Por Marcelo Mendez
Aqui no Brasil tem-se uma maneira muito estranha de encarar a Copa América de Seleções. Quando o Brasil vence, a imprensa futeboleira estufa o peito e diz:
“Vencemos a versão sul-americana da Eurocopa”
E daí a cretinice fundamental dos idiotas óbvios recheiam as mesas redondas e enfadonhas de clichês ululantes e ufanistas para enaltecer nossos pretensos méritos. Mas quando perdemos aí essa mesma raça vem e diz “A Copa América é um torneio que não vale nada.”
“Não Vale Nada...”
Eu até entendo o fato de sermos meio diferentes aqui na Sul América. Começa que não falamos espanhol como os vizinhos. Temos um tamanho continental, somos muito mais cordeirinhos com a americanização exacerbada e essa coisa toda. Mas não entender nossa identidade latina e desdenhar o fato de sermos sul-americanos é demais. Que empáfia burra. Só nos importa quando o revés não bate a nossa porta. Fazemos isso de uma maneira simplista e imbecil e assim foi mais uma vez. Bem, então eu entendo que a nossa derrota nos pênaltis não merece destaque aqui nessa coluna. Deixa pra lá. Depois a Rede Globo vai tentar explicar as três alterações ridículas feitas pelo treinador, o monte de gols perdidos e então, provavelmente, tudo acabará com a culpa do buraco e da areia do gramado do Estádio de La Plata. Não, caro leitor:
Eu não vou perder tempo com isso. Já que nosso time não consegue entender as peculiaridades de uma competição sul-americana, então eu quero falar daqueles que entendem disso de uma maneira digna, honesta e apaixonada:
Uruguai x Argentina.
Esses dois gigantes do futebol mundial, que são tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo, protagonizaram sábado, em Santa Fé no interior da Argentina, uma partida de futebol que entra para o relicário de épicos do esporte bretão. Para entender a dimensão disso tudo, os analistas óbvios precisam abandonar os seus “tablets”, “notebooks” e outras baboseiras para se pegarem com uma lei que permeia as coisas da pelota, uma lei pra lá de indivisível que o grande escriba uruguaio Eduardo Galeano já ensinou:
“Acima do Futebol vem a Lenda...”. E entre esses dois países separados pelo mítico Rio Da Prata, ela é muito farta.
Em 1930, depois verdadeiras batalhas nas disputas sul-americanas, os vizinhos se enfrentaram na primeira decisão de campeonato mundial no Uruguai, coma vitória do Uruguai por 4x2. Daí para frente os Argentinos mandaram no futebol mundial com uma geração de craques, de jogadores divinos, todos vitimados pela coisa mais burra da humanidade que foi a Segunda Guerra Mundial. E então o universo não pode ver Pedernera, Losteau, La Bruna, Moreno, Rossi, Di Stefano e outros, encantarem os campos latinos com um time de Futebol que ficou conhecido como “La Maquina”; O River Plate dos anos 40. Dai pra frente muita coisa aconteceu.
A Argentina venceu duas copas; Uma com Maradona jogando muito e ganhando o mundo e outra, com o assassino do General Videla metendo a mão mesmo em 1978. Coisas da America Do Sul...
O Uruguai por sua vez, teve grandes craques em seus clubes, homens de fina estirpe como Pedro Rocha, Schiafino, Maspoli, Fernando Morena, Ruben Paz e Francescoli. Entrou sim em uma derrocada a partir dos anos 90, vitimado pelo sucateamento econômico de seu futebol. E começou a ressurgir quando olhou para dentro de si mesmo, para tudo que o Uruguai tem de mais firme e mais belo; A gana, a raça e o bom orgulho de ser uruguaio. As conquistas começaram a chegar.
Vitórias em seleções de base, ótima participação na ultima copa do mundo, uma boa geração de jogadores e um ótimo técnico. Tudo isso para tentar bater a Argentina e seu Grande Homem de 1,69 de altura:
Messi.
Messi é um craque que consegue a divindade nos campos de futebol. Com ele, a bola ri. Feliz da vida se reconforta no seu pequeno pé esquerdo, tal e qual menina apaixonada que encontra o primeiro dos últimos de seus amores... O menino de Rosário que hoje é o maior de todos os craques das galáxias, quando veste a camisa de sua seleção me faz lembrar o que escreveu outro grande compatriota seu.
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| Julio Cortazar e seu gato |
“(...) Olha, não peço muito, apenas sua mão, tê-la como um sapinho que dorme assim feliz. Preciso dessa porta que me davas para entrar em seu mundo, essa pecinha de açúcar verde, de redondo alegre. Não me emprestarás sua mão hoje nessa noite de fim de ano de bobeiras roncas? Você não pode, por razões técnicas. Então a pego no ar, entrelaçando cada dedo, o pêssego sedoso da palma, e o dorso, esse país de árvores azuis. Assim a pego e a sustento, como se dela dependesse grande parte do mundo, a sucessão das quatro estações, o cantar dos galos, o amor dos homens.”
Um pouco de acalanto, talvez seja o que falta nessa relação ludopédica. Tudo que Messi mais quer é ter o seu povo do seu lado. Tudo que ele mais sonha é sentir da parte de seus iguais portenhos, um pouco de compreensão. Messi quer a porta de Cortazar para entrar definitivamente em todos os corações argentinos sem ter que cantar hinos, fazer caras e bocas para isso. Messi quer de seu povo um amor mais natural. Gostaria que as razões técnicas bastassem para que fosse explicada a sua dificuldade em Brilhar com a 10 portenha. Afinal de contas, uma coisa é jogar com Xavi e Iniesta e outra, ter que se virar com Vanega, Aguero e Higuain...
Muito difícil.
Isolado do encanto de seu Barcelona, escalado para jogar pelo meio do campo, tendo que correr 50, 60 metros de campo sozinho, Messi se perdeu na bravura e na garra da marcação Uruguaia. Os Orientais entraram em campo para marcar, lutar, brigar e morder no jogo de sábado, como se não houvesse outra vida do lado de lá do Rio da Prata. Sofreu para isso, mas conseguiu parar o craque com uma entrega absurda de seus jogadores de marcação como Aurévalo Rios, Perez e Caceres. Foi contemplado por isso marcando 1x0 com Perez, mas, Messi estava em campo. É ídolo. E a bola reconhece um destes...
Dessa forma, saiu de seu pé esquerdo para a cabeça de Higuain e então o 1x1 se perpetuou graças à grande atuação dos goleiros Muslera e Romero até as cobranças de pênaltis, quando se decidiu a batalha.
E na fábrica de vilões e mocinhos, deu Uruguai.
Se eu fosse um “sério” analista das coisas óbvias do jogo em si, eu iria aqui tentar explicar os “porquês”, iria me esforçar para racionalizar os motivos que levam a Venezuela fazer uma boa copa América, cruzaria as pernas e colocaria a mão no queixo para analisar as cobranças de pênaltis, mas não... Eu não sou nada disso. Como já escrevi uma vez, sou apenas um mendigo do futebol, vagando pelos campos com um pires na mão em busca de uma caneta, de um chapéu, de um passe de três dedos e de um pouquinho que seja de encanto. Por outro viés que foge da coisa burra dos fatos frios, eu consegui muito disso esse fim de semana. Então paro por aqui fazendo apenas uma ressalva:
Nem sempre, nem sempre o pragmatismo vai conseguir explicar a emoção. De vez em quando a gente vence...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
