Festival PIB traz formato e programação diferenciada na edição de 2011

Por Ana Mesquita | 

Inti Queiroz é uma das

idealizadoras e atual

curadora do PIB
Sim pessoas, o PIB – Produto Instrumental Bruto – terá uma edição esse ano. Acontecerá neste domingo, 27 de novembro, a partir das 14h30 num dos lugares mais charmosos e bacanudos da cidade de São Paulo: a Casa das Caldeiras. A edição desse ano terá um formato diferente dos anos anteriores e contará com diversas atividades, todas gratuitas, ao longo do domingo. Inti Queiroz é uma das idealizadoras do festival e atual curadora. Fizemos uma entrevista com a moça pra conhecer um pouco mais sobre esse festival tão importante e fundamental para a cena cultural do estado de SP, justamente por dar a possibilidade de palco para bandas pouco conhecidas do público paulistano. Neste ano o PIB está diferente. Saiba o porquê na entrevista abaixo.

Quanto tempo existe o PIB?

A idéia de fazer um festival instrumental surgiu em outubro de 2003. Estava em Porto Alegre num show da Pata de Elefante + Argonautas, numa noite incrível e senti que aquilo era novo e precisava ser mostrado. Ao mesmo tempo, algumas bandas de amigos tanto em São Paulo, como em Curitiba já traziam essa nova tendência instrumental, de mesclar estilos como rock ao tradicional instrumental. A idéia começou a crescer e aos poucos fomos descobrindo que existia uma cena se formando. Muitas bandas surgiram em nossa pesquisa. Porém naquela época não conseguimos fazer um festival. A idéia continuou crescendo, a pesquisa também, bem como a cena instrumental. Em 2006 nos inscrevemos no edital da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e dentre 200 projetos de festivais de musica levamos o segundo premio e assim fizemos a primeira edição em 2007 no SESC Pompéia.

Sempre dependeu de lei de incentivo pra acontecer?

As três edições anteriores usaram a lei de incentivo à cultura estadual. Nesta quarta edição não. Estamos fazendo o festival 100% independente, com uma pequena verba nossa e a ajuda de parceiros incríveis que estão cooperando de diversas formas. Trabalho ha mais de 10 anos com leis de incentivo e isso reforça esse uso da lei em nossas ações. Sempre acreditamos que usar verba de imposto para fazer arte seria uma forma de fazer uma revolução cultural. O PiB é um festival trabalhoso, feito com muito capricho, cheio de detalhes e que prima pela qualidade de equipamentos, profissionais, artistas, etc. Temos uma equipe grande, varias atividades além dos shows, achamos essencial termos grana para cachê de todos os artistas, oficineiros, debatedores, etc. , bem como para termos uma estrutura de qualidade. Apenas com o resultado da bilheteria seria impossível manter o PiB. Mesmo porque o valor do ingresso sempre foi quase que simbólico (nosso sonho é que o PiB fosse sempre gratuito, nessa edição estamos realizando de esse sonho de alguma maneira) Ao contrario de outros festivais que usam milhões para acontecer, a verba usada no PiB da lei é pequena. Tem gente que não entende como fazemos um festival desse tamanho com tão pouca verba. Mas temos consciência de que a verba é publica e o que importa é manter o PiB vivo.

Porque um festival de música instrumental?

Como disse antes, sentimos que existia algo de novo acontecendo. Que existia uma nova cena latejando, precisando ser mostrada. particularmente todos na equipe gostam muito de música, já trabalhavam com musica ha bastante tempo, e gostavam mais ainda de música instrumental. Já ouvíamos bastante e já frequentávamos shows de bandas instrumentais que apresentavam essa estética instrumental inovadora. Sabíamos que a música instrumental experimental e ligada à cena alternativa ainda não tinha nenhum festival. Um festival com uma estética que mesclasse sons pesados, toscos, experimentais, inovadores ao instrumental que até então só primava pela virtuose e pela perfeição sonora. O nome do projeto já mostra um pouco esse conceito. Mostrar um instrumental que vem do bruto e chega ao lapidado. Ou vice versa. Que entende a música como temas livres, passiveis de intervenções, de experimentações, de texturas, de improvisos. Uma cena de bandas e não de solistas, feito por uma geração nova, muitos deles nascidos no rock alternativo.

Qual a importância do gênero para a cena brasileira?

Nossa pesquisa indica que essa cena tem um marco zero por volta do final dos anos 90 com o surgimento das primeiras bandas. Até então eram bandas isoladas, não se usava o instrumental como conceito. Foi por volta de 2003/ 2004 que as primeiras bandas realmente começaram a adotar o instrumental como bandeira. A maioria delas era de rock, surf e de jazz experimental. A maioria, bem diferentes do tradicional instrumental brasileiro existente até então. E esse crescimento foi mais notável a partir de 2005. Dezenas de bandas PIPOCARAM pelo Brasil. Nosso acervo indica que mais de 300 bandas instrumentais existem no Brasil atualmente. Algumas em plano vapor, algumas em período de entre safra, mas existem. Não sei se posso dizer que é um gênero novo, afinal o instrumental sempre esteve aqui, desde o começo do século, desde o mestre Ernesto Nazareth, desde as valsas, choros, etc. Mas essa nova cena instrumental trouxe uma proposta que ultrapassou algumas barreiras estéticas. O tradicional aqui foi refutado de certa maneira, sinto uma revolução sonora... o que importa pra muitos é desconstruir estilos musicais. O que importa é experimentar. Mesmo as bandas que tem um estilo mais distinguível e tradicional, como o surf music por exemplo, tem ao mesmo tempo uma evolução dentro do som. Agregar novos instrumentos, novas propostas de composição. Todas buscam texturas, loucuras, expressões novas. O que importa não é a virtuose e sim agregar estéticas e integrar-se à cena com a desconstrução sonora de estilos canonizados. Acho que é essa a importância. Desconstruir criando e assim trazer novidade à mesmice musical brasileira.

Por que o festival desse ano não será como nos anos anteriores? Qual a maior dificuldade encontrada por vocês?

Esse ano não conseguimos aprovar o projeto a tempo nas leis de incentivo por conta de problemas internos na própria lei estadual. Acredito que isso ainda é nossa maior dificuldade. A burocracia e a morosidade das leis de incentivo. Ser um festival instrumental também é uma dificuldade para captarmos patrocínio em empresas. A maior parte das empresas não conhece a cena, não faz idéia da riqueza cultural da cena e de que existe sim um publico interessado. Esta edição é reduzida, mas não menos especial. Nosso projeto 2011 / 2012 ja contemplava um formato novo do PiB, onde teremos o festival + a tour pelo interior. Por isso optamos para fazer duas edições linkadas. A quarta edição acontece agora neste domingo, lançando o novo formato do Projeto, O "PIB Tour São Paulo" que tem inicio agora e acontecerá mesmo a partir do ano que vem. Além disso, essa edição no domingo, será uma boa forma de realizar um antigo sonho nosso, que é de juntar as bandas madrinhas no mesmo dia, as 4 bandas são vencedoras da edição anterior. E estarão juntas na grande festa na Casa das Caldeiras neste domingo.

Como foi a escolha das bandas que tocarão nessa edição? Quais os critérios de escolha?

Esta edição buscamos fazer um line up ideal. Trazer bandas que ha muito tempo estavamos de olho, trazer bandas bem novas e com propostas reveladoras, trazer bandas que agregassem à cena instrumental de alguma forma. O critério principal sempre foi e sempre será a música. Mas achamos importante observar as bandas como um todo. O festival chama-se Produto Instrumental Bruto não é por acaso. Entendemos as bandas atualmente não apenas como uma expressão estética, mas como um produto cultural. Para a curadoria produto não está ligado a mercadoria banda, muito pelo contrário, mas a forma que é produzido mesmo. Por isso observar tudo, não apenas o som é essencial. O material enviado, juntamente com a pesquisa que fazemos tanto na internet quanto vendo shows, perguntando a diversas pessoas de todo Brasil sobre cada banda é um ponto. Observar como a banda se produz é outro ponto. Observar como o publico recebe a banda é outro. Se a banda toca por ai, onde toca, com quem toca é mais outro. Enfim é uma somatória de vários pontos. Tem bandas que observamos desde 2007 e que finalmente entrarão na lista. Bandas que evoluiram muito em todos os pontos. Isso é muito gratificante!

Fale sobre a programação do dia 27 lá na casa das caldeiras.

A programação é bem variada. Teremos os shows das 4 bandas madrinhas: MAMMA CADELA, TRÊS CRUZEIROS, THE MULLET MONSTER MAFIA, HUEY. A partir das 15h30 acontece o debate sobre a musica independente com a presença dos Debatedores: Alex Antunes (jornalista e musico), Erick Cruxen (Banda Labirinto), José Júlio do Espírito Santo (jornalista), Bruno Kaskata (produtor), Amadeu Zoe (Espaço Serralheria). Além disso teremos exposições de vários artistas em diversas linguagens artísticas: Fotografia(Marília Vasconcellos), Xilogravura( Manuela Romeiro), Colagens (Bel Falleiros), Paisagismo(ACATU - Atelie de Cultura Ambiental e Tratamento Urbano), Skate(Zapata Boards), Escultura Cinética/Móbiles(Guga Landi), Escultura em Papel Marchê (Clau Carmo), Ilustração(Alex Senna), Video mapping (O Jardim elétrico). E pra rechear uma grande feira cultural o dia todo, com diversos tipos de produtos de arte, artesanato, moda, etc. 

Se quiser acrescentar mais alguma coisa fique a vontade!

Inti Queiroz: Pra terminar acho importante falar sobre a PiB tour São Paulo que acontece no ano que vem. Teremos shows em diversas cidades. Já fechamos 8 cidades até agora, mas isso deve crescer. Se alguma prefeitura, Secretaria de Cultura, etc de alguma cidade estiver em interessada em receber / apóia o festival entre em contato com a gente a partir de dezembro! festivalpib@gmail.com

Ana Mesquita é colaboradora do Pastilhas Coloridas e jornalista freelancer amante de cinema. Twitter: @anamesquitafoto
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