O futebol segundo Jean Renoir e a grande ilusão que nos convém quando o encanto é pouco...

Por Marcelo Mendez

Quando falo de musica em Álbuns Clássicos costumo dizer que um grande disco nasce muitas vezes na adversidade do seu autor. No cinema essa premissa também é verdadeira. Em 1937, Jean Renoir, mestre do cinema mundial, um frances de grande sensibilidade, apaixonado pelo realismo poético frances, sofria com a incompreensão de seus filmes, todos à frente do seu tempo. Já havia rodado clássicos como Nana, Marquitta, La petite marchande d'allumettes, La Chienne e outros tantos filmes lindos, quando tem a ideia de falar do que aconteceu na primeira guerra mundial em 1916.

Nasce A GRANDE ILUSÃO. Filme épico que conta a história da convivência entre soldados franceses (Prisioneiros) e os Alemães no meio da citada guerra. Um tratado em nome da amizade e do que há de mais humano nas pessoas. Quando o amor vence a truculência de uma guerra. Óbvio que em 1937 as vésperas da debaclia nazista que varreria a Europa, Renoir tomou porrada de todo o lado. Críticos, políticos, populares, todo mundo desceu a madeira nesse filme. Precisou chegar os anos 50 e a Novelle Vague, além dos textos eufóricos de Jaques Rivet e Godard em Cahiers do Cinema para todo mundo sacar a grandeza desse filme. A partir dae, dessa relação de amizade em meio ao inferno de uma guerra, com tudo que aconteceu com Renoir após o filme, nasce o que se entende ser uma Grande Ilusão. E vem a reflexão:

Será que às vezes não devemos dar uma chance para o que se diz, ou o que se imagina ser uma Grande Ilusão? Bem...

Aqui em nossos assuntos futeboleiros, Renoir talvez propusesse uma Grande Ilusão possível. Vejamos o que acontece com as finais de nossos Campeonatos Estaduais.

Caro leitor que me acompanha aqui em Canela de Ferro sabe do que venho dizendo sobre esses campeonatos e suas idiossincrasias. Uma necessidade para organizar o futebol no Brasil no começo de sua profissionalização, dado o tamanho do País, as dificuldades de deslocamento em sua malha aérea, as condições econômicas de então fez com que se preferisse regionalizar o futebol em seus enormes estados ao invés de nacionalizaram, fato que só aconteceu pra valer mesmo a partir de 1971.

Dessa forma, os Campeonatos Estaduais no Brasil, se tornaram torneios de muita importância, alimentando rivalidades, movimentando multidões e ajudando muito para a história de nosso futebol brazuca. Nada disso vai mudar; A História esta escrita. Mas ae vem a Grande Ilusão ludopédica segundo Renoir...

Acreditar que num mundo globalizado, duro e sem classe como nos tempos de hoje, vai dar a essa forma de disputa o mesmo espaço de outrora é um sonho de Ícaro. Pois senão vejamos...

O Brasil é o único País do mundo que consagra mais de 25 Campeões antes do término do primeiro semestre. Tem de tudo, de Fluminense no Rio de Janeiro, até o Cametá no Pará. Do Sampaio Correa no Maranhão até o Internacional em Porto Alegre. E ae vem a pergunta que irrita:

“E dae?”

De que vale um titulo estadual? Quem lembra em dezembro, do Campeão Estadual em Roraima? O ano passado enquanto o Flamengo se afundava em perda de pontos, salários atrasados e noitadas cariocofunkeiras, quem se lembrava do titulo estadual “invicto” em cima de Madureira, Boa Vista ou Olaria? De que vale?

Em São Paulo, a sorte é o time do Santos e o craque ultra pop, Neymar. O menino de cabelo estrombólico faz tudo parecer melhor. Seus dribles, carretilhas, gols, beijinhos e outras mirabolancias, tornam esse mequetréfe campeonato paulista em algo que vale a pena ser visto. Alias Neymar faz tudo valer a pena! Até o lanche de pernil da porta do Morumbi fica mais saboroso ante a eminência de ver o moleque jogar! Mas afora isso, tirando o menino de ouro da Vila Belmiro, e o Paulistão?

O Santos meteu um 4x2 no Guarani jogando apenas para o gasto. Sem se cansar, dando la uns vacilo, já pensando no pró-seco da festa. Será que isso vai valer de algo para o Santos? O torcedor da vila Belmiro, grande torcedor desse gigante do futebol mundial, será que comemora mesmo a vera esse titulo? Bom...

Como falei no começo do texto, pode ser que sim. Depende do ponto de vista, dos olhos de quem vê essa questão. De certo, meu mestre Jean Renoir entenderia todas as complexidades e idiossincrasias de um campeonato como o Paulistão, de maneira diferente dessa minha crueza de fatos aqui manifestada. Uma contradição!

Contradição minha que tanto mando as favas como as metas, com os padrões, com os tais “tempos modernos”. Mas ae que tá; Faço isso em prol do ludismo, da fantasia, da arte e do encanto. Mas não consigo ver nada de encantador nesse tipo de competição. Portanto caro leitor, hoje, só me resta aqui encerrar os trabalhos ludopédicos parabenizando os campões estaduais pelo Brasil afora, agradecendo o menino Neymar por mais um show e constatar de maneira tranquila o seguinte...

Jean Renoir não iria gostar do futebol atual...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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