Era uma vez um sonho em preto e branco, a lendária Ponte Preta e uma sinfonia chamada Dicá

Por Marcelo Mendez

 E cá estamos para falar do futebol nosso de toda segunda feira...

 O amigo leitor mais atento as coisas ludopédicas, sabe que ontem no Pacaembu, tivemos uma partida de futebol épica, com uma virada de 2x1 para o Corinthians em cima do Atlético Mineiro, com todas as nuances que caracterizam maravilhosamente o time de Parque São Jorge:

Susto inicial com gol do adversário no primeiro tempo, sufoco total no segundo tempo, gol de empate de Liedson e a virada, com Adriano, tão protuberante fisicamente quanto uma Mae West, finalizando lindamente um passe de Emerson aos 44 minutos do segundo tempo!

Certo.

A crônica poderia muito bem falar desse jogo e aí, nada demais aconteceria, os babacas viciados em padrões jornalísticos velhos, cada vez mais falidos, a cada dia que passa, mais próximos do fim, ficariam felizes e nada apontariam com relação à escolha feita aqui por esse escriba que vos relata a "cousa" toda.

No entanto caro leitor, mais importante que o épico, só o sonho. Apenas a proximidade do encanto pode superar as grandes batalhas, os assuntos pontuais e todo e qualquer chavão previsível. Tomando por base isso tudo, a coluna Canela de Ferro, vai deixar aqui essa coisa do Campeonato Brasileiro da Séria A de repouso para voltar a olhar para o lúdico, para o que está muito mais próximo do sonho, do que a sagração dos pseudo “Grandes” óbvios.

Falemos da lendária Ponte Preta.

Das minhas lembranças de menino lá nos anos 70, na minha mais tenra idade, quando comecei a me interessar por futebol, ali, por volta de 1976, 1977, com meus virginais, 5, 6 anos de idade, o grande narrador Peirão De Castro na TV Gazeta, narrava o saudoso Futebol Compacto domingo à noite no canal 11 falando de um grande time de futebol de uma cidade que eu ainda não conhecia:

A Ponte Preta, da cidade de Campinas, era uma máquina!

Tinha por lá jogadores ótimos como Oscar. Polozi, Wanderley Paiva, Marco Aurélio, Rui Rei, Lucio, Tuta, Parraga, um time espetacular treinado pelo sábio e saudoso Zé Duarte. Era um time que jogava incessantemente para frente, primando não apenas pela burocrática vitória, mas sim, pelo espetáculo, pelo show. Nesse time havia um gigante:

Dicá.

O camisa 10 da Ponte era um semideus.

Jogador clássico, inteligente, elegante, habilidoso, um canhoto que jogava um futebol imortal que beirava a divindade dos grandes, daqueles que não pisam o mesmo chão que nós mortais. Nos meus olhos de menino, ainda estão vivas as cobranças de falta de Dicá, seus lançamentos precisos, sua técnica apurada, seu estilo de jogar futebol, da mesma forma que um maestro rege uma sinfonia, um Mozart, um Vivaldi de chuteiras. Em se tratando de futebol, Dicá nada deveria a nenhum deles.

O tempo passou.

Aquele time não venceu nenhum campeonato como outros o fizeram. A questão é que, os tais “outros” não habitam minhas memórias. E elas foram aguçadas com o que aconteceu no último sábado no Estádio Moisés Lucarelli em Campinas.

A Ponte Preta de 2011 não tem mais um super craque. Não há mais por lá jogadores lendários como os já citados aqui. Mas há homens de bem e talentosos como Caio, Ricardo Jesus, Renatinho, o bom técnico Gilson Kleina e sua apaixonada torcida. Esta, lotou o estádio para torcer por uma vitória da Ponte que levasse a Macaca de volta para a série A do campeonato nacional. E que emoção!

Contra o ABC de Natal, a Ponte saiu perdendo; 1x0 gol de pênalti de Cascata. Precisava então de uma combinação e resultados que começou a acontecer de maneira mágica... O Bragantino perdia em casa para o ASA de Arapiraca por 1x0, o Vitória da Bahia jogando em casa, sofreu um revés improvável do São Caetano perdendo então por 2x1 e faltava a Ponte apenas vencer!

Isso começou acontecer no final do primeiro tempo com o gol de pênalti de Ricardo Jesus empatando o jogo. Seguiu no segundo tempo com o gol da virada, marcado por Caio e teve seu fecho apoteótico, com o Gol de Renatinho no acréscimo do segundo tempo para culminar com uma Dantesca e inesquecível invasão de campo da torcida pontepretana para começar os festejos de glória:

A Ponte Preta está de volta!

Em 2012, o povo preto e branco da cidade de Campinas terá a chance de voltar a reviver um pouco daqueles bons momentos. E não tem problema e não interessa muito saber se é absurdo ou não, pensar que a Ponte Preta pode voltar a ser o gigante que fora outrora. Nessa hora, basta lembrar o que já ensinou o grande Marcel Proust:

“Se sonhar um pouco é perigoso, a solução não é sonhar menos é sonhar mais.”

Então é isso; Sejamos então lúdicos...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor  e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
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