O futebol segundo Milton Nascimento e a canção de acalanto para um Erê insólito...

Por Marcelo Mendez

Em 1975, o Brasil vivia uma ditadura sangrenta, modorrenta, agonizante e de ressaca que insistia em não sair do poder. Nesse cenário, Milton Nascimento compõe FÉ CEGA, FACA AMOLADA, uma musica que caía como uma luva para narrar a urgência daquele momento, a sanha de toda uma geração por liberdade, por vida. Pois bem...

Ontem no Pacaembu no jogo Corinthians 3x0 Atlético Goianiense, um de seus personagens protagonizou como ninguém o clima da música citada.

Adriano...

O moço artilheiro é um caso clássico das possibilidades que o futebol pode dar a um garoto pobre no Brasil.

Menino pobre da Vila Cruzeiro, Rio De Janeiro, começa sua vida no Flamengo em 1999 quando foi parceiro de ataque de Romário no Flamengo. Desde cedo, aquele rapaz de 19 anos chamava atenção. Atacante alto, forte, de ótimo chute e muitos recursos, Adriano fez duas boas temporadas pelo Flamengo e foi para a Europa, onde jogou bem no Parma da Itália, na Fiorentina e chegou ao estrelato na Inter De Milão e depois na seleção Brasileira.

Tudo ia otimamente bem, até que seu pai faleceu e então tudo muda.

Adriano que havia ganhado grana demais, passa a beber demais, gandaiar demais, fazer bobagem demais. Entra em uma derrocada que dura até seu renascimento no Flamengo em 2009, passa por uma série de contusões e então, finalmente o garoto entraria em campo para estrear no Corinthians.

Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada...”

Como na música, o time do Parque São Jorge, envolto a milhares de turbulências, duvidas, contusões e outras tantas incertezas, já não podia esperar por uma estrada tranquila, por uma boa madrugada de sono.
Era a hora de Adriano voltar. No Corinthians a impressão que se tinha ao longo da semana é que o Atlético Goianiense, seu adversário, pouco importava. O assunto em questão era se o tornozelo de Adriano suportaria sua estréia. Quando se concluiu que tudo estava certo, então a preocupação era com seu peso em excesso e como falei, dadas as circunstâncias, com peso a mais, a menos que fosse, Adriano iria para o jogo!

Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada”

Tinha que ser assim.

A rodada apontava para uma necessidade vital de um brilho, mesmo que cego... de uma purificadora vitória do Corinthians. Com as derrotas de Vasco e Fluminense, com o tropeço do São Paulo em Minas Gerais, o Alvi Negro dependia de si mesmo para voltar ao topo da tabela. Pensando assim, foi com tudo para cima do Atlético Goianiense e como uma avalanche, atacou, atacou e atacou...

Com Willians e Jorge Henrique jogando com Meias abertos pelas pontas, mais Danilo centralizado e Alex como atacante, o Corinthians sufocou o time de Goiás, marcou demais a saída de bola e não demorou nada para Leandro Castan abrir o placar metendo 1x0 antes dos 15 minutos de jogo. A pressão continuou e deu resultado...

Em um cerco na saída de bola do Atlético Goianiense, Willians toma a bola e finaliza lindamente para fazer 2x0. E em questão de tempo, ainda na primeira etapa, Alex, entra pela direita e mete no alto do goleiro Marcio e faz 3x0. Pronto; O jogo estava ganho e o Atlético não oferecia mais perigo.

Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
Brilhar, brilhar, acontecer, brilhar faca amolada”

Pois é. Era então a hora do menino brilhar. Com o jogo ganho, sem mais nada o que ser feito em campo, Tite chama Adriano para entrar no jogo. Pacaembu vem abaixo! É divina a relação do futebol com o craque...

Eduardo Galeano escreveu lindamente que ele nasce “... A partir do dia em que a Deusa Dos Ventos beija o pé do homem.” A partir dessa premissa então o Craque pode tudo.

Para o torcedor pouco importa se ele esta gordo, se enche a cara de cerveja, se falta no treino, se corre pouco, se anda, se tropeça na língua de cansado... Adriano pouco fez como mortal. Se valeu da condição de semideus que só o futebol é capaz de dar ao homem comum, mesmo que por um fugaz momento. Assim aconteceu.

Nos pouco mais de 10 minutos em que esteve em campo, Adriano pegou na bola umas três vezes se muito. Teve uma chance de finalizar com mais perigo e mais nada foi feito. Não importava mais. No ultimo domingo no Pacaembu já aconteceu o que tinha pra acontecer. Agora é pensar adiante...

Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia
Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai se muito tranquilo”

Para crer que é possível Tite, ouça a canção...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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