Por Ana Mesquita |
Sábadão dia 23, dia cinza, garoa fina, preguiça máster, amigo que dará carona atrasado, tinha perdido a hora e só acordou às 2 da tarde – horário que deveria passar na minha casa. Afinal tudo, mas tudo mesmo caros leitores, poderia acontecer nas horas que se seguiriam, afinal estávamos indo para Paranapiacaba, tentar prestigiar os shows do XI Festival de Inverno da Vila histórica tombada.
Não estou exagerando as tintas da dramaticidade. Acredito que se eu forçar a memória lembro-me de ter ido a quase todas as edições do Festival – aqui já justifico o “quase” pois em 2009 o inverno foi mega chuvoso e a água despencou do céu sem parar um segundo em todos os finais de semana em que ocorreram o festival. E justamente por ter ido a quase todos posso dizer que já passei situações das mais diversas na vila, como dormir num carro, passar o final inteiro na vila e só ficar colada na cadeira do Bar da Zilda na vã tentativa de acabar com todo o álcool do mundo, de ficar quase 2 horas no busão que vai de Rio Grande da Serra até Paranapiacaba, e claro, ficar no mais completo breu quando me deliciava com um belo caldo verde, pois os geradores de energia da vila não comportaram o imenso fluxo de visitantes. Já consegui descer com o carro até a cidade baixa como “artista” e também teve um ano que conseguimos um selo no para-brisa do carro dizendo que éramos moradores.
Posso afirmar que ao longo dos anos o festival mudou muito. Mas pra entender essa mudança temos que falar um pouco de política, mas serei bem breve. Celso Daniel, o melhor prefeito que a cidade de Santo André já teve em toda a sua história e que foi assassinado por motivações até hoje não esclarecidas (aqui um pequeno adendo: Celso Daniel foi assassinado em fevereiro de 2002, ano da vitoriosa campanha política que levou o PT ao poder federal. Dentro dos quadros do partido Celso Daniel estava cotado para ser, não só o coordenador da campanha de Lula, mas também o ministro da Casa Civil, no lugar que acabou ficando com José Dirceu), teve como seu último ato como prefeito a compra da Vila de Paranapiacaba que estava sob judice da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A).
Em 2002 aconteceu o primeiro festival. O trem ainda chegava até a antiga Estação de Paranapiacaba e no roteiro do Festival estava cadastrado e perfeitamente identificados todos os Ateliês Residências da Vila. Algumas apresentações, como da banda Kah-hum-kah, aconteceram nos porões das casas dos próprios moradores, num cenário surreal de rusticidade e envolvimento com o público. Com o passar dos anos, e com a mudança das administrações muita coisa mudou. Os shows do Viradouro que não comportavam todos, as belíssimas apresentações da Sinfônica e Filarmônica de Santo André que não acontecem mais.
Enfim, esse ano resolvi ir no rolê turista mesmo, sem visitar buracos e muquifos que conheço na vila. Fui para ver os shows do Beto Guedes, Cidadão Instigado e Milton Nascimento. O maior medo: não conseguir ingressos. Até o ano passado era necessário retirar ingressos 2 horas antes de cada show. Filas enormes se formavam e pessoas chegavam às 2 da tarde pra ficar na fila até as 6 pra ver um show que aconteceria as 8. Desumano galera, vamos combinar. Outro medo, o trânsito: no ano passado o distinto senhor Rafael Castro e sua banda, os Monumentais simplesmente não conseguiram chegar para sua apresentação no Clube Lira Serrano. Ficaram presos num imenso engarrafamento na estrada que dá acesso à cidade.
Me surpreendi, juro por tudo que é mais sagrado que sim, me surpreendi. Em primeiro lugar nada de trânsito as 4 da tarde! Em segundo lugar vaga no estacionamento! Zero minutos de espera para pegar o bus pra Vila. Quando estamos todos bem munitinhos sentados esperando pra zarpar pra vila, entra um moleque e dá algumas infos pros passageiros. Vou confessar que a única coisa que entendi de tudo que ele falou foi “Show do Beto Guedes: não é necessário retirar ingressos. Show do Milton Nascimento, não é necessário retirar ingressos”. Pois é amigos leitores, os cabras tomaram vergonha na cara e resolveram tratar com um pouquinho mais de dignidade os visitantes.
Os Shows
Neste ano o Sesc Santo André ocupou o Clube Lira Serrano, local do show do Cidadão Instigado, era necessário retirar ingressos, mas foi tudo bem sussa, acredito que mesmo as pessoas que estavam na fila de espera conseguiram. Na rua atrás do Antigo Mercado foi montado um palco médio, onde rolou Beto Guedes. E no campo de futebol – é uma vila inglesa e um campo de futebol não poderia faltar! – um gigantesco palco, onde rolou Miltão.
O show do Beto Guedes foi ruim, adoro as músicas do cara e tudo o que envolver essa coisa de mineirice e clube da esquina, mas a voz do cara não é mais a mesma. Ele não sobe mais nos agudos. Entendo o lance da idade e tudo mais, mas ele cantou Lumiar, uma das mais belas canções da música brasileira, e eu mal consegui reconhece-la. Além de tudo o som estava uma bosta, posso afirmar que esse fator contribuiu em uns 70% pra eu não ter gostado do show. Vi o puro amadorismo dos técnicos de som naquela situação, parecia que estavam regulando som para um espaço aberto pela primeira vez na vida, uma puta falta de consideração para artista do porte do Beto Guedes.
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| Apresentação da banda Cidadão Instigado |
O show do Cidadão Instigado foi incrivelmente deliciosamente e perfeitamente bom. Qualidade Sesc nos equipamentos, Clube Lira Serrano e sua arquitetura e acústica fenomenal, e claro, Fernando Catatau tocando bem alto. Dancei e pulei muito, foi lá que encontrei os amigos perdidos na Vila!
Pausa pra falar da comida antes de ir pro show do Milton. Muitas barracas de comidas, caldinhos, sanduíches, coisas fritas, mais coisas fritas. Quem não conhece a vila e seus restaurantes residenciais, fica a mercê das barraquinhas da rua, onde você não encontra uma opção sequer para um vegetariano. Eu como carne, eu adoro carne, mas meu amigo que foi comigo estava ruim do estômago. Simplesmente fodeu, pois sabor e qualidade não era uma opção para o que ele poderia comer ali. Uma pena. A verve culinária poderia ser muito melhor explorada em Paranapiacaba.
Show do Milton. Emocionante. Sou completamente maluca pela obra e história do cara. Li “Os sonhos não envelhecem” e “Travessia” praticamente na seqüência. Chorava a cada 30 páginas. É toda uma carga emocional lidar com a figura do Milton. Mas o show deixou a desejar. Tanto pela escolha do repertório quanto pela qualidade do som. Não vou falar sobre a escolha do repertório, vou falar sobre o som. Primeiramente resolvemos ficar na lateral do palco, fora da tenda e do tablado de madeira colocados ali pra não afundarmos o pé na lama do campo de futebol. O som estava baixo e ruim. Fomos para a frente do palco, ver se o som melhorava. Melhorou, mas continuou baixo. Então percebi que a batera estava atrás de uma espécie de redoma, tipo um biombo transparente. Milton canta muito baixo, então todos os instrumentos acompanham a potencia que sua voz alcança E um pensamento me veio à mente, que o som do Cidadão Instigado soa muito mais Milton Nascimento do que o show que estava acontecendo ali na minha frente.
Nos livros sobre a história do clube da esquina existem algumas passagens que contam sobre o processo de profissionalização da música brasileira, ali pelos anos 70/80. Milton vivenciou essa evolução tecnológica dos equipamentos, um tipo de som que soa, ou soava, moderno, sofisticado e eletrônico. Fernando Catatau usa amplificadores valvulados, mais próximos das timbragens do som dos primeiros discos do Milton. É um movimento que muitos críticos já exploraram em textos, que é essa pegada mais “orgânica” na música pós explosão da mistureira eletrônica da primeira década desse século. Dois exemplos sobre esse movimento é o Pedra Branca e a cantora Céu. Pegue o primeiro e o último disco do Pedra Branca e veja as diferenças. Pegue o disco novo da Céu e veja a seleção de sonoridades para as bases “eletrônicas” das músicas. Milton não soa mais como Milton. Alguns ecos de genialidade ainda podem ser percebidos, mas longe de todo o potencial da obra do cara.
Apesar de todos os movimentos de repúdio à atual administração e a forma como ela conduz a política atual, o que não podemos boicotar é a Vila de Paranapiacaba, Patrimônio da Humanidade, cidade tombada. Quem sabe um dia ainda a vemos completamente restaurada?
Ana Mesquita é colaboradora do Pastilhas Coloridas e jornalista freelancer amante de cinema. Twitter: @anamesquitafoto
