Por Marcelo MendezComeçou a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Aquela, que para desespero dos comedores de croissaint, há muito tempo, perdeu o glamour. Mas vou deixar isso pra outra hora e agora, falarei de um filme em cartaz na mesma, de um homem, um músico, cantor, pintor, diretor de cinema, fotografo, fumante, tinguá, mulherengo, um gênio, que tanto amo e que tanta influência teve em minha cachassística vida profana e intelecutal. Serge Gainsbourg (que não tomava Serra Malte...) é o cara, e VIDA HERÓICA é o filme da sua vida, que falaremos aqui. Mas quem é o personagem cuja vida controversa vira filme? Bom...
Quando meu pai, saudoso seu Mauro, me colocou pra estudar na Aliança Francesa em 1987, a idéia era tão somente, me tirar um pouco do caminho... “Cristão' que eu andava há época, nos meus tenros e apocalípticos 17 anos... Foi lá, com auxílio da minha doce professora, Mademoiselle Catherine, que descobri Charles Baudelaire, Rosseau, Henri Clouzet, Hugo, Balzac... Que fariam companhia à Truffaut que já conhecia, juntamente com Fernandez, Giresse, Tigana, Platini. GRANDE MEIO CAMPO DA SELEÇÃO DA FRANÇA DE 1982! Mas de todos, o que mais me intrigou foi o tal de Serge Gainsbourg.
Começa com o botecão que tinha na Travessa Diana, em Santo André. Numa noite lá, de 1987, enquanto eu tomava uns tangs... Tocou a sebosa Je T'aime Moi non Plus. Fiquei impressionado. Com um punhado de gemido e um orgão de churrascaria, o sujeito conseguia uma musica, que era internacional. Que falava de amor e que, todo mundo entendia tanto no Pigalle de Paris, quanto na Indonésia, ou Bósnia. Intrigou-me. E Mademoiselle Catherine que me apresentou o restante de sua obra e que me falou de toda sua importância para cultura pop francesa.
Dalí pra frente, passei a querer saber tudo sobre Serge. Em 2007, com o lançamento de sua biografia UM PUNHADO DE GITANES as coisas ficaram bem melhores. E foi ela, que inspirou o menino prodígio da França atual, Joann Sfar, a dirigir VIDA HERÓICA. Uma livre fábula sobre vida e obra de Serge. E tem lá seus méritos.
Do que vi, o filme é bastante abrangente. Começa com a dura infância de menino pobre, judeu filho de imigrantes russos, que Serge teve. Passa muito rapidamente (e aqui fica a critica..) por um período muito importante na vida de Gainsbourg que é o começo de sua carreira, nos anos 50. Foca tudo, para os gloriosos anos 60, quando Gainsbourg fez verdadeiras pérolas pop, como GAINSBOURG CONFIDENTIEL (1963) GAINSBOURG PERCUSSIONS (1964) BONNIE & CLYDE e INITIALS (Ambos com Brigite Bardot – 1968) e o seminal e sensacional JANE BIRKIN & SERGE GAINSBOURG de 1969.
Faz uma boa parábola, pelos anos 70, quando Serge, foi o primeirão pop star internacional a montar uma super banda na Jamaica, com a fina flor do reggae, um registro que originou o discaaaaaaaaaaaço AUX ARMES ET CAETERA. Trata das pirações de Serge, que resultaram na criação de Melody Nelson, seu personagem principal para o baladão funk de 1971, HISTOIRE DE MELODY NELSON. E quando chega nos anos 80 trata de mostrar com dignidade os últimos anos de Serge, que viria a falecer em 1994. Não passa, pelo inferno que Serge passou em 1984, quando peitou os reacionários, caretas e mais o Satanás, para tratar das liberdades individuais, com seu disco voltado para a causa Gay, LOVE ON THE BEAT. Mas é um filme decente, sim.
Em uma biografia, não se tem nada de muito edificante para comentar da parada. É saber: Foi fiel, ou não? Tá de acordo, ou não esta sendo coerente com seu biografado? Em ambas questões o filme passa tranqüilamente.
Com muita criatividade, Sfar, recorre a uma narrativa não linear, para contar todos esses fatos que comento acima. Tem o cuidado para não cair na vala comum, dos clichês chorosos, até porque, seu personagem jamais se permitiria a isso.VIDA HERÓICA é uma boa pedida nessa Mostra, portanto, muito mais pela importância do personagem, do que pela magnitude da Sétima Arte e afins. E nessa selva intelecualóide que cerca a Mostra, taí a dica.
Bora?