Por Marcelo Mendez
Uma vez a amiga me viu com o livro OS MISERÁVEIS do meu grande Victor Hugo embaixo do braço e me perguntou: “Mas não enjoa? Quantas vezes você já não leu isso?”. Respondi:“Vinte e cinco anos!”
E não há exagero nisso.
Conheci o trabalho do Hugo aos 15 anos, presenteado por minha prima Miriam com esse livro, o mesmo o qual a Cris me flagrou pela enésima em meus braços. E verá ao longo dos anos por todo sempre por uma razão bem simples:
É ótimo livro.
Caro leitor em detrimento de muitos que li, assisti, ouvi nessa semana que se passou, vos afirmo minha crença de que a qualidade e o encanto não cansam. Aqui para nossos assuntos ludopédicos pra se ter uma ideia, ouvi muitos dizerem que a derrota do Barcelona para o futebol covarde e bundão do Chelsea é muito bom porque “O Barcelona precisa mesmo ser desafiado”... ou “Ah, mas se o Barcelona ganhar sempre não tem graça” e ainda outra “Existem varias formas de se jogar futebol. O esporte não é apenas ataque”. Bem...
Com relação a isso, o tal desafio não existe; Um time que chega a excelência que o Barcelona chegou sente-se desafiado pela delicia de jogar, cada vez com mais beleza e mais encanto. Não precisa de um terceiro para instigar nada disso, a beleza sempre é soberana aos idiotas da objetividade. Graça? Que graça pode ser maior que o triunfo do belo? Quantos as diversas formas... Tem também diversas formas de se tocar saxofone, por exemplo; Você bem pode tocar como o Kenny G. Eu prefiro quem toca como Paul Desmond. Mas isso aí é para as terras do além-mar. E aqui na nossa Terra Brasilis? O que passa?
Aqui temos nossos afamados regionais e em Sampa, a reta final do nosso Paulistão.
Ora sucateado por um regulamento idiota que não premia em nada quem faz as melhores campanhas ao longo de um turno de 19 jogos, a porcaria do campeonato teve no ultimo final de semana suas capengas oitavas de final. Como no melhor sonho do cartola Marco Polo Del Nero da federação paulista, os 4 grandes do estado enfrentariam 4 times do interior e tudo estava pronto para termos semifinais megalomaníacas com os tais 4 times grandes de plástico do estado. Mas aí volto ao Hugo para explicar o que passa aqui na Ludopédia...
De todas as misérias humanas que ele tratou no seu romance imortal nada pode ser mais deplorável que a miséria do engano, da mentira, da pobreza de espírito.
No nosso futebol, cada vez mais os times daqui se pegam a números mentirosos e enganadores que satisfaça essa pobreza de espírito que relatei acima. O meu Palmeiras, por exemplo, há poucas semanas atrás se vangloriava de ser “o único invicto do campeonato”. Não perdia para ninguém porque não enfrentava ninguém também. Afinal de contas, que mérito pode haver em um time que se intitula “Grande” ao vencer o falido e miserável Oeste de Itápolis? Ou o pobre Linense? Qual é a primazia que pode ter no grande Palmeiras em jogar com 4 volantes para fazer 1x0 no Xv De Piracicaba? O outro protagonista, Corinthians...
O time do Parque São Jorge tem vivido la uma espécie de mundo paralelo desde a conquista do Brasileirão ano passado. Desde lá, nunca mais acertou uma partida digna de sua grandeza. Encheu as burras com uns 15 placares de 1x0 sem o menor pudor em jogar mal e porcamente, justificando todas as mazelas de sua pobreza ludopédica com os tais 3 pontos na tabela.
Ambos foram assim até o ultimo final de semana...
Começou com o Corinthians perdendo no Pacaembu com uma jornada épica da Ponte Preta, jogando contra tudo e contra todos, impondo um categórico 3x2 em cima do time do Parque São Jorge em um lotado e atônito Pacaembu que insistia em não acreditar no que via. Foi um baile da Macaca de campinas. E por falar em Campinas, por lá o Bugre, o Guarani eliminava a outra enganação de cá...
O Palmeiras recheado dos tais volantes, de burocracia, de bagunça tática, de falta de qualidade técnica, apanhava lindamente na bola para um Guarani abusado, de uma molecada ligeira, habilidosa, capitaneada pelo interminável Fumagalli. Mas foi um igual 3x2 por lá, igualmente enganoso porque foi um passeio!
O Bugre merecia meter uma meia dúzia no Palmeiras! Mas amigos o 3x2 já nos basta...
Qualquer reles placar mínimo já põe abaixo toda babaquice pragmática a qual esta submetida a nossa ludopédia dita “grande”. São times que comem uma mortadela de 3 reais o quilo, mas insistem em maiores arrotos de caviar. São bêbados que se empanturram de conhaque macieira fiado, mas querem a ressaca de um vinho Montrachet. São pobres...
Pobres de arte, de encanto, de leveza, de vida, de espírito.
Eu até espero que a realidade de suas pequenezas venha à tona após as duas surras do ultimo final de semana. Se isso acontecer, o futuro dessa equipes será muito mais belo e útil do que um troféu empoeirado ganho a qualquer custo num tal “memorial da conquista”. Futebol não carece desses mausoléus estúpidos... Que mudem!
Até la sigo aqui na pagina 132 de OS MISERÁVEIS...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.