Por Marcelo Mendez
João Parahyba, músico de fina estirpe, uma dos fundadores do lendário Trio Mocotó, e também responsável por uma das grandes revoluções que o nosso samba passou ali pelo final dos anos 60 e começo dos anos 70, chega aqui nesse espaço para nos ajudar a contar a história de maaaaaiss um grande disco. A coisa é assim...
Em 1973 Dizzy Gillespie decidiu que faria uma volta aí pelo mundo atrás de sonoridades, experiências e afins. Definiu o começo da coisa pelo Mali, voltou para Republica Dominicana, e antes de Cuba, quis passar no Brasil e ver qual era de uma escola de samba. Aportando em São Paulo, dado os problemas que teve de organização, logística e tals, não rolou a escola de samba. O jeito foi ir atrás de músicos que reproduzissem a cousa. E que músicos ele arrumou...
O Trio Mocotó era o que tínhamos de supra sumo na época. Vinha de três discos dadivosos com Jorge Ben (Jorge Ben 1969, Negro é Lindo 1970, Força Bruta 1971...) já haviam lançado seu espetacular disco de estreia, estavam arrebentando pela Europa, Ásia e EUA e Dizzy não poderia ter dado sorte melhor!
A coisa toda rolou em Sampa e por conta de alguns problemas que Dizzy teve com a rapaziada da sua gravadora a coisa acabou não sendo lançada. Durante esse tempo todo ouviu-se as mais mirabolantes histórias, tirou-se todo sarro do mundo dos caras do Mocotó, até que o produtor suíço Jacques Muyal da LaserSwing Productions, enquanto fuçava atrás de umas coisas achou o material e decidiu então lançar a "cousa".
Nada mais justo portanto que chamar aqui, o cara que durante esse todo teve que explicar que a coisa rolou mesmo, que num era mito, que ta tudo registradinho e tals. Então senhouras e Senhoures, para falar aqui do disco DIZZY GILLESPIE & TRIO MOCOTÓ, tá aqui o mestre João Parahyba, grande músico, bateu um papo comigo pra falar da coisa toda e o cunversê segue abaixo ae...
O ano era 1974. O Trio Mocotó já havia feito entre tantos outros ótimos trabalhos, viagens e turnês, os lendários discos Jorge Ben 1969, Força Bruta 1970, Negro É Lindo 1971, JB Live in Japan 1972 já havia lançado discos e conquistado reconhecimento nacional do mundo da música. Mesmo assim, como foi a reação de vocês ao saber da possibilidade de gravar um som com o Dizzy Gillespie?...
Acho que nós Fritz, Nereu e Eu somos pessoas privilegiadas. Estivemos no lugar certo na hora certa em que o destino escolhe alguém para um momento especial. Não foi só com Gillespie sue tocamos, fizemos canjas memoráveis com Michel Legrand, Earl Hines,Tommy Flanagan e tocamos para The Duke (Duke Ellington) e Oscar Peterson entre muitos outros na Boate Jogral.
Mas com Dizzy, as canjas que ele deu alguns dias antes da histórica gravação fez com que nos tornássemos amigos naqueles dias. Ele chegou de mansinho , como todos sabem ele também era percussionista e foi batucando o que tivesse pela frente, cinzeiro, mesa... Se enfiou entre nós e puxou o trompete. Éramos ritmistas como esta escrito na minha OMB, não deveríamos ter noção de jazz, mas Fritz já tinha uma concepção jazzística na sua Cuíca, tanto que Tinhorão o critico, tinha aborrecido ele dizendo que cuíca não fora feita para solar e foi exatamente isto que deslumbrou Dizzy. Já tocávamos alguns temas cabeludos de jazz em Samba com o pianista Mario Edson como Blue Rondo a La Turk e Take Five alem de Gershwin. Portanto quando fomos convidados para umas sessões com Dizzy no Estúdio Eldorado achamos natural a continuação. Destaco aqui sue não é esnobação não, o lance ta mais pra simplicidade de Mané Garrincha para quem todo adversário era João.
E a chegada dele no estúdio? Ao longo dos anos muita coisa foi dita, varias lendas e tals... Mas me fala você, como foi o contato com o homi. O Dizzy de fato é completamente doidão? Foi tudo tranquilo? Os caras da banda dele... Como foi o momento do encontro?
Até chegarmos ao Estúdio entre papos e canjas no Jogral, ele era apenas um grande trompetista de jazz que queria gravar conosco. O encontro foi marcado para as 15hs da tarde. Chegamos as 14:30 característica nossa chegar sempre na hora. Tinha um mundão de repórteres fotógrafos, diretores do Jornal Estado de São Paulo dentre eles o grande amigo do samba e MPB da Eldorado Zé Nogueira que era frequentador assíduo dos nossos shows, estávamos em casa . Pontualmente as 15hs chega o Monstro Dizzy Gillespie com seu grupo, além do Pianista e Maestro Amilson Godoy que foi nosso guia de cego pra nos ajudar. Foi então que Dizzy deu um olá a todos e foi para o canto oposto do estúdio sem falar mais nada e plantou uma bananeira!!! Aí descobrimos que ele era doidão mesmo... Ficou assim quase 30 minutos e todos em silencio só olhando até de repente ele desce da posição dá um sorriso e diz vamos tocar ?
O disco abre com a musica "Samba". Um quebradeira sensacional!! Como foi? Tudo de improviso, ali na hora? Alguém tinha alguma coisa já pré-preparada ou foi tudo surgindo naturalmente?
Ai como dizíamos, depois dessa grande risada que era característica dele de bom humor o coro comeu já no primeiro Take. Isso deixou o ambiente tão elétrico que gravamos quase que toda a sessão de primeira. Ele dava o Tema que tinha tocado na Jam e a gente saia incendiando ele. É meio difícil de explicar, mas podemos dizer que o Santo baixou na sessão e foi essa beleza que vocês hoje podem ouvir. Ainda hoje quando escuto, me arrepio com a lembrança e o privilégio que foi, principalmente porque depois disso passaram-se anos sem sabermos onde tinha ido parar essa gravação . Batalhei muito atrás dela e levamos muitas gozações como se estivéssemos com aquele papo de pescador. Finalmente tá ai a prova. É um documento importante para nossa historia e da memória da musica brasileira.
Pois é. O disco como já falamos é altamente sacolejante. Abre com a força suingante percussiva de“Samba”. Tem coisas lindas como “The Truth”, um blues arregaçante como “Evil Gail Blues”. Além de Dizzy e o Trio Mocotó, participaram da quebradeira os músicos Al Gafa na guitar, Earl May no baixo, Mickey Roker na batera e o vocal delicioso de Mary Stallings no citado blues acima. No player ae embaixo vamos com a quebradeira “Samba” que abre os trabalhos e ae já sabem...
O presente na capa ae do lado e é só tascar o play e perigas ver...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
