Luis Buñuel e um tiro de 45 na burguesia furada do futebol paulista

Por Marcelo Mendez*

E la vamos nós para mais um capitulo dessa nossa saga ludopédica aqui no Canela de Ferro. A rodada ultima de nosso campeonato paulista abre um precedente para lembrar de um caboclo que gosto muito, de nome Luis Buñuel.

Luis Buñuel
O grande diretor de cinema espanhol, dono de filmes espetaculares como OS ESQUECIDOS, ANJO EXTERMINADOR, TRISTANA, FANTASMA DA LIBERDADE entre outros, começou os anos 70 mergulhando de cabeça no maior desbunde surrealista possível para esculachar com a classe média decadente de então.

No seu filme O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA, durante todo o tempo, um bando de aristocratas sem classe se reúnem numa sala de estar para tentarem comer mas sempre alguma coisa sai errada. A data desencontrada, o almoço interrompido pelo desejo súbito, o chá na confeitaria esgotada, a interrupção por conta do Exército em manobras, pela polícia em ação ou pelos Terroristas em revolta. No entanto a burguesada insiste, persiste e faz o diabo para não deixar nada, absolutamente nada, interferir no sagrado ritual burguês. Ontem ao ver toda aquela pobreza técnica em nossos estádios eu me senti tal e qual um telespectador do grande filme...

O futebol paulista é exatamente aquela aristocracia decadente explicita no filme do mestre. Um futebol que se prende a um pseudo charme, a um falso glamour que não se justifica mais. No entanto, por aqui se faz de tudo para manter intacto essa coisa burguesa tipica dos quatrocentões falidos aqui das terras de Piratininga. Vejam a fórmula do campeonato paulista por exemplo:

São 20 clubes que se unem em janeiro para disputar uma fase que seleciona 8 equipes melhores para a real competição ou seja; Pra que diabos então se tem 19 rodadas para se chegar ao óbvio? Se a ideia é manter 20 clubes ativos bem melhor seria um campeonato de pontos corridos com todo mundo, jogando contra todo mundo, em um turno só e todo mundo estaria empregado. Mas não. Aqui em São Paulo precisamos do elam dos “Oito melhores colocados” da competição. Balela total...

Classificaram-se os quatro “grandes”; São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos. Na sequencia, os “plebeus” do feudo ludopédico bandeirante composto por Portuguesa, Mirassol, Oeste e Ponte Preta. Tirando portanto Oeste e Mirassol é previsível que junto aos Barões de chuteiras, se unissem a Portuguesa, que outrora fora até tratada como “grande” e a Ponte Preta, a Macaca de Campinas, que em idos tempos tinha um time que me fazia assisti-los de joelhos. Era o time de Dicá, uma espécie de Sax Tenor, band leader de camisa 10, dono de técnica e clássica tão rara nos dias de hoje. Quer dizer:

Tudo muito óbvio. A rodada de ontem seguiu a risca essa premissa da previsibilidade.

Teve o Corinthians batendo o decadente Santo André por 2x0 no pasto do estadio Bruno Daniel, teve o São Paulo Virando um jogo contra o Oeste em Mogi mirim para 2x1, a Ponte Preta vencendo meu Palmeiras por 2x1 também e o Santos, fazendo o do chá para meter 3x0 no Paulista de jundiaí. Um tipica rodada que não vale nada.

Enquanto o Campeonato pernambucano pega fogo com os três grandes do estado lutando por hexas e outras hegemonias, enquanto o charmoso Olaria consegue uma vaga entre os grandes do Rio para as finais da taça rio, enquanto o pau come no Gauchão com Grêmio e Internacional lutando pela glória farroupilha, em São Paulo, assistimos 19 datas que não valeram de absolutamente nada. Então dizem os “especialistas” que: “agora sim, vai começar”.

Então pra que diabo a gente suportou esse monte de jogo ruim??

Bem, a gente sabe que a praticidade não faz parte das coisas edificantes do discreto charme burgues do futebol paulista. Então seguiremos o bonde para os tais octogonais e vamos ver, agora...

Em qual mentira vamos acreditar??

*Mercelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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