De olho na moda com Carolina Vitorino e Priscila Tâmara

Por Carolina Vitorino e Priscila Tamara | 

Semanas de desfiles no eixo Rio X São Paulo e já se ouvem burburinhos de quais serão as tendências do verão 2012. Preocupados ou não com o que a moda dita para a próxima temporada de consumo, será o que veremos certamente nas vitrinas, mas não necessariamente o que veremos nas ruas. Há quem ache interessante falar sobre o que a gente terá que usar na próxima estação, mas não estamos nem um pouco interessadas em passar uma lista do que você deverá comprar para estar bem vestido.

O que achamos interessante citar aqui é o resultado do trabalho de pesquisa e desenvolvimento das coleções por parte dos criadores, e destacar idéias e inspirações transformadas em objetos de consumo, que nos chamaram mais atenção. Dizemos objetos de consumo porque é esse exatamente o foco, basta dar uma olhada no tema do SP Fashion Week desta temporada: “Futuros”. O futuro tem sido uma constante preocupação dos diversos setores envolvidos com a indústria da moda brasileira, já que o Brasil já conseguiu consolidar um calendário de lançamentos, lançou e continua lançando grandes talentos, e agora se preocupa cada vez mais com os negócios.

E o setor no Brasil precisa mesmo ter essa preocupação, se pretende evoluir a ponto de competir de igual para igual nesse grande mercado, porque temos sim grandes talentos, mas não temos muita gente qualificada, logo não temos grandes materiais, tecnologia, ou seja, rola uma grande preocupação do setor em melhorar em tudo que nos falta para que o produto brasileiro seja mais competitivo. E quem ganha com isso? Todo o setor, e todas as pessoas que trabalham na área, desde as pequenas confecções até as grandes indústrias, mas a conclusão a que se chega é que não teremos toda infra-estrutura desejada assim tão cedo, porque as coisas têm que começar a mudar na raiz, as pessoas têm que estar preparadas para fabricar produtos com qualidade, usando materiais de qualidade, e ainda usando a tecnologia a nosso favor.

E é exatamente essa a preocupação das grandes marcas nesse exato momento, porque o que se consegue enxergar é que essa mudança não ocorrerá agora, e se esses investimentos forem feitos, talvez ela aconteça mais adiante quando todo o pessoal que está nas escolas agora sairá preparado para jogar seu conhecimento no mercado. E não estamos falando das escolas de estilo, mas sim de todos os cursos técnicos que possibilitam ter no mercado bons costureiros, cortadores, modelistas, e todos que envolvem a cadeia têxtil. Sendo assim, não teremos grandes fábricas tão cedo, mas a ficha caiu enfim, e percebemos um maior investimento no setor, que com certeza, vem pra melhorar. Por isso, hoje vemos muitas parcerias entre grandes estilistas e magazines, porque criatividade falta aos magazines e grandes fábricas faltam aos estilistas. E por enquanto é assim que se consegue ver um produto de melhor qualidade com preços mais populares no mercado, e tem dado certo. Riachuelo e C&A apostaram nisso e estão se dando muito bem, enquanto estilistas como Fause Haten, Reinaldo Lourenço e outros, conseguem inserir no mercado produtos com o preço mais acessível.

Ok, o tema foi lançado. E o que vimos de criativo nas passarelas?

No geral, verão é sempre a estação quente que pede cores. No Fashion Rio vimos muito colorido sim, e esse colorido segue um padrão que já vem vindo de lá de fora, o bloco de cores. E o que são? As peças vêm monocromáticas, ou em listras e estampas onde as cores se apresentam gritantes, ou seja, o contraste é forte. Tons de turquesa, roxo, laranja, coral, vermelho, azul e amarelo são constantemente coordenados entre si. Em contraponto a essa gama de cores vimos também produções monocromáticas em tons off-white, ou seja, muita cor ou nenhuma cor. O brilho também apareceu forte realçando ainda mais essa gama de cores.

Mas e os desfiles que se desenrolaram? Muita gente chega pra mim e fala: “Meu, quem vai usar isso?” Galera, não é pra usar isso, entende? O desfile é tipo o show do CD que o cara gravou.... É pra chegar lá e mostrar o conceito do tema da coleção, da idéia principal, de onde tudo começou, e a partir dali algumas peças você vai até ver na loja pra comprar, mas outras não. Algumas marcas desenvolvem desfiles bem mais conceituais que outras, não quer dizer que sejam melhores ou piores, só viajam um pouco mais na hora do show e apresentam um grande espetáculo. No Fashion Rio, particularmente achei que faltou uma viajada sabe?

Coleções muito bonitas foram apresentadas, algumas bem comerciais, bem usáveis, como a do Hechcovitch que repaginou o jeans. Algumas apresentaram uma verdadeira escola de modelagem, como a coleção de Walter Rodrigues. A que destacamos aqui pra vocês assistirem foi a coleção da New Order, uma coleção simpática, cujo tema é “Futebol”. Os caras fizeram da passarela uma arquibancada, e os elementos presentes no campo foram a inspiração. Então vemos a rede do gol em algumas blusas, elementos da chuteira nas plataformas descoladas, e o esporte gritando na coleção, fazendo uso de cadarço, camisas com numeração, bolsas imitando sacolas esportivas, ombreira de bola de futebol e meiões. E olha aí as tendências de verão: bloco de cores e muito brilho.


Na sua 29ª edição, a Casa de Criadores também foi bem marcada pelos brilhos e paetês. Os desfiles da Casa de Criadores são legais de se ver, porque é um clima de experimentação, começando com o Projeto Lab que sempre dá espaço aos novíssimos talentos que botam as idéias pra quebrar.

Destacamos aqui o desfile do jovem estilista Thiago Schynider, que mergulhou nas profundezas do mar e apresentou uma coleção bastante conceitual fazendo uso das transparências, dos drapeados que lembram escamas e bolhas de oxigênio. Peças complexas na estrutura e que foram bem apresentadas nas modelos que lembram sereias e elfos. E os sapatos? Sapatos com salto embora sem salto... as garotas tinham que se equilibrar e ficar na ponta dos pés. Dá uma olhada:


SP Fashion Week.... Difícil foi escolher um destaque só pra colocar aqui, porque alguns desfiles deram a nós um certo orgulho de ter um pessoal tão criativo fazendo moda no nosso país. Tufi Duek arrebentou com a sua coleção inspirada nas tribos indígenas, onde não se vê uma pena sequer, pra você que já pensou no cocar do rei da tribo. O cara conseguiu trazer elementos na textura dos tecidos que lembram as ocas, um grafismo lindíssimo nas estampas que lembram as pinturas, as tramas formando as peças num trabalho altamente artesanal, e os tribais desenhados nos braços e pernas das modelos, tudo isso junto criou a ambiência em si.

Samuel Cirnansk brincou com as noivas amordaçadas, criando um cenário fetichista, com estampas em látex, grafismos, recortes e sobreposições que fizeram os vestidos de festa ficarem divertidos. Reinaldo Lourenço homenageou Elizabeth Taylor e colocou Marilyn Monroe para cantar ao fundo aquela frase “Os diamantes e os cachorros são os melhores amigos da mulher”, criando todo o cenário anos 50 que trouxe nas suas peças.

Colocamos três vídeos aqui para vocês prestigiarem. Cavalera é a grife mais jovem que aparece aí, com um desfile muito divertido ao ar livre no Parque do Ibirapuera. Fause Haten surpreendeu e apresentou um desfile poético, onde o texto conversa perfeitamente com as roupas e o movimento todo do desfile por fim parece uma dança. E pra fechar, Ronaldo Fraga com sua homenagem ao grande Noel Rosa.

Que tendência que nada! Isso tudo é uma grande piada!

Cavaleira                                                 Fausen Haten                                        Ronaldo Fraga     


Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
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