Dois anos de ZINISMO “on” comemorado com ZINISMO “off”

Por Ana Mesquita | 

Ao chegar em casa dia desses vi um envelope “construído”, não era um daqueles que você compra pronto em papelarias por aí, era um envelope feito especialmente para abrigar algo e tava lá, na garagem de casa. Um sorriso iluminou meu rosto a ponto das crianças se inquietarem e perguntarem “o que é isso mãe?”. Era correspondência de Flávio Grão e dentro havia a edição comemorativa de 2 anos do blog ZINISMO.
Foto : Isaa  Meneses
Junto, no envelope, havia uma cartinha do Flávio. Que felicidade besta essa de receber algo pelo correio. Devo receber uns 30 e-mails por dia e nenhum deles me comoveu tanto. Mas é justamente embrulhada nessa nostalgia que o ZINISMO impresso aparece no mundo. É extremamente paradoxal comemorar 2 anos de existência de algo na internet com um fanzine impresso, afinal a internet é cada vez mais cultuada no mundo como o futuro da literatura e a causa da morte do livro, dos jornais impressos, da vida em papel.

Mas nada supera a sensação de pegar em mãos um produto cultural. Provavelmente tenha sido essa sensação que causou minha alegria besta ao pegar o ZINISMO. Esse “revival” tem se mostrado tendência em diversos segmentos. Basta ver o crescimento de lançamentos de discos em vinil e mesmo o aumento de títulos de revistas nas bancas. Essa necessidade de “pegar fisicamente” é refluxo da vida digital. No Seminário de Jornalismo Cultural que aconteceu nos dias 8,9 e 10 de dezembro de 2010 no Itaú Cultural, o editor da publicação londrina Lound and Quiet explicou porque mantêm há 5 anos uma revista impressa de crítica musical “Nada vai substituir a sensação de pegar no papel” afirmou Stuart Stubbs, o mais jovem e modernete da mesa. No editorial Flávio Grão também manifesta suas ideias sobre o assunto “O blog ZINISMO aparece nessa compilação pela primeira vez impresso. Fruto das próprias contradições e discussões que o fanzine virtual pode e deve gerar. Em poucas palavras, se a Internet é barata e rápida, por outro lado peca pela efemeridade das informações nela publicadas. Optamos então pelo registro, arcaico e tradicional, empoeirado e amarelado... Viva o papel!”

E nada substitui mesmo. A capa toda preta com papel brilhante não me enganou.

Bastou olhar para a primeira página e ver que se tratava de um fanzine mesmo. Produto com mais qualidade técnica, sem dúvida, afinal Guilherme Theodoro assina a diagramação, além de ter sido rodado em uma gráfica (apenas 100 exemplares), mas o conteúdo é o mesmo. São texto que já foram publicamos no blog e outros inéditos. Como as “3 perguntas para o Reverendo” que Marcelo Viegas fez para Fábio Massari.

Ou a entrevista que Flávio Grão fez com Lacarmélio Alfêo de Araújo, figura que desenha, roteiriza, produz e vende seus próprios gibis – intitulado Celton -, nos engarrafamentos de São Paulo.

Mas os gêneros literários é o que mais chama minha atenção no ZINISMO on, agora no off também. Os contos e crônicas dos quatro garotos são realmente interessantes. Cada um com um estilo próprio, mas dentro do projeto em comum, que é falar sobre a vida na metrópole, o amor à música, à literatura e as artes em geral, o mundo do skate que cruza (ou convive) a vida cotidiana deles.

A maturidade e a experiência também contam muito na empreita literária. A crônica “Frutas Frescas e Vetais Podres” do Ricardo Ideia me levou de volta para o bairro Pauliceia (em São Bernardo, ali ao lado do extra) no qual vivi até os 18 anos. Também tínhamos a teoria que só havia um o disco branco (no conto eram 3 que rodavam o Ipiranga) do Dead Kennedys rodando pelo bairro, e que esse disco alimentou toda a molecada que curtia o movimento. É a briga cotidiana pela liberdade expressão e a vontade de manter um produto cultural que mantém o ZINISMO de pé após dois anos. Só desejo disposição aos garotos para continuar.

Parabéns a toda galera do Zinismo!!!
Share: