Da distinção das coisas entre o Ernesto Sábato e René Descartes. Um lundu regado a futebol, tango e samba...

Por Marcelo Mendez

Sexta feira foi o único dia de folga que tive em 12 dias de trabalho intenso. Pensei para esse dia, mil coisas pra fazer, mil lugares para ir, outros tantos milhares de amigos pra encontrar. No entanto, após meu treino matinal encontrei no meio das minhas coisas o livro "Sobre heróis e tumbas" e então tudo mudou:

Não fui para lugar nenhum, fiquei lendo das 11 da manhã até umas 20 horas e não me arrependo de jeito nenhum. Ernesto Sábato é um escritor imortal! O homem Argentino que se formou Físico, que foi pesquisador morando em Paris, revolucionou o mundo da literatura mundial com livros antológicos como O TÚNEL e o citado "Sobre Heróis e Tumbas". Sobre Heróis... é divino!

Um romance magistral que aborda de maneira seminal, temas como paixão, incesto, ciúme, fanatismo, ufanismo, tudo de uma forma intensa, linda, épica. Uma viagem deliciosa pela Buenos Aires dos anos 40, por suas milongas de bairro, seus bares do Bairro de La Boca, os torcedores do Boca Juniors e todo o universo lindo e totalmente não linear criado pela narrativa de Sábato. Como somos nós. E ae que a coisa chega aqui para nossos assuntos ludopédicos. Ou seja...

Nosso jeito latino de ser.

Caro leitor que me acompanha aqui em Canela de Ferro há de entender que, tal e qual a forma como o Mestre Sábato vê o amor, a paixão, a fúria, a vida, nós, sul-americanos que somos vemos e entendemos o nosso futebol. E ae que ta a questão...

Semana passada vivemos a fase de eliminação das quartas de final da Taça Libertadores da América. O Campeonato Maior de Clubes do continente da America do Sul, disputado com desejo por todas as equipes do continente, inclusive as Brasileiras. Dessa feita, Santos, Corinthians, Vasco, Fluminense entraram em campo para se enfrentar buscando uma vaga para as semis... Santos e Fluminense perderam na Argentina para o Velez e para o Boca Juniors ambos por 1x0, enquanto Vasco e Corinthians empataram em um confronto local em 0x0.

Da Argentina, o Fluminense voltou reclamando da Arbitragem, do lendário Estádio da Bombonera, do trajeto local, do horóscopo e do doce de abobora com coco... O Santos voltou falando de “uma pressão diferente desse tipo de competição” e de todos os azares do mundo por não ter jogado nada no José Amalfitani lotado. Antes, o Vasco falou absurdos de um jogo contra o pequeno Libertad do Paraguai, assim como Corinthians voltou falando da partida contra o Emelec em Quito no Equador como se o time de parque são Jorge estivesse voltando da Batalha de Termópilas! Isso tudo me faz refletir sobre as coisas que acontecem aqui no nosso continente nos assuntos ludopédicos. Seguinte:

Como falei, a Libertadores Da América é a maior competição de Clubes da América do Sul. Sempre foi desde 1960 quando teve sua primeira edição. Sempre foi encarada dessa forma pelos nossos vizinhos aqui do Sul. Nela, formaram-se verdadeiros Gigantes do Futebol, como Independiente da Argentina, o “Rei De Copas”, vencedor de 7 títulos, o Boca Juniors da Argentina, histórico bicho papão, os guerreiros Peñarol e Nacional do Uruguai que juntos têm 6 títulos e muitos outros esquadrões, inclusive Brasileiros, como o Santos de Pelé, o Flamengão 1981 de Zico e o Grêmio Farroupilha que na faca, ganhou a libertadores de 1983 numa batalha em Porto Alegre contra o Peñarol. No entanto, há uma digressão nessa história toda que precisa muito ser aqui ressaltada; Enquanto essa competição sempre foi encarada dessa maneira forte e intensa por todo continente, o futebol Brasileiro acordou quando para ela??

De menino eu me recordo de uma decisão entre Nacional do Uruguai e Internacional de porto alegre em 1980, com o Inter de Falcão e Batista preocupadíssimo com o Gauchão daquele ano! Lembro-me do Santos em 1984 dando de ombros para o torneio, assim como fizeram São Paulo e Guarani em 1987 se lixando para o torneio, reclamando de “animosidade” e outras baboseiras do torneio e sempre foi assim, inclusive com relação ao sul-americano de seleções onde a CBF nunca deu importância para a competição.

Foi preciso chegar os anos 90 como São Paulo do Tele Santana ganhando dois anos seguidos, do Grêmio do Felilpão, do Vasco, do Cruzeiro, do Santos do Neymar, do Inter, todos eles vencerem a coisa para o Brasil acordar para a competição. E ae vem às discrepâncias.

Ao longo da história do nosso futebol, os Brasileiros sempre insistiram em se comportar no continente como uma espécie de “Dinamarqueses”. Uma coisa nojenta, arrotando um ar superior que não se sustentava por nada! Uma coisa do tipo, “Oh, estou aqui, mas sou diferente de vocês que falam espanhol”. E isso no futebol sempre foi muito latente e se calcou ao longo dos tempos através de uns chavões do tipo:

“Ah, os Argentinos são todos uns malvados, sujos, não devemos gostar deles”. Ou: “É um absurdo jogar futebol em La Paz nessa altitude” e tem ainda “Ah mais na Colômbia o futebol é mantido pelo dinheiro do trafico” e outra; “Mas no Paraguai não pode ter futebol nesse Estádio...”.

Balela!

Os Argentinos? São donos de um futebol que sempre habitou o topo do esporte no mundo ao longo dos tempos. Foram donos de times como a Maquina do River Plate dos anos 40 e de uma seleção que só não tem mais mundiais porque durante a segunda guerra mundial não tivemos as copas de 1942 e 1946 que eles venceriam com os pés no tango. São tão “malvados” como são os Brasileiros, os Chineses, os Ucranianos. Nada demais acontece nos campos argentinos, nada do que não acontece no Brasil. DEVEMOS SIM GOSTAR DELES E DE TUDO QUE SE PRODUZ POR LÁ EM CULTURA, EDUCAÇÃO E TODO O RESTO. Ah não pode ter futebol em la paz? Por quê??

Porque os Brasileiros tem que viver na altitude por um dia?? E quem vive por lá a vida toda? E quem esta no cotidiano local? E outra, jogo em Belém do Pará com 42 graus na moleira?? Ae pode? E se quiser ser “dinamarquês”... E jogar pela champions league com 22 graus abaixo de zero em Kiev? Ae é chique?? Futebol Colombiano é mantido com a grana do pó? Ta, foi sim. E no Brasil alguém consegue assegurar em 100% a idoneidade da onde vem a grana que banca o nosso futebol? Então no Paraguai não pode ter jogo no Defensores Del Chaco? E no Brasil pode ter na Vila Capanema? Na suntuosa nova Arena do Estádio Independência em Belo Horizonte, pode? Lá o Estádio custou 700 milhões de Reais e foi entregue com “pontos mortos”, de onde não se vê jogo! E No Pacaembu abandonado como seus banheiros mijados?? Com os flanelinhas na porta do estádio, pode?

Falemos a verdade, portanto; Claro que temos aqui um torneio que precisa melhorar e muito! Óbvio que não é legal ver uns idiotas tacando garrafas no campo, policiais com escudos pro sujeito bater escanteio, assim como não pode ter tragédias como a de Heisel em 1985 na Bélgica durante a decisão entre Liverpool x Juventus da Itália pela Chanpions daquele ano. Por lá, a competição precisou de ajustes, de umas outras necessidades, de uma melhor organização, como de fato aconteceu em 1992. Ótimo. Mas o que não pode é mudar o jeito de encarar o futebol que eles têm por lá. Assim como não devemos mudar o nosso jeito de ver o futebol e a vida aqui na America do Sul. Oras caro leitor...

Somos latinos, sul-americanos. Somos o contrário que pode acontecer, o moleque de pé sujo de barro que mela o tapete caro da suntuosa sala de estar, somos o Tango cheio de drama e paixão, ou o Samba cheio de suingue e malemolência. A gente é o encanto de onde menos se espera, o Romário contra os Suecos; Um pequeno homem que mete gol de cabeça no meio dos seus zagueiros gigantes. Somos o triunfo do improvável, a gota d'água, a lagrima que canta, que vibra, que ama, que xinga, que afaga.

Portanto que se assuma isso. Que se entenda que não somos Cartesianos e que se respeite nosso jeito de ser pra além das 4 linhas futeboleiras, que se compreenda que aqui não vamos ter uma “versão sul-americana da Champions League” porque aqui não tem Varsóvia, Kiev, Munique, Barcelona ou Londres. E na boua...

Com Santiago, Buenos Aires, Rio De Janeiro, São Paulo, Cartagena, Montevideo e Recife a gente nem precisa tanto...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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