Mostrando postagens com marcador Repórter Elsa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Repórter Elsa. Mostrar todas as postagens

Repórter Elsa - O Universo de uma anônima do universo


Por Elsa Villon | Repórter Elsa | Entrevistas |

“Eu sou do Universo” – assim se define Verônica, a entrevistada da vez pela série Repórter Elsa. Sucinta, discreta, reservada e quase anônima, a moça de 18 anos é autora dos tumblrs “Inventário de Tipos Humanos” e "Valsa dos erros".

Lá sim, personas contam os detalhes mais secretos de sua vida, como o avô que fuma a maconha do neto escondido enquanto ele está na faculdade, ou a moça que gosta de dormir embaixo de pianos tocando. E ainda o garoto que gosta mais de comer cola que de gente. É um mundo cheio de perfis interessantes por suas banalidades e segundo Verônica com voz, trejeitos, manias e segredos.

Share:

Repórter Elsa – Um livro de oito graus na Escala Richter


Por Elsa Villon 

Começou assim: estava a repórter que vos fala navegando pela web quando recebe um tweet de um tal Hugo Rodrigues. Curiosa, respondi e tamanha não foi a surpresa quando ele me disse que lia o site do Pastilhas Coloridas e estava lançando um livro. E claro, tinha lido minhas matérias, gostado e queria ser entrevistado.

Share:

Repórter Elsa: a arte do contato e do malabarismo de Otavio Fantinato

Por Elsa Villon 

Quem assiste aos vídeos ou confere a página de Otavio Fantinato, não imagina que ele tem 1,90 de altura, mas a leveza de um pássaro para falar sobre as coisas. E isso já é notório em seu trabalho: malabarismo de contato. Para quem não conhece, seguem alguns vídeos aqui e aqui. Em resumo, equilibrar duas esferas com as "juntas" do corpo demanda um controle - físico e mental - deveras elevado.



Mas o Otavio faz isso parecer fácil, como se fosse parte dele mesmo e não sei vocês, mas eu sequer pisco com medo de perder as esferas de vista, como se por conta do meu olhar e não de toda a técnica e talento do malabarista elas não caíssem. O que poderia ser uma carreira artística deveras promissora - está sendo, aliás – Otavio Fantinato está muito bem, obrigado, posicionado entre as referências sul-americanas de malabarismo, mas sua aptidão também se envereda por outra vertente: as artes plásticas.

Quem vê o esbelto artista, não tem ideia do talento para os desenhos e gravuras que ele carrega sempre consigo em um caderno que alguns chamariam de surrado, mas eu chamo de sagrado. É lá, em cada folha, em cada mancha de tinta, café ou lápis de cor, que entendemos: o artista é pequeno diante da arte, mas gigante diante do cotidiano. E Otavio não é exceção - seja no malabarismo, seja com seu surrado caderno sagrado. Confira abaixo a entrevista completa, mais o nosso já conhecido "Pingue-Pongue", no qual cada entrevistado responde com o próprio trabalho a termos únicos. E tratando-se de um artista pluriapto (termo esse que ele não assume), você confere uma galeria exclusiva com um pouco mais sobre o gajo.

Qual o nome completo e a idade?

Otavio Augusto Fantinato Bordin, 31 anos.

Você é de onde - onde nasceu, onde cresceu?

Sou paulistano, mas minha primeira lembrança é estar no colo de minha vó e ver flores sobre o canal de Águas de Lindóia. Permaneci nessa cidade até os 17 anos, quando a necessidade de conhecer o mundo foi maior que o medo de romper a bolha de segurança que me envolvia. Da pequena cidade do interior
de São Paulo fui para Florianópolis e de lá pra cá posso dizer que minha casa é onde estou.

Como começou no malabarismo?

Ao chegar a Florianópolis tive de conseguir um meio pra sobreviver. Foi então que por indicações acabei indo trabalhar em um bar que mais parecia uma torre de Babel para um menino recém-saído do interior de São Paulo. No bar havia um espanhol que era garçom, um barmen chileno, um equatoriano e uma argentina na cozinha. Era administrado por um uruguaio e seu filho chamado “Leo”, nascido nas Ilhas Canárias. O Leo foi meu primeiro “mestre” e entre a produção de drinques e cafés, me ensinava os primeiros truques com três bolas e deste momento em diante fui infectado pelo malabarismo de tal forma que em questão de uma semana já afirmava que o faria pra sempre.

E a desenhar?

Desde bem pequeno já me era comum passar um tempo a mais do que as outras crianças em cima dos papéis. Mas foi por volta dos seis ou sete anos que o meu avô, Hélio Fantinato, um multiartista que considero como minha maior referencia, me ensinou as bases da perspectiva. Depois de algumas aulas ele me disse que havia me passado o que sabia daí passei a buscar outras informações na Biblioteca Municipal a qual havia muito pouco sobre arte em geral. Durante uns anos reproduzi em desenho obras clássicas de grandes mestres e algumas paisagens. Com o tempo, na metade da reprodução começava a criar em cima delas e pouco depois passei a criar minhas imagens.

Sua família te deu ou dá apoio ou batalhou uma trilha solitária para trabalhar com o que gosta?
Minha família sempre se postou de forma neutra dentro de minhas escolhas o que me facilitou em muito a desenhar meu próprio caminho. Às vezes deixar com que as coisas sigam seu rumo funciona melhor que empurrá-las em determinada direção. Sou muito grato a Dona Sônia por simplesmente deixar que o rio corresse.

Há quanto tempo trabalha com malabarismo? Como é esse nicho artístico no Brasil?

Desde que conheci “Leo”, que mudou minha vida, 12 anos se passaram. De Florianópolis segui para Monte Sião, Serra Negra e aportei em São Bernardo do Campo onde efetivamente conheci o meio profissional do circo e do malabarismo. Já haviam se passado quatro anos em que me dedicava até 10 horas por dia aos treinamentos. Foi quando meu até então professor de malabarismo, Jeisel Bonfim da Cia Diálogos Acrobáticos, me chamou para realizar um evento. Pouco depois, fiz um trabalho que perdurou por seis meses junto à outra companhia que percorreu 40 escolas periféricas da grande São Paulo realizando espetáculos e daí pra frente foram surgindo outras coisas. O Malabarismo no Brasil tem mudado muito. Quando me iniciei neste universo, eram pouquíssimas as informações disponíveis. Cheguei a demorar anos para descobrir sozinho truques que já eram feitos há 5 mil anos. Hoje, se pesquisar, a palavra juggling no Youtube terá como acabei de constatar 764.000 vídeos que lhe podem servir de referência. O nível artístico do malabarismo tem crescido, porém, de forma lenta. Uma, porque se em questões técnicas se pode construir um bom malabarista no período de um ano, para se construir um nível artístico pode se levar uma vida.

Já viajou para algum lugar por conta do trabalho? Qual? Como foi?

Por conta do malabarismo conheci muitos lugares. Com exceção das capitais do norte do Brasil, as quais ainda não tive a oportunidade de conhecer, estive no restante das capitais brasileiras e em mais dezenas ou centena de cidades. Na America do Sul, conheço a Argentina, Paraguai, Chile e Uruguai. Por meio do malabarismo ganhei histórias, amores e compartilhei em palco os mais diversos sentimentos. Recebi as mais diversas respostas. Já as artes plásticas me serviram como potencializador desses encontros. Sempre fiz questão de deixar desenhos e pinturas com os amigos que ganhava dentro destas viagens.

Dos lugares que já visitou, qual foi o mais a cidade (e país, se for o caso) mais promissora (a) para artistas - independentemente de qual arte - que encontrou?

Buenos Aires me tocou profundamente, principalmente pelo nível cultural de seus habitantes e sua forma independente no fazer arte. No Brasil, vejo que estamos muito condicionados a receber de editais para darmos vazão as nossas criações, mais ver que é possível juntar pessoas que amam o que fazem e
pensarem a arte de forma menos governamental me foi muito enriquecedor a tal ponto que saindo de lá no final de 2009 regressei ao Brasil com gana de montar meu primeiro espetáculo solo.

Há algum nome - ou alguns nomes - que te inspirem? Quem?

Sim, muitos, nas artes plásticas sempre me identifiquei com os surrealistas. Fui tocado primeiramente por uma obra chamada “The Arrival”, de um ilustrador americano chamado Cliff McReynolds, por um pôster que enfeitava a parede da casa de um amigo ainda em Águas de Lindoia. Depois, mergulhei nesse mundo
sonhado, pintado e desenhado desde os mestres que ainda nem cogitavam o manifesto até René Magritte, uma referência das minhas maiores, que não só influência dos meus desenhos, mas também meu “eu” em cena. Dentro do universo circense e teatral cito artistas que dão sentido a suas virtuoses como Leandre Ribeira e James Thiérrée, além de grupos como Acrobats, Les Apostrophes e Hugo & Ines,

Você se imagina mais no malabarismo ou mais nas artes plásticas nos próximos anos? Ou apenas prefere seguir o ritmo, sem muitas expectativas?

Se no inicio elas conflitavam dentro de mim, nos últimos anos não só vejo elas se aproximarem como se fundirem. Um exemplo: considero meu espetáculo extremamente fotográfico e essa construção existe muito por conta de meu envolvimento com artes visuais já no viés contrario a noção espacial do malabarismo e me ajuda e muito nas composições de meus desenhos e pinturas. Dependendo da minha vontade não deixarei nem meu lápis, tão pouco o palco pelo resto de minha vida. Por fim costumo dizer que as artes visuais me jogam para dentro de mim e me tornam mais introspectivo. Já as artes cênicas e o malabarismo me regatam de lá de dentro e me jogam pra cima, juntas, as duas me colocam não só em um lugar confortável, mas no lugar onde acredito que deveria estar.

Está em cartaz com algum espetáculo? Onde e qual?

Sim, com meu espetáculo solo chamado “O Descotidiano”, que é uma junção de cenas curtas e envolvem manipulação de objetos do cotidiano somados ao malabarismo, com objetos clássicos e a utilização de aparelhos criados por mim. É um trabalho ao qual tenho dedicado meus últimos três anos e vem se metamorfoseando no decorrer do tempo. Enfim, é um espetáculo qu acredito apresentar por muitos e muitos anos. Quanto às datas específicas, estão disponíveis na agenda da página no Facebook ou o próprio Blog da Companhia do Relativo.

Tem previsões de expor seus desenhos e gravuras?

No segundo semestre devo realizar minha primeira exposição individual, mas ainda requer confirmação. Tenho muita vontade de abranger o acesso ao meu trabalho visual, porém isso é algo que não tenho pressa.

A internet tem te ajudado a conseguir ingressar nessa área, que até pouco tempo era bem restritiva e considerada "erudita"?

Posso dizer por hora que a internet tem me ajudado e muito com a facilitação do acesso a meus desenhos e pinturas, o que me faz muito feliz. Embora tenha meu trabalho como malabarista amplamente difundido, como artista plástico foi apenas em janeiro deste ano que passei da divulgação pessoal para o livre acesso
na rede de boa parte do que produzi nos últimos 10 anos. Mas acredito e tenho investido meu tempo e energia nessa forma de exposição, vejo que começam a aparecer os primeiros frutos como encomenda de trabalhos e essa matéria por exemplo.

E como já é tradição, agora começa a parte da entrevista Pingue-Pongue: por meio de seus trabalhos, Otavio diz o que cada termo representa:·.

- Artes.


- Malabarismo.


- Família.


- Circo.


- Infância.


- Café.


- Amor.


- 2013.


Confira a galeria de fotos...














Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
Share:

Repórter Elsa - O som e alma de Kaic 'Bo' Alkmin

Por Elsa Villon / Fotos de Priscilla Cabett

Tudo começou assim: meu amigo (está mais para irmão) Daniel Móri, jornalista preferido de Guaratinguetá, me mandou um link pelo famigerado Facebook com os seguintes dizeres:

"Elsa, encontrei um talento em Guaratinguetá, SP. Kaic Bo Alkmin, Look."

Seguido à mensagem, estava "Passeando Como Camelo", do então artista. Ouvi e pirei, mas antes que pudesse terminar de ouvir, Vinicius Alves, o Capitão Kirk do Pastilhas Coloridas, me manda inbox:

"Ouvi o som que teu amigo te indicou. Pastilhas Coloridas?". Como negar?

Entrei em contato com esse jovem que é de fato, um artista "amador" (definição dada pelo próprio). Ele toca, canta, filma, edita, sonoriza... e ainda escreve poesia, faz artes esculpidas, e usa quase que exclusivamente a internet pra divulgar sua arte. O sujeito é quase um rastafari sem erguer bandeira alguma: apenas com sua arte. Interessadas meninas? Pois podem tirar o equino das águas pluviais de março, pois o moço tem uma namorada à altura. Priscilla foi a autora do ensaio, está no último ano de Rádio, TV e Internet e comanda 3 programas numa rádio em Lorena e é bonita que só vendo (confira o perfil completo dela abaixo e aproveite para conhecer o trabalho da gaja).

A jornalista que vos fala - agora com diploma - saiu de São Bernardo e viajou quase 200 km para entrevistar Kaic "Bo" Alkmin (não, não é parente do Geraldo Alckmin). Aproveitando que "a banda de um homem só" também filma, dividimos a entrevista em áudio, foto, vídeo e texto. Um mix de tudo, porque é por meio da arte que Kaic formula a sua identidade. E nós também.

Confira a primeira e exclusiva entrevista do moço, só no Pastilhas Coloridas...
(Pra quem preferir, no final temos a entrevista em vídeo)

Share:

Repórter Elsa - Girafas, guardanapos e um pouco de prosa poética


Por Elsa Villon

Ele se chama Pedro. Ele se chama Gabriel. Mas foi como Antônio e por meio de sua arte em guardanapos que ficou conhecido. Ou melhor, que seu trabalho foi conhecido (e reconhecido). Autor do tumblr Eu me chamo Antônio, em quase 4 meses já conseguiu muitos admiradores. E claro, admiradoras. A sinceridade e a simplicidade dão o toque para transformar “rabiscos que qualquer imbecil faria” em algo genuíno. A retórica, simples sem ser simplória, só reafirma o conteúdo ilustrado. E a maneira inusitada de aliar tecnologia a tudo a isso já lhe renderam alguns frutos.

Sem odes a seu nome ou imagem, todos os mais de 16 mil likes conquistados com sua página no Facebook – em suposto anonimato, ou antonimato. “Eu nunca brinquei de esconde-esconde com ninguém (nem quando era criança, quanto mais agora). Também não sou o Mister M, não preciso de uma máscara para fazer o que eu faço”, pontuou o artista, atitude essa que demonstra seu real intuito: disseminar seu trabalho, não sua pessoa.

Nascido em N´Djamena, capital do país africano Chade, viveu lá até os 5 anos de idade, quando conheceu o solo tupiniquim. Regressou ao continente ainda jovem, dessa vez para Cabo Verde até voltar ao nosso país tropical. Sem fusca ou violão, é o único irmão de 3 irmãs, duas delas respectivamente na França e Bélgica e com o pai na Suíça. Antônio pode não ser brasileiro de nascença, mas domina perfeitamente um idioma universal – o dos corações partidos.

Confiram abaixo um pouco da vida desse redator publicitário que nos faz crer que essa profissão parece comercial, mas no fundo, também sofre por amor.

- Li em uma outra entrevista, para a Revista Mambembe, dizendo que você é bem tímido. Isso é verdade?

Sim. Mas é uma timidez adaptável. Depois que eu conheço a pessoa, ou a situação, começo a me sentir mais à vontade. Falar em público, apresentar trabalhos, aparecer no famoso “primeiro encontro”, tudo isso, me assusta um pouco. Um susto superável, claro. Mas não é algo que me deixa à vontade. Gosto de observar, ficar quietinho na minha, ouvindo, ouvindo, ouvindo. Minha timidez não é anti- social. É a timidez de quem gosta de observar o mundo, apenas. A timidez de quem precisa criar para se comunicar...

- No caso, essa timidez é uma das causas do anonimato, ou antonimato – como conversamos?

Não. Na verdade o anonimato não é bem um anonimato. É mais uma forma de valorizar o que realmente interessa: o conteúdo. Eu não escondo meu nome. Muitos já sabem quem eu sou, muitos já viram meu rosto. Eu só não mostro minha foto na fanpage porque não há necessidade. Ali é o espaço da minha arte, não o meu espaço. Ali, as pessoas devem gostar do Eu Me Chamo Antônio pelas palavras, pelos guardanapos, nada além disso.

O mais importante para o artista deve ser a sua arte. O artista é simplesmente um meio, uma forma humana que nasceu para dar vida à criação. Se eu sou moreno, alto, bonito, feio, homem, mulher, baixo, gordo, magro, se uso barba, se tenho 3 graus de miopia em cada olho, isso importa? Espero que não. Agora, se o que eu escrevo tem a capacidade de emocionar, de arrancar um sorriso, de fazer uma lágrima escorrer, ou causar qualquer outra reação no receptor da mensagem, isso sim deve importar. A arte precisa criar diálogos, retóricas, interações, intervenções... Senão deixa de ser arte e passa a ser monotonia.

- Você comentou também que pretende “se revelar” em breve? Pode contar algum plano ou qualquer detalhe estraga a surpresa (ou o fim dela)?

Acho que está bom como está, por enquanto.Tudo tem seu tempo para ser revelado ou escondido, para ser lembrado ou esquecido. Sou ansioso, mas não tenho pressa. As coisas estão seguindo um caminho tão bonito do jeito que estão. Não faz sentido colocar atalhos, né? Diariamente tenho recebido mensagens pedindo para que eu poste uma foto minha na página (do Facebook). Outras dizendo que já sabem quem eu sou, que me acharam (oi???). Acho graça. Eu nunca brinquei de esconde-esconde com ninguém (nem quando era criança, quanto mais agora).

Também não sou o Mister M, não preciso de uma máscara para fazer o que eu faço. Tampouco sou um foragido da justiça, pago meus impostos bonitinho. Devo um dinheiro aqui e outro ali ao banco, como todo sujeito que respira nos tempos modernos. O problema é que muita gente não entende que, ali, eu só valorizo o que deve ser valorizado: o conteúdo, não a embalagem. Mas, respondendo à sua pergunta mais objetivamente, estou em contato com 2 amigas para fazer uma gravação bem bonita sobre o projeto Eu Me Chamo Antônio.

Agora, se eu vou ou não aparecer neste vídeo, isso será decidido durante a construção do roteiro. (O que posso dizer é que estou correndo diariamente para tentar ficar elegante caso apareça no vídeo. Tá difícil, viu?).

- Acompanhando seu tumblr, vi que suas publicações começaram em outubro. Os guardanapos começaram nessa época ou foi antes e só então decidiu publicá-los?

Eu sempre rabisquei em tudo o que via, em tudo o que eu tinha em mãos, em tudo o que cabia no bolso: cadernos velhos, contas vencidas, envelopes abertos... Mas foi em outubro que eu tive o “estalo”. As frases sempre existiram. Todo mundo tem um mundo de frases mudas que esperam uma oportunidade de serem ouvidas, escritas. Eu tenho um monte delas em incontáveis cadernos espalhados pelo meu quarto, na memória do meu celular... Nós somos os deuses dos nossos ideais, das nossas ideias. A diferença é que algumas pessoas as exteriorizam (essas, chamadas de artistas) e outras as silenciam. Mas foi só no finalzinho do ano passado que eu comecei a exteriorizar essas palavras especificamente em guardanapos.

O guardanapo é o palco da minha poesia, é a plataforma que encontrei para me esvaziar. Uma plataforma carismática, democrática. Todo mundo pode pegar uma caneta preta e escrever em um guardanapo branco. Todo mundo pode se chamar Antônio. Eu não inventei a caneta preta. Eu não inventei o guardanapo branco. Eu não inventei os filtros da fotografia digital. O que eu inventei foi a forma delicada de juntar tudo isso em um mundo único, meu.

- Houve um grande “estalo” para começar a produzi-los ou era algo involuntário que acabou ganhando maior dimensão?

Estalo é uma palavra que eu gosto. Quem cria não tem início, meio e fim. Tem justamente estalo, continuação e infinitos recomeços. O processo criativo é um eterno recomeçar, com muita tentativa, muito erro e, claro, alguns poucos acertos que fazem tudo valer à pena. Eu comecei a postar conforme ia criando e outras pessoas foram gostando, curtindo, compartilhando. Sinceramente, eu nunca pensei que fosse ganhar essa dimensão.

- Você nasceu escritor e só desenvolveu ou era aquela criança que não gostava muito de poesia, de ler, se alinhava mais no desenho e acabou casando as duas artes depois de grande?

Eu não me considero escritor. Sou um cara que se esvazia colocando frases curtas em pequenos guardanapos cheios de sentimentos. A grandeza de toda obra está na interpretação de quem admira, contempla. A arte por si só não é nada, não vale nada. Mas a vida do leitor, a vida do ouvinte, a vida do
receptor deste diálogo poético é que dá vida à obra.

Poesia? Hmmm... Acho que nunca gostei de poesia, poesia. Sabe? Versos metrificados, rimas estudadas,
sílabas matematicamente contabilizadas, palavras rebuscadas que quase ninguém entende. Quando começam a encher de técnica e teoria, a poesia deixa de ser poesia e passa a ser texto acadêmico. Isso sempre me incomodou. A palavra precisa ser simples, acessível (Sim, dá pra ser simples e denso!). Ler com o dicionário do lado, não é leitura, é trabalho. A poesia precisa ser igual à novela: entrar na vida das pessoas depois de um dia cansativo; ela não pode te cansar mais do que a rotina. Por isso tem tanta gente fugindo da poesia...

Sobre meus rabiscos: quem vê pode pensar “qualquer imbecil poderia fazer esses traços”. É verdade! Mas eu gosto de rabiscar essa minha imbecilidade. Ela é minha. Uma das poucas coisas realmente nossas são a inteligência e a imbecilidade. Eu nunca me esqueço o conselho de um amigo, que quando me encontra sempre diz: “Preserve sempre um pouquinho de ignorância”. Acho que a ignorância do meu desenho e a simplicidade da minha palavra dialogam muito bem juntos.

- Por que o nome “Antônio”?

Antônio é meu nome. Aliás, uma parte do meu nome. Não tem nenhum mistério, trocadilho, duplo sentido, segundas intenções... Muito menos consultei os astros ou um numerologista. Eu me chamo Antônio. Poderia me chamar Pedro. Poderia me chamar Gabriel. Mas escolhi me chamar Antônio. Eu me chamo Antônio.

- Circulam trechos desprovidos de guardanapos e ilustrações e reza a lenda, são um romance em andamento. Confere?

Sim. Não está mais adiantado porque não tenho tido muito tempo. A escrita é uma terapia, uma fuga letrada. Eu tenho meu trabalho normal, das 9h às 18h. Mas tenho muita coisa pronta na minha cabeça. Uma história bonita (não necessariamente feliz). Que eu gosto de pensar enquanto caminho aos sábados pelo meu bairro ouvindo o solo de Stairway to Heaven, Cartola, Chuck Berry e rap. Gosto muito de rap. Todo poeta deveria ouvir rap, sem preconceito. Facilita na rima, no ritmo, no encaixe das palavras.

- E se fosse um roteiro, definiria a obra em qual momento: introdução, climax ou desfecho?

O romance se chama “O romance inacabado”. O “momento” dele será sempre o ápice antes da conclusão. O fim assusta. Eu não gosto de acabar as coisas. Tudo em mim tem um pouco de inacabado, de inconcluso. Preserve sempre um pouco de inacabado em tudo o que você faz. O inacabado é a forma mais poética e sincera de eternizar um amor, uma obra, um momento, qualquer coisa que faça sentido pra você.

- Com o sucesso dos guardanapos, acha que há uma atenção especial por conta de editoras para quem sabe, publicar e socializar sua obra?

Meu sonho sempre foi ter um livro impresso com uma capa bem bonita e páginas cor marfim. Mas também tenho consciência de que isso é um sonho e que existem tantas realidades a serem vividas antes de viver o sonho. Por agora, vou vivendo um guardanapo de cada vez. E temos que entender a nova necessidade do leitor. Os leitores estão trocando as folhas pelas telas. Me dá uma dorzinha no coração pensar nisso, confesso. Até que ponto essa necessidade é criada pelas empresas ou pelo desejo real do leitor não é um debate que cabe nesta entrevista, mas o fato é que quem quiser sobreviver ou se destacar nesse meio tem que entender que tudo está mudando. Estamos vivenciando a mudança, nós somos a mudança. É bem possível que ainda nesse primeiro semestre, tenha uma linda surpresa, uma surpresa tecnologicamente bonita. Mas eu não crio mais expectativas, não me iludo mais.

Escrevi outro dia no guardanapo que meu mantra para 2013 é “Não me iludo, não me iluda”. É bem isso: vou vivendo sem ilusão as consequências dos meus dias, as incompreensões dos meus amores... Tem me feito mais feliz. Tenho dormido melhor, acordado mais leve. Amadureci muito depois de ver o quanto a gente se prende em algumas infantilidades, caprichos, carências totalmente inúteis. Não há necessidade. Temos articulações para andar sem depender de ninguém. Somos articulados para nos comunicar com o mundo sem precisar da voz de outra pessoa, né?

- Você atualmente trabalha com redação publicitária. Essa é sua formação ou faz parte dessas pessoas sagazes que conseguem ter sacadas boas sem o chamado “ensino formal direcionado”?

Na verdade sou formado em Propaganda, mas não trabalho especificamente em agência. Assim que sai da faculdade, me formei pela ESPM/RJ, meu sonho era criar títulos para as Havaianas e trabalhar nas maiores agências do país. Acabei pegando outro rumo. A faculdade me deu grandes amigos, uma ótima base e muita, muita, muita referência. Mas a "sagacidade", a "sacada", em outras palavras, o raciocínio criativo é o resultado de muita leitura, tentativa e erro; enfim: muita prática! É preciso praticar incansavelmente até o cérebro se conscientizar naturalmente que o inconsciente precisa entrar em ação.

- Você se sente um frasista, como aqueles do início da publicidade?

Olavo Bilac e tantos outros poetas tiveram sua veia criativa voltada para a publicidade na época. Acho que, de certa forma, sim. Meus guardanapos podem ser títulos, manchetes de ideias que podem ser desenvolvidas em textos maiores um dia. O que eu faço não deixa de ser publicidade. Cada guardanapo é um layout de uma ideia, que "vende" a delicadeza, a simplicidade do cotidiano. A minha sorte é que eu sou o meu cliente: não preciso pedir pra aumentar o logo, diminuir o título, trocar a imagem. O meu azar é que eu sou o meu cliente: faço tudo de graça (risos).

- Você não nasceu nesse continente, certo? Pode contar um pouco disso? Se tem irmãos, um pouco da infância.

Tenho 3 irmãs. Nasci em N´Djamena, capital do Chade, na África. Morei até meus 5 anos. Depois, fiquei 1 ano aqui no Brasil. E voltei para a África, em Cabo Verde, onde morei até meus 12 anos – quando regressei ao Brasil. Hoje, tenho uma irmã em Paris, uma outra na Bélgica e meu pai, que mora na Suíça. Estou acostumado com distância, saudade. Isso talvez se reflete de alguma forma nos meus textos. Não tem como fugir do que fomos e somos feitos, né? Somos sempre a soma de tudo o que já vivenciamos.

Isso enriquece inconscientemente as nossas ideias, o nosso banco de referências. Quando sento para começar a escrever, um mundo se abre; e esse mundo nada mais é do que uma mistura de todos os mundos que eu já presenciei. Tenho certeza que nas minhas palavras tem um pouco da solidão do deserto do Chade, um tiquinho da saudade sonora das ilhas de Cabo Verde, um bocado da criatividade do Brasil e uma dose da neutralidade Suíça.

- Depois de um tempo, por que sentiu necessidade de inserir fotos e imagens, além dos guardanapos?

Aconteceu naturalmente. Sempre tento procurar um pano, uma fotografia, um livro antigo para servir de fundo para a frase no guardanapo. É uma tentativa de surpreender, oferecer algo inédito. Acho que você precisa sempre testar coisas novas. Sem perder a essência, claro. Mesmo quando tudo parece estar diferente do que você se propôs a fazer no começo, quando há sinceridade, você consegue sempre enxergar alguma semelhança em toda sua obra. Voltando ao assunto da propaganda: uma das primeiras
coisas que se aprende na faculdade é ter conceito. Pra mim, conceito é seguir sinceramente uma ideia que parece ser a certa. E é o que estou fazendo: estou seguindo o que eu acredito ser algo que faça sentido e que tenha sentimento verdadeiro.

Confira abaixo um pingue-pongue com guardanapos exclusivos feitos para o Pastilhas Coloridas:

O silêncio...
A distância...
Os amores impossíveis...
A escrita...
A tristeza...
A infância...
O cotidiano...
A arte...
Um nó no peito...
2013...
Links relacionados:

Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon
Share: