Por Marcelo Mendez
Lembro-me de quando fui assistir AMOR À FLOR DA PELE, minhas expectativas eram enormes por alguns bons motivos.
Primeiro porque era um filme de Wong Kar-Way. O chinês que fez sua vida toda em Hong-Kong, já tinha chamado atenção do mundo todo, com "Felizes Juntos" que lhe rendeu uma Palma de Ouro em 1997, "Dias Selvagens", "Amores Expressos"... Lançaria um filme para falar de amor e aí, vem o segundo grande motivo; Com esse titulo em português, dado momento da minha vida, imaginava que de fato veria uma densa história de amor a flor da pele na vera mesmo, mas, ledo engano...
O filme trata da relação de um editor de jornal e sua vizinha, num cortiço da China de 1962. Com milhares de encontros inevitáveis, somado à viagem do marido da mulher para uma empresa no Japão, o clima de paixão de fato é levado a flor da pele, tudo regado a uma excelente trilha sonora com boleros calientes, closes fechados, pescoços lindamente filmados e a gostosa sensação de que há no filme, sempre um observador vendo a relação do casal em potencial, pelo buraco da fechadura. Mas a coisa não rola...
A beleza desse filme chinês está justamente nessa impossibilidade...
Com uma elegância incrível Kar-Way seduz o espectador com uma atmosfera romântica. tratando da coisa da incomunicabilidade humana, da nossa incompetência em viver um desejo de forma plena, dessa nossa incapacidade tosca de não entender os caminhos por vezes sinuosos do amor. Aí me veio à cabeça isso tudo quando passo a analisar a relação dos nossos clubes de futebol com essa tão almejada Liderança do Campeonato Brasileiro.
É impressionante o talento que clubes como Internacional e Corinthians têm para desperdiçar a chance de se viver a plenitude de morder uma coxa de frango assado no domingo à noite e arrotar dizendo “Somos Lideres”.
Ontem em Porto Alegre, ambos tiveram essa oportunidade.
Entraram em campo para decidir suas vidas na competição, em um confronto esperado por tudo que ele tem de histórico. Afinal de contas, ambos já decidiram um Campeonato Nacional em 1976 com vitória para a máquina Colorada de Falcão e Batista, protagonizaram um erro antológico do árbitro Marcio Rezende de Freitas em 2005, quando ao invés de assinalar pênalti claro para o Inter, expulsou a vítima Tinga com uma arrogância burra de fazer inveja a Fernando Collor e por último, decidiram a Copa Do Brasil com vitória para o Corinthians em 2009 em uma atuação de gala de Ronaldo. Ou seja...
Criou-se uma rivalidade.
E amigos, vos digo, A rivalidade é tão importante para o futebol, quanto o botox o é para Cristiane Torloni!
Os grandes momentos de nosso futebol foram regidos por essa condição. Flamengo x Atlético no começo dos anos 80, Palmeiras x Corinthians quando o verde era digno, Barcelona x Real Madrid, Fenerbach x Galatasaray na Turquia... Imaginem os senhores, o que seria do esporte ludopédico se todos os jogos fossem disputados de maneira fleumática, com o Laquê do Pedro Malan?!
Que chato seria! Pois bem...
Tínhamos, portanto todos os ingredientes necessários para termos uma grande partida de futebol no Beira-Rio. E aí vem a pergunta a lá Oliver Stone: Então porque não tivemos??
Amigo leitor a coisa na análise de um jogo de bola pode ser feita de duas formas:
Ou o homem da resenha é preguiçoso e encostado, e aceita qualquer correria como “Um jogo muito disputado, com as duas equipes buscando o resultado o tempo todo...” ou senão da maneira que a gente escolheu aqui para essa coluna, quer dizer; Fugindo da mesmice e da pieguice da crônica fácil. E já que escolhi essa segunda opção, vamos então à vaca fria. Oras...
“As duas equipes buscando o resultado...”, mas isso é óbvio!! Vai buscar o que? Dez pãezinhos e um leite no mercado do Seu Toyoda no Parque Novo Oratório?!?! CLARO que tem que buscar o resultado. Então porque as duas equipes ontem não o encontraram?? Pois bem...
O futebol mundial vive hoje um processo intrínseco de apequenamento das equipes e isso é deveras crônico. Ninguém mais quer atacar no futebol mundial. Os times se fecham atrás com 3 zagueiros, 2 volantes, além de meias que voltam para fechar ainda mais o ferrolho e 2 caboclos aberto pelas beiradas do campo, que tentam incessantemente esticar bolas para um pobre coitado de um atacante isolado no ataque. A idéia é ficar atrás esperando uma bolinha para sair desembestadamente para um contra-ataque. E essa correria é a que o cronista preguiçoso chama de “Um jogo de muita movimentação”. Tudo isso ficou claro ontem em Porto Alegre.
O Corinthians jogou com Willian e Jorge Henrique aberto dos lados, mas não para abastecer o isolado Liedson no ataque. A primeira função de ambos era marcar a saída dos laterais Nei e Kleber do Internacional. O colorado, também teve Andrézinho e Oscar como meias que pouco faziam para sair da marcação do meio campo corintiano e na frente, com o tal do Jô de atacante, não dava pra mudar muito o panorama que se apresentava;
Um modorrento jogo caminhando para um 0x0. E só não acabou assim porque Alessandro foi expulso idiotamente, de onde o Inter portanto pode pressionar até o Gol de Ney e porque O goleiro colorado Muriel, estupidamente montou uma barreira errada, para Alex aproveitar para fazer o gol corinthiano. Final de jogo, 1x1 irritante. E diante desse burocrático empate, cada um que escolha o seu veneno anti-monotomia preferido.
Eu vou ouvir Nat King Cole cantar bolero...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.