O meu primeiro encontro com os Kennedys foi no mesmo ambiente que descobri os Ramones, um half pipe num terreno baldio duas ruas pra cima da minha casa, no já distante 1985.
Há um mês atrás mais ou menos, recebi um exemplar impresso do Zinismo, edição “motherfucker” especial de 2 anos. O Zinismo é um zine virtual que foi impresso, mas que continua virtual, enfim... Logo nas primeiras páginas me deparei com um texto do Idéia, um dos colaboradores do zine, falando exatamente do “Fresh Fruit” dos Kennedys.
No texto, ele lança a teoria que só existiam 3 exemplares do tal disco branco dos Kennedys no bairro onde ele morava, isso no final dos anos 80, e tendo ele mesmo “surrupiado” o mesmo exemplar duas vezes de dois “donos” diferentes. Loucura isso!
Agora, tô pra dizer que não era só no bairro do nosso amigo que essas coisas aconteciam. Lá no meu bairro nessa mesma época existia uma espécie de “discoteca coletiva”, vários discos “sem dono” andando pela casa da rapaziada.
Quando rolava uma festinha na garagem de alguém era dia de troca, porque era exatamente o único momento em que todos os plays apareciam num mesmo local. Você deixava os que estavam rodando na sua vitrola há um tempo, e naquela zona de fim de festa, enchia a mochila com umas “novidades”.
Até hoje tenho alguns exemplares dessa época: "Descanse em Paz" dos Ratos, uma coletânea do New Model Army, o "Viva" do Camisa de Vênus e mais alguns outros que vieram pra minha casa e nunca mais saíram. “O IBGE passou aqui e nunca mais voltou...” como diria o Mano Brown.“Perdi” alguns tantos também é claro, mas isso fazia parte do jogo.
O meu primeiro DK não veio nessa onda, mesmo o "Fresh Fruit" sendo um dos que estavam sempre nos rolos, o meu eu tive que comprar mesmo, não teve jeito. Isso já foi em 1990. Só que não era o tão famoso disco branco. Era uma segunda ou terceira tiragem, sei lá, e além de não ser em vinil branco, também não tinha o encarte pôster da edição clássica. Merda!
Aquela onda dos discos coletivos já tinha ficado pra trás, mas os empréstimos ainda rolavam entre a rapaziada. Só que era o seguinte: Vai e Volta! Quero dizer... Era quase sempre assim.
Num desses empréstimos, que na verdade eram trocas, você me empresta um que eu te empresto outro e assim por diante, essa minha edição do “Fresh Fruit” mais o “Never Mind” dos Pistols ficaram na casa de uma amiga que me emprestou o “Low” do Bowie. Aí já sabe né?! Perdemos contato e os discos nunca foram destrocados. Ainda sai ganhando porque o "Low" era gringo e valia fácil os meus dois "nacionais" e mais um se pá.
À essa altura do campeonato, os famigerados “Compact Discs” já tinham tomado conta das prateleiras das lojas, e não me restava alternativa a não ser comprar o “Fresh” em CD. Na real, na época eu nem me importei muito, porque os CDS eram o "crème" do momento entre a rapaziada.
Vivíamos um momento econômico inédito até então, depois de anos e anos vivendo uma mega inflação, remarcação de preços de madrugada e etc, a nossa moeda tava “pau a pau” com o dólar e o “sonho” de comprar títulos gringos já não era tão “sonho” assim.
E foi num rolê pelo paraíso sonoro daquela época, a Galeria do Rock, que arrematei o “Fresh Fruit” e uma coletânea fodona dos Kennedys chamada “Give me Convenience ou Give me Death”, os dois “gringos”, e mais o “Spanking Machine” das Babes in Toyland, esse em edição nacional.
Algum tempo depois, bem depois eu acho, anos 2000, um amigo me deu de presente o incrível pôster encarte que vinha na edição “vinil branco” do “Fresh Fruit”. Fiquei besta e fui logo perguntado do disco, e ele disse que tinha passado no “vinagre” já fazia vários anos e que o pôster estava fora da capa, o dono do sebo onde ele fez o rolo não sabia da existência da preciosidade na época e aceitou assim mesmo.
Porra! Aquilo foi como um “chamado”, um sinal extraterrestre ou qualquer coisa nesse naipe, e só uma coisa pairava na minha cabeça: Preciso descolar o vinil branco dos Kennedys!
Fui atrás nos sebos que estava habituado a comprar discos, e conversa vai conversa vem fiquei sabendo da importância da porra do pôster no preço daquela edição. Os exemplares com o pôster eram raros e caros, já os sem o pôster, também não eram fáceis de encontrar, mas eram os que mais apareciam. Bingo! Com o pôster na mão eu estava à meio caminho da jornada.
Fiz a via sacra dos sebos aqui de Santo André über Alles, deixando o meu nome na espera caso aparecesse um “Fresh Fruit” branco sem o encarte, porque era mais barato é claro, em boas condições de capa e do disco.
Não demorou muito apareceu um na banca do Seu Zé, atrás da Coop da Perimetral, fui buscá-lo assim que recebi a ligação, e com todas as minhas exigências atendidas, levei a jóia pra casa.
Lembro que esse dia cheguei, coloquei o disco na vitrola, volume 11, abri aquele pôster no chão do quarto e fiquei ali viajando até o ultimo acorde de “Viva las Vegas”... Uau!
Não preciso nem dizer o quanto esse disco foi, e é importante na minha vida e de muitos outros "xaropes" seguidores dos bons sons. Se você está aí no auge dos seus vinte e poucos anos, gosta de rock e ainda não se deparou com essa obra prima, corre que ainda dá tempo! É certeza absoluta que por um bom tempo você vai esquecer tudo, eu disse tudo que você já ouviu e gastar a oreia com o "Fresh".
Putz... Como é bom ser roquêro!!!
PS: Respondendo o texto do Idéia: Eu tenho, mas não empresto nem fudendo!