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| Poucas Trancas: João, Tiago, Rodrigo e Leandro |
A banda andreense Poucas Trancas faz show de lançamento do mais recente trabalho, o CD/DVD “Pare! Olhe! Escute!”, no teatro Lauro Gomes em São Bernardo do Campo nesta sexta-feira, dia 29 às 21hs. Por conta disso, tivemos uma conversa com um dos integrantes do grupo, o guitarrista Tiago Silva.
Pastilhas: Reza a lenda que o termo rock psicodélico surgiu no final de 1966 impulsionado pela relação escancarada de alguns músicos com drogas alucinógenas, o LSD principalmente. O fato é que alguns dos álbuns mais importantes da história saíram dessa relação, mas é fato também que esses álbuns saíram das cabeças de grandes compositores como Paul McCartney, Lennon, Brian Wilson, Sid Barret, Bob Dylan e alguns mais. Qual a impressão de vocês sobre o “rock psicodélico” de ontem e de hoje?
Tiago: Na história existem paralelos que explicam por que essa geração é tão marcante para nós hoje. Aquele momento veio de tantas situações que levaram seus compositores a explorarem mais e além da mente – daí o termo psicodélico. Nossa geração, que tem aí seus vinte e muitos anos, crescida nos anos 90 ouvindo uma dor de cabeça de adolescente estadunidense chamado grunge, vive algo parecido. Sempre que o mundo fica chato surge um movimento contrário para dizer que há essência nessa existência. Foi assim quando o Renascimento pôs curvas e cores nas coisas, ou quando vieram os anos ’60 opostos à Cruzeiro que ensinava a moça ser uma boa dona de casa. Eles buscaram expansão e liberdade. Nós, hoje, estamos nos perguntando que liberdade é essa que o mundo deixou para nós. Assim, como aqueles compositores discutiam coisas de sua época, estamos “expandindo a mente” para tratar dos nossos dias. Na capa do Sgt. Peppers tem todas aquelas personalidades. Hoje imaginamos um Obama tomando cachaça na Bahia porque também está de saco cheio e quer sambar. Cada época constrói e desconstrói seus heróis.
Pastilhas: Foi também dessa mesma época uma mudança no mercado para os chamados álbuns “conceituais” – até então os LPs eram basicamente coletâneas de singles, não era tão comum uma banda entrar num estúdio para gravar um disco com 12 faixas –, e hoje passados quase 50 anos, essas novas mídias trazem de volta a era dos singles e por conta disso o interesse pelos álbuns “conceituais” vai ficando cada vez mais distante. E aí? Como a banda está se adequando nessa “nova” onda?
Tiago: Sempre fomos ligados nos discos que trazem um conceito. Além disso, é possível ler apenas um capítulo de um livro e dizer que realmente conhece a obra? Havia condições culturais para aquilo. Hoje nem amizade dura muito porque é tudo em velocidade de megabits por segundo. Pare! Olhe! Escute! é um disco conciso, as letras têm um tema, apenas não amarramos as músicas de um jeito que se tornasse impossível ouvir cada uma separadamente. É sobre as relações pessoais, uma animosidade, o homem pós-moderno do Zygmunt Bauman, a falta de resolução que a velocidade dos nossos dias trouxe. Quem dispõe de 40 minutos para ouvir o disco inteiro, reconhecer as inferências, as vozes da filosofia existencialista e dialogar com os temas? Não poderíamos pensar hoje em um disco no qual as músicas não fossem partes autônomas, mas que, em conjunto, formam algo muito maior.
Pastilhas: Estou errado ou há uma influência de cabaré na banda? Falem um pouco sobre ela, se existe mesmo, e também sobre o processo de composição de vocês, sei que não existem regras pra compor, mas existem métodos inventados ou adequados por cada individuo, qual é o da banda?
Tiago: Existe, mas mais interessante é que vem por outros caminhos, outros artistas nos quais buscamos as referências para compor nosso trabalho. Temos referências variadas e algumas formam uma intersecção, pode-se dizer. Banda de rock tem mania de falar em “influência“, o que faz parecer que ele recebe um espírito quando ouve um solo de guitarra e começa a reproduzir música. Pode parecer pedante, mas eu acho que se faz é pesquisa.
Este disco é um disco transitório, pois marca o retorno da banda original, então grande parte do material foi escrito pelo Rodrigo e o Leandro, que carregaram a banda entre 2008 e 2009. Tivemos experiências anteriores onde cada um trazia seu material e a banda parecia uma plenária onde nenhum partido tem maioria e dependia da persuasão para por a música dentro. Depois de aprovado, todo mundo contribuía na composição. No Pare! Olhe! Escute!, eu e o João não pudemos contribuir muito além da produção final do álbum, pois as músicas já estavam prontas. Já o show foi todo trabalhado pelos quatro. Com o tempo, você começa a antecipar o que o outro pensa, então vira um processo telepático, pois todo mundo se conversa sabendo uma língua interna. Produzir o show tem agradado muito porque, desta vez, não procuramos métodos, apenas fizemos ligando ponto A ao ponto B. Havíamos experimentado muito sobre o palco, a comunicação visual, mas cada um seguiu uma linha e, no final, a costura deu num tecido que é o Poucas Trancas ao vivo, e cada um leva ao o palco o que gostaríamos de ver.
Pastilhas: A música é “independente” hoje, as facilidades para se produzir e divulgar uma banda são infinitas. Daí muitas vezes o processo inverte-se, as “grandes” gravadoras vivem de pescar fenômenos (autênticos ou não) na Internet – vide o caso da “Banda mais Bonita da Cidade” –, tornando-os descartáveis (dependendo da banda) da mesma maneira que trabalhavam no passado. Vocês assinariam um contrato com uma dessas “grandes” hoje em dia?
Tiago: Há controvérsias sobre essas facilidades – principalmente sobre fenômenos da internet. Nós assinaríamos um contrato, mas dizem que esses vêm com mil poréns, determinações e limitações. O nome da banda sugere maior abertura para criação, que não se prende às convenções e exigências. Nosso produto não é descartável, mas somos muito acessíveis e não existem muitas trancas para nós.
Pastilhas: As influências musicais da banda são explicitamente setentistas, principalmente as brasileiras, mas vocês defendem que nas apresentações ao vivo até a música eletrônica mais moderna pode entrar na dança. O que vocês escutam de “novo” (leia ultima década), nacional ou gringo?
Tiago: Escutei pouquíssima coisa recente e arrisco dizer que o Leandro e o Rodrigo idem. Converso com o João sobre Muse, Arcade Fire, e outras coisas que eu vejo com bons olhos, mas não tenho no meu player. Até pensei em por, mas teria que apagar o disco da Grace Jones para caber, então deixei para lá. Quando virou o século eu pensei que a música pop tinha se perdido na estrada e resolveu fazer o caminho de volta, mas nos dez últimos anos coisas boas apareceram, em todos os gêneros. Chato mesmo é lembrar mais das coisas que me irritaram profundamente, como CSS e Mallu Magalhães, do que das coisas boas.
Pastilhas: Esse show que vocês vão apresentar no dia 29 é o de lançamento do DVD/CD “Pare! Olhe! Escute!”, como foi o processo de produção desse trabalho, existiu alguma “força” externa, um patrocínio ou foi tudo bancado pela própria banda?
Tiago: Desde quando a banda se formou em 2004, tentamos muitas coisas até então, tomamos tombos, tivemos escoriações e luxações desnecessárias. Antes de gravar o Pare! Olhe! Escute!, já sabíamos que só teríamos que tomar uma atitude mais firme com o trabalho – em outras linhas, tornarmo-nos profissionais – e isso só foi possível porque a banda se reformou, engordamos alguns quilos, alguns se tornaram pais, e agora temos a Telma (Molina) nos apoiando no que sempre tropeçamos, que é justamente a exposição do nosso trabalho, o que envolve uma série de ações que não conseguiríamos gerenciar. Essa é uma experiência vivida por muitas bandas. Fora disso, não tivemos nenhum apoio financeiro, contando apenas com nossos recursos e muita camaradagem, o que não nos faz uma banda realmente independente, se é que existe alguma.
Pastilhas: O que podemos esperar do Poucas Trancas daqui pra frente?
Tiago: Esperamos abrir algumas portas que antes não conseguiríamos com esse trabalho e levá-lo muito à frente. Se há alguma coisa que os quatro têm convicção é que nosso trabalho tem muitas possibilidades, não está fechada a uma classe ou outra. Lembro de o Rodrigo dizer que o que ele mais gostava do Zé Geraldo era o fato de, nos shows, encontrar crianças e velhos, “de 8 a 80 anos”. Sem querer, mas querendo, caminhamos para isso. Temos agora um ótimo show. E que está crescendo cada vez mais. Não nos livramos de todas as regras, não temos intenções anarquistas dentro da banda. Uma das poucas é que sempre queremos trazer uma surpresa, a cada espetáculo. Sempre nos perguntamos o que gostaríamos de ver e a chance de criar uma expectativa nova a cada pessoa que segue a banda é, como vovô já dizia, dar banana para o macaco.
