Um requién ludopédico de quando a seleção brasileira era formada por... brasileiros

Por Marcelo Mendez

Hieronymus Bosch pintou o Jardim das Delicias e fez um bom acordo com o diabo. Edouard Manet resolveu pintar uma puta, chamá-la de Olympia e foi recusado pelo salão de Paris. E eu que não consegui arrumar nada de muito interessante pra fazer, decidi assistir Brasil x Holanda no sábado à tarde, num amistoso internacional disputado em Goiás no tal do “FIFA Day”. Outros tempos...

Caro leitor, me lembro dos meus primórdios de torcedor, ainda menino, da nossa (Naquele tempo era “nossa” mesmo...) seleção canarinho. Nas minhas memórias vem o ano de 1978 e minha primeira copa do mundo, na Argentina, em meio há uma ditadura assassina, sangrentíssíma. Era um tempo em que tinha o tal bolão, de apostas de resultados, quando o povo fazia bandeirinhas pra enfeitar as ruas, a missa era mais curta de domingo pro torcedor ficar “Concentrado” e o principal: A Seleção Brasileira jogava futebol como Brasileiros, de fato.

Com o passar do tempo, nosso esporte maior foi vitimado por uma série de circunstâncias cretinas que não colaboraram nada para evolução e nem para a formação do garoto que um dia sonhou ser jogador de bola na vida. Assim passamos os anos 80; Após a derrota em 1982 sofremos com uma crise pragmática que desembocou em um desastre na Itália em 1990 e em uma conquista duvidosa em 1994 no nosso tetra. Esquemas mirabolantes, defensivismo cretino, conservadorismo neoliberal idiota, contaminando as peladas de rua que deixaram de existir em detrimento do tal “Futebol society". Vejam só...

A deliciosa pelada de domingo, jogada no terrão, na rua e nos campinhos passaram a ser jogadas em grama sintética. Seguindo a regra, nossa seleção passou a jogar um futebol sintético também.

Então um ex volante tosco, que jogava bola de punho fechado num sofrimento desgraçado, passou a comandar essa seleção e desde o começo, deixou claro que o povo não tinha nenhuma ascendência sobre a seleção que outrora, nos representava dignamente. O resultado disso foi uma derrota dantesca na copa de 2010 e agora, numa tentativa de “reconstrução” de sei lá o que, a Holanda foi convidada para um amistoso jogado no Brasil após muito tempo. Tudo estava pronto para uma exibição de gala e o que poderia dar errado? Bem...

Ao contrário da gente aqui, os holandeses jamais se rendem as “delicias” da modernidade ludopédica. Desde quando Mauricio De Nassau tomando umas cachaças em Recife, em idos tempos, de morenas e roliças cabrochas, que o time holanades joga do mesmo jeito; Ponta direita, centroavante, ponta esquerda e um meia chegando. O moleque ta lá, no quinto mês de gestação, no bucho de sua loura progenitora e já sabe que, jogando bola, vai ter que se adequar a isso. Ou senão vai jogar vôlei, frisbee, sei lá...

Em campo sábado, os laranjas entraram em campo com Reubbein aberto pela direita, Van Persie como centroavante e Dirk Kuyit na ponta esquerda. Vindo de trás com a 10 tinha o ótimo Affelay. Dessa forma, os holandeses dinamitaram o Brasil na primeira etapa, aproveitando de uma péssima atuação de Ramirez, perdido como volante pelo lado direito, deitando e rolando nas costas do mediano lateral André Santos e só não saíram com um resultado melhor, por conta da boa partida de Julio Cesar, nosso goleiro. No segundo tempo, óbvio que o Brasil melhorou. No “inverno” goiano a 30 graus, os caras pregaram e então apareceu um goleiro muito bom de nome Crull, que parou Neymar e Robinho. Com final em 0x0, vieram às vaias e a pérola soltada pelo técnico Mano Menezes:

“Temos que educar o torcedor...”

Então quer dizer que o sujeito paga 150 pratas no ingresso para cagar em banheiro químico fedorento, porco e imundo, é mal tratado, jogado em estádios decadentes e, quando cobram pelo produto que lhes foram oferecidos, o elemento é “mal educado”? Ah pára...

Eu bem que gostaria de vir aqui falar da linda festa que a torcida do Flamengo fez para a despedida de Petkovic, do ressurgimento do Palmeiras de Sparta, da estréia com dois gols do atacante Borges do Santos, do ótimo show da Lamartino sexta última, dos pernões aqui da Eliana minha vizinha, mas não dá...

O Brasil vai sediar uma copa do mundo em 2014. Isso é muito sério, por conta dos encargos ABSURDOS que são assumidos em função da realização desse evento. Nem me preocupo com essas bobagens, mas, a exigência de 140 passaportes diplomáticos pra cartola de futebol vagabundo, construção de estádios superfaturados, licitações estranhas e mais esse quadro de total abandono da parte organizacional de nosso futebol é preocupante. Além disso, tem a coisa de nosso time não estar preparado ainda. Vem a copa América.

Disputada na Argentina, com times chatos de se enfrentar como os Donos da Casa, o ferrenho chamado Paraguai, o ressurgimento do futebol Uruguaio a coisa por lá será dura. Das coisas de dentro do campo, espero que se tenha um pouco de paciência com o time, visto que todo mundo engoliu o volante tosco por quatro anos. Fora de campo, o que temos a fazer é o mesmo que faz os marcadores do Messi:

Acender uma vela e rezar...
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