De olho na moda - O universo do homem que não chora

Por Carolina Vitorino e Priscila Tamara | 

Numa conversa dia desses, nos deparamos trocando idéias com um amigo, sobre a moda masculina. É legal saber que alguns homens gostam e se interessam por essa arte e a apreciam (aqui no Pastilhas mesmo os caras curtem hein!). E foi dessa conversa que surgiu o tema de hoje, por aqui. Convidamos Danilo Romeiro, um estudioso da fina arte da alfaiataria, para fazer uma participação especial e falar um pouco desse universo masculino na moda. E lógico que metemos o bedelho né... sabe que mulher não consegue ficar quieta...

 Então com a palavra, Danilo Romeiro...

 "Em mesa de boteco não se fala de gravata. Homem que é homem não chora e o conjunto bermudão mais camiseta é roupa para qualquer hora. E isso não é novidade, são poucos os homens dispostos a prestar atenção aos detalhes, ao acabamento do tecido ou ao número de bolsos de seu terno. A moda, essa indústria cultural com tendências econômicas é pouca compreendida por uma boa parte da ala masculina.

Caricatura de George B. Brummel
 Isso não foi sempre assim. Entre o final do séc XVIII e o começo do séc XIX um grupo de homens de Londres e de Paris conhecidos como dândis mostrou a importância de saber se vestir. Nesse período entre antigas monarquias e novas repúblicas, algumas pessoas não pertencentes às classes nobres conseguiram seu espaço na nata por ter uma noção acima da média do que usar ou não.

 Mais do que entender de moda, eles sabiam se vender por terem estilo e elegância. Focavam-se em detalhes por vezes esquecidos, fosse uma barba bem feita ou um sapato mais polido. Os poetas Baudelaire e Lord Byron são dois exemplos deste movimento.

 Mas foi George Bryan Brummel quem, no século XVIII, realmente levou a figura dandística para novos patamares. Beau Brummell, como ficou conhecido, dava suas dicas para o então príncipe regente inglês (futuro Rei George IV). Trocou culotes por calças, recomendou que botas fossem polidas com Champagne e acabou exagerando um pouco na dose. 

 No começo do séc. XX dois eventos conhecidos como grandes guerras, além de algumas ditaduras, influenciaram as artes e a sociedade em geral. A moda, que estava ao alcance dos acontecimentos, tomou ruas e guarda roupas de assalto e, de repente, jaquetas militares eram vendidas em lojas de departamentos, como a Sears. 

James Dean
 Eis que, durante os anos 1950, os veículos de comunicação passam a noticiar um novo fenômeno cultural, conhecido como Rock ´n Roll. Rádios são tomadas, as vendas de long plays sobem às alturas... E o mesmo ocorre com o número de calças jeans e camisetas brancas fabricadas em escala global. 

 Com uma indústria cultural fervilhante, graças aos televisores e um breve período de prosperidade por parte da classe média, cada vez mais homens foram expostos a modelos de padrão comportamental. Se o rock apareceu para os jovens, Sinatra e seu Rat Pack eram modelos para o homem maduro, com seus uísques e ternos. Sempre prontos para adentrar eventos de gala ou jantares românticos."

E essa é a hora em que metemos o bedelho... hehehe

 Hoje, mais do que nunca, a indústria da moda acompanha as tendências de mercado, e impõem certos padrões de beleza e consumo a cada estação, o que pressupõe que quem “está na moda” está acompanhando o que há de mais novo no mercado. Mas até que ponto isso tudo é importante na vida das pessoas? Até que ponto adentrar o mundo da moda sem ter que fazer parte de um modelo consumista e nojento que o sistema nos coloca?

 Há uma tênue linha que separa o que você usa porque gosta e o que você usa porque quer acompanhar o que é tendência só para estar bem vestido. Estar bem vestido é muito relativo, é como dizer o que é bom ou ruim, porque de fato o que é bom ou ruim para você? E para o outro? É importante deixar claro que não existe o certo ou errado em todo e qualquer processo criativo. Não somos burros de carga, não “temos” que usar isso ou aquilo porque a maioria está usando.

A elegância paulistana de Adoniram Barbosa
 Isso não quer dizer que você não possa apreciar o trabalho de criação que envolve a construção de uma roupa. Não estamos falando aqui de estilo, que é algo pessoal, e cada um tem o seu. Você não precisa vestir uma camisa listrada se não gosta de listrado para estar bem vestido. Mas, existem situações que pedem que você gaste um pouquinho mais de tempo para se arrumar melhor e que carregam consigo um significado: o respeito. E o fato de você se vestir de acordo com a situação não faz de você uma pessoa fútil.

 Fútil é aquele que alimenta o preconceito. Que cega o homem, e ainda é passado de geração em geração, num presente que não se abre para o futuro. E ainda existem os que acham que gostar de roupas é se entregar ao consumismo exacerbado, é coisa de gente que só se preocupa com o visual, enaltece o corpo e solidifica a mente.

 Os homens, em sua maioria, já tem uma certa "indiferença" com a moda e ao se aproximarem de uma vitrine, de uma banquinha, de qualquer lugar onde esteja exposta uma peça diferenciada, o fazem com certo pudor. É como se fosse pecar.... O homem foi educado para não se surpreender com o belo, quanto mais adorá-lo. Tem dificuldade de dizer para o amigo que se emocionou por algum motivo, ou achou lindo um botão de flor, imagine então o botão de uma camisa.

 Tudo que de certa forma faz o homem se entregar ao ato prazeroso da criação causa um estranhamento aos olhos de outros. Ele pode dançar, por exemplo, mas se dançar balé vai ser estranho. Existe uma cultura machista que é iminente no caso da moda: ou é de mulher ou é de homem. Desde sempre foi assim: o azul é para os meninos e o rosa para as meninas, e as roupas masculinas não devem ter muitos detalhes, senão vira frescura.

Que tal abrir a cabeça?

Carolina Vitorino cursou Produção de Vestuário e atualmente se aprofunda em Modelagem. Priscila Tâmara estuda e trabalha com Modelagem Geométrica e cursou Merchandising p/ Varejo de Moda.
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