Das coisas entre Bernard Shaw, Felipão, Tite e outras elucubrações ludopédicas...

Após essa rodada do Brasileirão, uma série de circunstâncias e acontecimentos me remete a uma reflexão que na verdade me acomete já há algum tempo; Tudo é muito complicado no futebol dos dias de hoje.

Um esporte que outrora fora simples, encantador, cheio de magia e ludismo, hoje, nada mais é do que um reflexo dos tempos mecanizados que vivem as sociedades urbanas do mundão globalizado afora. Não existe mais a resenha dos antigos e deliciosos programas de radio AM. Agora o que se faz são “Análises Taticas”. As entrevistas não têm mais aquele clima bom de bate-papo, agora temos as “coletivas”. O camisa 10 do time não existe mais. E por vezes, quem ocupa aquele sagrado espaço veste a camisa 25. 32, ou 40 e pasmem, a conversa de botequim da segunda feira, agora é na terça, visto que o torcedor moderno espera as mesas redondas com as tais análises, para montar a “pauta” do que vai falar no boteco no dia seguinte.

É o caos! Amigo leitor, a Ludopédia nacional está em caos. E como tal, estão os clubes, vejamos então o rescaldo do que aconteceu no final de semana, contando com a ajuda de um caboclo o qual prezo muito, cujos seus livros devorei com afinco e seu pensamento, vira e mexe me norteia como agora...

George Bernard Shaw, era um irlandês que nasceu em uma falida família tradicional de Dublin. E pastou muito na vida sofrendo todas as rejeições, preconceitos e o diabo até começar a ser reconhecido como grande dramaturgo, contista, ensaísta, jornalista e mais tudo que fez muito bem em sua vida. Livros espetaculares que são minha cabeceira até hoje: “Cândida”, “O Famoso Ídolo”, “Volta a Matusalém”, “A Conversão do Pirata” e tantos outros tratados maravilhosos tais como “O Guia da Mulher Inteligente para o Socialismo e Capitalismo”. Ali, entre tantas outras tiradas ótimas, irreverentes, inteligentíssimas, há uma frase que cabe para o caso do meu Palmeiras e seu técnico. Diz, Shaw:

“Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte.”

Pois bem...


O Palmeiras tem como técnico um homem pelo qual tenho profundo respeito. Luiz Felipe Scolari venceu no mundo do futebol por sua perseverança, por seu trabalho, sua competência, por sua retidão de caráter e honestidade. Acompanho o gauchão desde os tempos em que foi campeão da Copa do Brasil em 1991 com o pequeno Criciúma. Dali fez história no Grêmio, com meu Palmeiras entre 1997/2000 ganhando tudo que disputou, com seleção brasileira na copa de 2002 e depois, com campanhas memoráveis pela seleção de Portugal, tanto pela Euro em 2004, quanto pela Copa do Mundo de 2006.

Esse homem sério e correto, justo e muito digno, conseguiu tudo que quis em sua vida, em sua carreira. Depois de todos esses sucessos, estava tranquilo no longínquo Uzbequistão, ganhando de dinheiro o mesmo que Angelina Muniz ganhava de assovios e cantadas ao desfilar sua linda morenice nos anos 1980. Ou seja; Ficou milionário! Tava feliz da vida, não tinha mais nada o que provar e talvez por isso, aceitou a ótima proposta do Palmeiras para voltar à casa onde sempre foi muito bem tratado. Chegou imaginando que seria tudo calmo, tranquilo, uma brisa leve antes da merecida aposentadoria. Ae começam os problemas...

Sem o desejo que o Bernard Shaw já nos indicou ser necessário, Felipão não se ocupou muito em ter para o Palmeiras, jogadores do tamanho da grandeza do clube de Palestra Itália. Se acomodou com os tais Luans, Patrick's, Marcio Araujo, Max Pardalzinho, João Vitor e afins. Então, mesmo tendo uma boa espinha dorsal com Kleber, Marcos Assunção, Marcos, Cicinho, Henrique, Valdívia, o time não andou. Com isso, o clube ficou sem força, os resultados não vieram e Felipão passou a ver os erros de todo mundo, mas não ver os seus. Afinal, ele montou esse time. Óbvio que as coisas não vão dar certo.

Ontem no Pacaembu, o que se viu, foi um time totalmente refém de uma tal “organização” tática que de nada serve. Dirá o idiota da objetividade que “o Palmeiras perdeu muitos gols, jogou uma ótima partida, mas perdeu várias chances, enquanto o Internacional que teve poucas, acertou três delas com Leandro Damião sacramentando assim o 3x0 final”...

Para diabo com isso!

Mania maldita de tentar justificar tudo... Como pode um time perder por 3x0 e ter “jogado bem”?? Um time que tem organização tática, mas que não tem qualidade alguma. De que adianta ter 62% da posse de bola dentro do campo do Inter, se você não tem qualidade dos seus zagueiros para fazer uma cobertura, evitando assim o contra-ataque que resultou por exemplo, no gol de bola e tudo de Damião no 3x0? É uma tristeza isso tudo. Pior é ver o homem justo e correto que disse, ficar lá resmungando feito vedete mal paga, no banco de reservas do meu time. E como disse o Shaw, precisa tomar cuidado com isso, porque a tal satisfação, bem pode te levar a locais que de certo não serão muito prazerosos.

E o Corinthians?

Por lá tem um bom homem também, que é um ótimo trabalhador do futebol, mas que sei lá o que acontece... Tite se perde por vício!

Vício de treinador em ser teimoso. Já se enterrou no Paulistão quando insistiu com Dentinho no time, segue agora sua sina de mula empacada, e quer porque quer, que todos entendam o péssimo momento de Jorge Henrique no time. O jogador é colocado como meia, como atacante, como lateral esquerdo... Joga mal em todas! Ontem no Engenhão, contra o Fluminense, após ser amassado pelo time carioca no primeiro tempo, o Alvi Negro não teve forças para reagir e com o 1x0 marcado num chute torto de Fred, até minha Tia Leíta, lá de Exu, sabia que o Corinthians não empataria o jogo. Não tinha forças, não tinha vontade e não fazia nada de diferente. Então Bernard Shaw entra mais uma vez aqui para nos auxiliar e em seu grande livro “O Homem e as Armas”, diz em certa ocasião que...

“...O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem insensato,,,”

Tite, com suas leituras de auto-ajuda e sua sanha voraz em ser “lúcido”, “Sensato” munido de um palavreado empolado, se esquece do que ele mesmo tem de melhor; A ousadia. Oras... Tite foi campeão gaucho em 2000, metendo 4x0 no Grêmio, treinado o Caxias!! Um time que jogava pra frente, cheio de opções, como jogadores rápidos, habilidosos. Depois venceu o Corinthians num final de Copa do Brasil em 2001 dentro do Morumbi lotado! Que diabos acontece?

No império do tecnocratas sem classe, é terminantemente proibido que se ouse fazer algo que fuja da regra comum. O tal técnico de futebol não arrisca, não cria, não pensa em nada de diferente do que pensou o Elba de Pádua Lima nos anos 1960. Não tem o charme que tinha um Neném Prancha, nem a inteligência comprovada de um Telê Santana, ou Rinus Michels. Vivemos num pais de Tites. Pobres homens sufocados de tanta burocracia e mesmice. Nesse quadro atual, nosso futebol padece. A poesia mofa.

E o “importante são os três pontos na tabela”. Triste...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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