Em meio a um sacolejante show da Diva Sharon Jones, pedi emprestado o celular da dama para acessar a net com intuito do saber o resultado dos jogos. Tomada por uma indignação profunda a digníssima então me falou:
“Ah Marcelo, mas que doença é essa de futebol?! No meio do show?! Que saco isso!!”
E fez então aquele bico lindo, de fazer Ingrid Bergman triste de inveja. Coisas do amor. Mas o fato me lembrou de outras vezes em que eu, meus amores e meu Palmeiras entramos em conflito.
Teve o ano de 1989...
Naquele ano, meu Palmeiras gastou um dinheirão, montou um time e tinha tudo para sair da fila de 13 anos sem títulos, mas, no meio do caminho apareceu um tal Bragantino, com Zé galo, outro tal de Zé Rubens, e outros “Zes” e já era... 3x0 para os caras em Bragança e uma profunda depressão tomou conta de mim.
Namorava então aquela que hoje é minha grande amiga Camila e me lembro exatamente de quando ela chegou na minha casa após o jogo. A me ver, comentou:
“Mas como? Isso não é normal! É só um jogo...”
Fiquei maluco!
“Como é que é?! “Só um jogo...” Olha meu estado! Caramba olha como eu estou! Você namora comigo, me conhece e tem a coragem de dizer que isso é por causa de “Só um jogo”. Será possível que você não consegue entender o sentimento que tem em tudo isso?! Que raio de sensibilidade é essa que você diz que tem?!?!”
Bem; O resumo disso tudo foi uma briga homérica, uma discussão estúpida e a culpa disso tudo, com certeza foi do Bragantino! Depois teve um 12 de junho de 1993.
Meu Palmeiras que tinha Edmundo, Evair, Mazinho, Zinho, Cesar Sampaio... Iria disputar a final do paulistão contra o Corinthians precisando vencer o jogo para tirar meu verde de uma fila de 16 anos sem títulos. Pensando que eu tinha 23 na época, percebe-se que nunca tinha visto meu time ser campeão! Na ocasião, a namorada da vez me inventou um “jantar com os pais, seguido de um sábado de dia dos namorados”:
“Mas mulher, dia dos namorados é todo dia. Menos esse sábado, porra!”
“Não começa! Você vai comigo e acabou...”
“Você ta louca. Vou pra lugar nenhum antes do Morumbi sábado à tarde”
“Bom Marcelo, você escolhe; Ou seu Palmeiras ou eu. Não vou mais discutir”
“Ahhh.. Nem precisa...”
Amiga leitora que passa as vistas nessas linhas, vai meu toque; Jamais ouse num rompante de paixão absurda, se opor ao time de futebol do seu amado companheiro. Das coisas mais absurdas que regem o macho latino, pense que o futebol, que o tal time do coração, provavelmente deve ter chegado na vida dele, muito antes de ele ter o coração arrebatado pelos vossos encantos de Venus. Quer dizer:
Óbvio que nesses casos a cousa degringolou. Como degringolaram outras tantas e boas paixões de verão, de inverno, de sacanagem e de purificação. Fato é que o meu Palmeiras ficou. E hoje não esta lá muito bem...
Agora, vivemos de zagueiros dedicados, volantes kamikazes que se matam pelo 0x0, tudo que for preciso para “somar um ponto na tabela”. Tudo que se faz hoje no Palmeiras vem com o signo do pragmatismo mórbido e pobre. Tudo que se faz por lá, “explica-se”. O Palmeiras tem até derrotas previsíveis, não existem mais aquelas derrotas dantescas, épicas, aqueles jogos de suscitar em Hollywood o desejo de fazer de uma partida de futebol, um filme de um King Vidor, ou de um Cecil B. Mille. É tudo muito chato e moribundo.
Assim foi o Palmeiras que enfrentou o Internacional no Beira Rio em Porto Alegre. Um time previsível, sem charme, encanto, nada. Joga com três volantes no meio campo e um meia enrustido, caso de Patrick. A premissa é “marcar”. Quando o time entra em campo, Marcio Araujo já cola no gandula! Chico, já marca a cheeleader para não deixar o pompom dela com “Espaço para jogar”.
Thiago Heleno já da logo uma no meio do vendedor de pipoca para ele “não se criar em campo”.
Escolham os clichês; O futebol de hoje é recheado deles.
Tem-se uma variedade interminável deles para justificar a falta de criatividade dos nossos times. Ta tudo no roteiro; Sair perdendo, virar o jogo e depois tomar um gol idiota no final para sacramentar um dolorido 2x2. E o tal "ponto na tabela” saiu. Eu deveria estar feliz? Bem...
Quando descobri que um dos gols foi do Luan, esqueci tudo, abracei a dama e me concentrei na Sharon Jones...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
