guarda do sono da amada

Por Xico Sá 

“Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”, sopra o velho escritor Alberto Moravia, sempre aqui na cabeceira.

Uma das melhores coisas da vida é observar a pessoa amada que dorme,entregue, para além dos pesadelos diários.

Como bem disse Antônio Maria, o grande cronista que aparece com ciúmes até da própria sombra no livro da Danuza , um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

Experimente você também, sensível leitora, vê o seu homem quando dorme. Há uma beleza nessa vigília que os tempos corridos de hoje não percebem.

Amar é... vê-lo(a) dormindo.

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Pastilhas de um Carapuceiro - V de Veneno, V de Vanzolini, V de Vingança

Por Xico Sá

A mulher chega na frente do bar, assim como não quer nada, vasculha com as vistas, e vai embora. Mais adiante repete o mesmo ritual em outra freguesia. Está desesperada à procura do marido, do traste, do vagabundo, como deve ser tratado doravante.

De tanto ver tal cena na capital paulista, quando trabalhava como patrulheiro de ruas no baixo meretrício, Paulo Vanzolini fez a música “Ronda”, como relatou certe vez, durante uma série de homenagens aos 85 anos, o poeta e sambista que é  celebrado em filme (“Um homem de moral”, direção de Ricardo Dias), shows, bate-papos, conferências, etc.

Ele merece, ô, se merece, embora prefira receber honras pelo seu trabalho como zóologo da USP, doutor em biologia em Harvad, cientista especializado em répteis. No momento, para se ter idéia da obsessão do homem que não pára de pesquisar a vida, Vanzolini estuda o comportamento das cascáveis.

Criatura que rasteja, seja macho, fêmea ou bicho é com ele mesmo. A sua música está repleta da gente que esperneia, desassossego, como a dama que procura o seu marido, amante ou cacho em uma longa viagem ao fim da noite paulistana.

E foi ao ouvir de novo a canção que joguei na mesa do botequim o debate: esta mulher ainda existe? A destemida que enfrenta o frio e as almas sebosas da madruga em busca do seu homem?

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