Eram deuses os iluministas ludopédicos e o centenário da era do encanto. Uma ode ao olimpo onde nascem os meninos imortais..

Por Marcelo Mendez

Lembro de tudo daquele dia 10 de dezembro de 1995...

Eu começava a viver um novo momento da vida, saindo de um inferno pessoal há alguns meses e procurando me reencontrar com a vida e comigo mesmo. Geralmente quando isso me acontece eu recorro ao Blues. Como fiz naquele domingo de sol. Fui até o Anhangabaú para ver uns shows de Blues, avisado pelo amigo Foguinho. Como Blues é algo muito sério na minha vida saí correndo de lá. Tava uma bosta! Enfim...

Saí dali, entrei no velho Mappin da Praça Ramos e comprei um Rayban (a gente faz cada coisa quando ta lúcido...). Ao sair vi uma galera de camisa do Santos rumando para o Pacaembu, onde o alvi negro teria que virar 4x1 tomado do Fluminense no Rio De Janeiro, pela Semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano. Era 13:27 da tarde e vi aquela rapaziada, enquanto caminhava para um Bar ali do Centro. Tomava uma Serramalte e lembrei do quanto eu gostava de futebol.

Camisa 10...

Fui ótimo jogador. Meia veloz, habilidoso, jogador técnico, goleador e bastante inteligente. Eu queria ter nas minhas Crônicas, 2% da excelência que tive nos campos. Lembrei disso, dos desvios da vida (que eu procurei...) que me afastaram daquele universo que tanto gostei. Nessa hora, engoli a cerveja toda, levantei e decidi:

“Vou la no Pacaembu ver esse jogo”. - Peguei um taxi a rumei pra lá. Não havia mais ingressos na arquibancada e então fui até as numeradas, ao lado da torcida do Fluminense. Confesso que nem esperava tanto...

O Santos tinha um time fraco, com jogadores limitados como Ronaldo Marconato, Marquinhos Capixaba. Marcos Adriano, Camanducaia, Jameli, Macedo e outros refugos. A torcida do Fluminense, dona de um time com Renato Gaucho no auge, Vampeta, Airton... embalados e com aquela vantagem toda de 3 gols, vendo esses nomes tinham la aquela certeza, aquela empáfia dos vencedores, já pensava na final contra o Botafogo. Mas esqueceram o único nome que não podiam esquecer:

Geovane...

Ele não era um 10 daqueles que estávamos acostumados a ver na época. Sujeito alto, magro, não tinha aquela velocidade de coelho anfetaminado, não falava pelos cotovelos, não usava roupas da moda. Era tímido, calado, meio esquisitão, até amarrava as chuteiras no meio da canela como os clássicos varzeanos vintages. Não precisava de nenhum tipo de autopromoção que não fosse seu futebol. Geovane falava enquanto flutuava em campo, enquanto desfilava pelo gramado com passos elegantes de um Nureyev improvável. Reinava tal e qual Oscar Peterson reinou em cima do seu piano Stenway. Geovane era um renascentista vestido com a camisa 10 mais lendária da história do futebol.

Naquele dia, o Santos conseguiu um impressionante 5x2 em uma partida que fez do Pacaembu um local mágico! Foi épico! Foi lindo! Chorei ao final! Fiquei feliz com os amigos santistas chorando ao meu lado, Abracei uns dois. E no caminho da volta pensei em tudo que meus olhos haviam presenciado...

Naquele dia, o futebol teve o resurgimento de um gigante. O mundo lembrou que no litoral de São Paulo, havia um time que hoje já passa dos 11 mil gols assinalados. Que teve em sua história, equipes de futebol lendárias como a primeira versão dos “Meninos Da Vila” com a molecada que venceu o Paulistão em 1955 – Pepe, Tite, Álvaro, Orlando... Como o valente time do primeiro titulo de 1935 conquistado no Parque São Jorge em cima do Corinthians. Isso até chegar os iluministas...

Amigo leitor que me acompanha aqui vos digo; Assim como a Europa foi varrida pela grandeza de Baruch Spinoza, John Locke, Pierre Bayle, Isaac Newton e outros tantos grandes filósofos do Séc XVIII responsáveis pelo Iluminismo, pela Era da Razão, o Século XX teve no esporte um igual movimento de rara grandeza:

A ERA DO ENCANTO...

A partir de 1956, quando chega na Vila Belmiro um neguitinho franzino vindo de Bauro de nome Edson, que viraria Pelé, começa toda a magia. Ao lado de nomes como Zito, Mengalvio, Dorval, Coutinho, Pepe, Pagão, Abel, Edu, Toninho Guerreiro, Ramos Delgado, Almir, Mauro Ramos, Gilmar... Pelé deu ao futebol o status de “Espetáculo”. Um time ímpar...

Eram 9 criolos, entre os 11 que jogavam. Aqueles homens negros vestidos naquele imaculado uniforme branco assombrou o mundo. Juntos foram responsáveis por 2314 gols marcados em 10 anos. Venceram absolutamente tudo; Campeonato Paulista, Taça Rio São Paulo, Taça Brasil, Libertadores, Mundial, torneios pelo mundo afora, eram os alquimistas que transformavam toda a frustração de um povo sofrido em arte e alegria. Tal e qual Luiz Melodia cantaria anos depois, “O Santos em campos nos redime dos erros que fazemos...”

Foi lindo...

Ae teve o dia que Pelé parou. Parou e uma duvida pairou por lá: “E agora?” - Agora era a vez da molecada...

Em 1978 o técnico Chico Formiga montou um time dinamitante recheado de moleques Abusados como Newton Batata, Juari, João Paulo, Pita, Claudinho, Lira, Rubens Feijão... O Santos era pop! O Santos era um baile no Apolo 54! Venceram um Paulistão aquele ano, consagraram uma geração que só voltou a ser campeã em 1984 em cima do Corinthians, e depois da Idade das Trevas da fila de 18 anos, se salva novamente em 2002 pelo encanto de novos moleques como Robinho, Diego, Paulo Almeida, Elano, André Luiz, Maurinho, Willian e de novo em cima do Corinthians. Acaba então a debaclia...

Desde 2002 o Santos não penava mais e ontem, na Vila Belmiro, A geração de Neymar e Paulo Henrique Ganso bailaram num 5x0 em cima do Catanduvense para comemorar os seus 100 anos de glória. Marca um centenário para fazer diferença para aqueles que querem muito mais que “as metas alcançadas”, os “Resultados na tabela”...

O Santos é o triunfo do encanto. É a chance que a beleza tem de triunfar sobre os bufões de vez em quando. Santos Futebol Clube é a nossa redenção... “Nossa”... Aquele grupo formado por gente que não se contenta com a canelada a torto e a direito, com o passe burocrático, com os “padrões estabelecidos”, com a mesmice óbvia das chuteiras neoliberais, como o miado esquálido da imprensa fundamentalista cretina.

O Santos é a beleza. É o time que leva a ferro e fogo o que meu querido Immanuel Kant me ensinou para entender o que era o conceito iluminista:

"O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão...”

Portanto caro facínora de nome “técnico de futebol”, saiba que suas baboseiras de autoajuda não darão certo na Vila: Por lá os homens não precisam de tutela, pois se saciam de encanto. Jogadores óbvios por lá não darão certo porque os solistas de Vila Belmiro sabem fazer uso de sua razão maravilhosamente bem, independente de qualquer outro burocrata... O torcedor de la que não se preocupe porque coragem para buscar a nobreza ludopédica não falta aos vossos...

O Santos é Imortal!

Hoje portanto, Canela De Ferro não ousará fazer mais nada que não seja lhe dar Parabéns, Santos e te louvar. Mais do que isso em nome de todos aqueles que amam esse esporte, encho o peito e falo com gosto:

Muito Obrigado, Santos...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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