Por Marcelo Mendez
E aqui estamos novamente para rolar a bola da crônica na rodada de clássicos do Campeonato Brasileiro. Tivemos empates de 1x1 para Santos x São Paulo, 0x0 virginal para Flamengo x Vasco, vitória do Grêmio sobre o inter por 2x1 no Grenal, Botafogo 2x1 Fluminense e para falar do 2x1 do Palmeiras em cima do Corinthians vou recorrer a um cara que apesar de nunca ter visto um par de chuteiras na vida, passou por um momento que nos da à possibilidade de traçar um paralelo ludopédico entre o Derbi e sua obra...
Vejamos:
Em 1974, Dylan vivia o pior de seus infernos.
Brigava na justiça com seu empresário a quem acusava de um roubo de 750 mil doletas de seus rendimentos, estava descontente com sua gravadora, demitiu a sua ótima banda e pra acabar de ferrar com tudo, sua mulher Sarah Dylan, cansada de suas crises de star, suas putarias e afins, deu-lhe um homérico pé na bunda, caindo fora com os filhos, cachorro e tudo. E então o homem que compôs Blowing To The Wind e Like A Rolling Stone, viu-se em meio a uma dor de corno, mas daquelas dores de corno brava mesmo... Daquelas que todo macho teve, e se num teve num viveu!
O homem precisa da sarjeta da fossa, tanto quanto a flor precisa do espinho...
Tudo dava errado pra nosso herói. E diante disso, o que fez o homem? Fez história...
Dylan então lavou a cara judia, meteu as botas, deu um tapa na barba, meteu o chapelão na cabeça, enfiou o violão na mala e foi atrás de uma banda. Montou, entrou no estúdio e então decidiu fazer um disco inteirinho dedicado à fossa, um tributo, uma ode à dor de corno! Nascia o seminal BLOOD ON THE TRACKS. E na sua primeira faixa, a imortal TANGLED UP BLUE Dylan já manda um estrofe no meio do fígado dizendo:
“(...) Nos separamos em uma noite escura e triste
Ambos concordando que era melhor
Ela virou-se e olhou para mim
Enquanto eu caminhava embora
Eu a ouvi falando por sobre meus ombros
Nos veremos novamente algum dia pela avenida...”
Quer dizer; Diante de tudo que tava errado, o cara que é genial decidiu expor suas vísceras, suas dores mais profundas, seus maiores e mais tenebrosos medos para, através deles, conseguir agir para fazer as coisas darem certo. Gravou um disco que entrou pra história do rock, compôs um bocado de clássicos e é muito fácil de entender a coisa. Oras...
Se tudo ta dando errado, se as coisas insistem em dar errado, se o sujeito está na eminência da perda total, das mais remotas perspectivas, o que mais falta perder?
Nada!
Tudo já ta perdido. Então se não há mais o que dar errado, porque diabos seguir insistindo na mesmice das coisas, ao invés de se arriscar para tentar fazer algo dar certo?? Cacete...
Há pelo menos 4 rodadas o Corinthians insiste nos mesmos erros de forma pouco inteligente. Segue lá... Colocando alas pra jogarem de meias, Meias para serem Atacantes, com volantes que só desarmam mais não acertam um passe, com um time que se preocupa dramaticamente com um ponto, um reles ponto na tabela, morrendo de medo de querer ousar, de tentar buscar a vitória, afinal de contas, como disse o seu técnico especializado em palestras de auto-ajuda... “Estamos diante de algo muito maior na competição”... Não dá...
O meu Palmeiras fez o que faz sempre pra vencer o Corinthians; Marcou demais com o seu punhado de volantes no meio campo, contou com um ou dois milagres de Marcos, teve duas bolas de Marcos Assunção que resultaram gols de Luan e Fernandão e após o 2x1 recuou e deu todo espaço do mundo para o time do parque São Jorge sufocá-lo e ainda assim, o líder do Brasileirão não conseguiu achar uma bola para empatar a peleja.
O 2x1 se arrastou até o final do jogo de forma modorrenta, chata, previsível embaixo de um calor senegalês em Presidente Prudente onde a peleja foi disputada. Mais uma vez, o time de Tite perde um jogo por pura preguiça.
Preguiça de se arriscar, preguiça de ser diferente, de fugir da vala comum da mesmice ludopédica. Pura falta de coragem de sair dos padrões vigentes no futebol tecnocrático regido por técnicos “fessores” que pensam muito mais na manutenção de seus empregos, do que em uma forma de tornar as suas equipes mais vibrantes, menos óbvias e burocráticas. Falta de visão. Mas não é só visão de jogo de bola não...
Eu já escrevi aqui que Futebol está para muito além apenas de um simples joguinho de bocha, ou pif-paf de bar de vila, terça feira à tarde. Como escreveu Eduardo Galeano, é um esporte que se joga “Ao sol e a sombra”. Como disse Nelson Rodrigues, é disputado por “Chuteiras imortais”. É um reflexo pungente de uma sociedade, de suas origens, de sua ética e suas aspirações. Futebol no Brasil é identidade. É a cara do povo. De um povo que sofre, que vibra, que ama, que odeia. Nada no Brasil representa mais o povo nosso que uma peleja de futebol. E erram todos aqueles que tentam minimizar isso de uma forma simplista tola a lá new-ditadores-bobos.
Se um técnico de futebol, começa um trabalho desconsiderando todos esses elementos então ele não serve para sua função. Não adianta esperar as entrevistas coletivas, recheadas de nada-absoluto para tentar explicar o que não há como ser explicado. A situação é muito fácil de entender:
Ou o sujeito entende que é necessária uma mudança de concepção na maneira de entender o esporte, ou a coisa vai dai pra pior e o resultado disso será uma cena pra Cronemberg filmar.
Ao invés dos estádios lotados e do calor dos trópicos, as partidas de futebol serão disputadas em salas aclimatadas, munidas de possantes aparelhos de ar condicionado. E no lugar de jogadores de calção e chuteiras, teremos, portanto técnicos de futebol de ternos e gravatas empertigadas, disputando a partida em um tabuleiro de xadrez de madrepérola substituindo o épico gramado. E não se empolguem:
Na sala, Bob Dylan não tocará “The Times They Are a Changin”...
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor, webmaster e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.