Por Claudio Cox
Aquela explosão musical que veio de Recife na primeira metade dos anos 90 me influenciou e muito. Hoje quando coloco na mesa a quantidade de preconceitos (musicais) quebrados naqueles anos, tento, mas não consigo dar a dimensão exata do que foi tudo aquilo pra mim.De vez em quando reviro umas fitas VHS com as coberturas do Abril Pro Rock – edições de 95 e 96 feitas pelo Reverendo Massari para o programa Lado B da MTV – só pra ter certeza de que realmente aconteceu tudo mesmo e que não é estória do Monteiro Lobato.
Chico Science falando de maracatu e pedindo clipe da Blues Explosion, um monte de bandas surgindo, algumas horríveis, outras sensacionais, mas todas muito autênticas e aquele climão de que um capitulo da história da nossa música estava sendo escrito ali por aqueles caras todos.
Às vezes até parece que foi lenda mesmo, mas não foi.
Numa lista dos “100 maiores discos da música brasileira” organizada pela revista Rolling Stone Brasil em 2007, estão lá os dois principais álbuns da ebulição pernambucana lançados em 1994 por Chico e sua Nação Zumbi e pelo Mundo Livre S/A de Fred 04. Aliás, esse álbum do Mundo Livre, “Samba Esquema Noise”, entra fácil no meu top 10 de todos os tempos.
Ainda de carona nessa lista da Rolling Stone, o álbum que ganhou o status de numero 01 pelos críticos e jornalistas e que chegou aos meus ouvidos via Mangue Beat – mesmo a banda sendo baiana e que o álbum tenha sido lançado duas décadas antes – foi o “Acabou Chorare” dos Novos Baianos.
Os Mutantes a essa altura já eram habitués nas caixas de som aqui de casa, Jorge Ben veio logo depois e eram esses dois as referências mais aclamadas pelas principais bandas de Recife, mas se for comprovar a paternidade do Mangue Beat com teste de DNA, acho que dá Novos Baianos na cabeça.
Eu não me lembro de ter escutado nenhum dos nossos heróis do mangue falando sobre os Novos Baianos naquela época, mas me lembro que a ligação entre eles surgiu pra mim em uma resenha que li sobre o “Samba Esquema Noise” do Mundo Livre. Não era nada muito filosófico (não que eu goste de resenhas filosóficas), foi só uma citação falando da mistura de rock com samba, mas bastou para despertar meu interesse pela banda baiana.
Na verdade, caracterizar o "Acabou o Chorare" (o “Samba Esquema Noise” também) apenas na simplória idéia da mistura rock com samba é no mínimo uma falta de sensibilidade absurda. Esses discos representam para a música pop brasileira, talvez o mesmo que os álbuns “Sargent Peppers” e “Nevermind” representam para o pop do mundo. São o passo à frente...
Naquela época eu nem sabia da importância do clássico disco dos Novos Baianos, simplesmente fui numa loja de discos atrás de alguma coisa da banda e esse era o único álbum “original” na prateleira, o resto eram aqueles “os maiores sucessos de...”, “o melhor de...”, “a arte de...” e por aí vai. Nunca fui muito fã de coletâneas, prefiro os discos autorais e nesse acertei na loteria.
Esse é o segundo álbum dos caras e foi lançado em 1972, na fase “carioca” da banda. Concebido no Rio em um apartamento, “Acabou Chorare” é também conhecido pela pequena "grande" ajuda que um já ilustre baiano morador da cidade deu aos meninos. João Gilberto é esse cara.
Pouco tempo depois li a biografia dos Novos Baianos feita pelo letrista da banda, Luiz Galvão, e recomendo muito pra quem quiser saber um pouco mais sobre a vida e música desses malucos.
A edição em vinil comprei alguns anos atrás e foi uma das que não custaram pouco, mas que valeu cada centavo investido.