Por Marcelo Mendez
Vendo ontem a peleja da Vila Belmiro, que acabou num clássico placar de Santos 2x0 Vasco, algumas elucubrações me vem à cabeça, remetendo-me a um cara que gosto demais.
Matisse...
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| Obra: Henri Marisse (1905) |
Henri Matisse foi um pintor grandioso. Considerado por muitos, como um dos artistas fundamentais do século XX, o francês revolucionou o mundo das artes, usando e abusando das cores, da fluidez e da originalidade de seus quadros imortais para se tornar um artista eterno. Mas uma peculiaridade marcou sua trajetória de vida...
Nascido em 1869 foi contemporâneo de grandes guerras. Mas em 1870, na guerra Franco-Prussiana era novo demais para participar da primeira delas, em 1914 era velho demais para lutar na Primeira Guerra e em 1940, durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial era um Patriarca. E mais; Sua obra cresceu e floresceu nesses momentos mais nevrálgicos. Pintou sua tela Flores e Prato de Cerâmica, em 1913, sua obra máxima As Banhistas no meio de um inferno pessoal, ou seja:
Matisse fez de sua obra algo muito sério. Com isso, todo o restante se tornou frívolo. Diante da arte de suas cores, tudo se apequenou, quer dizer. Arte pela arte? Não!
Arte que revoluciona, arte que se engaja, arte que transforma, Arte que é maior. Como Neymar...
Diante do menino de camisa 11, tudo fica menor. Pouco importa a disputa acirrada pela liderança da competição. Danem-se as preocupações do Vasco Da Gama, pouco importa pra Neymar, quem se favorecerá ou não, de seus feitos. Neymar não ocupa sua cabeça com nada disso. Seu único compromisso é com sua arte.
Neymar é pop!
Tem torcida pessoal, tem suas “neymarzetes” que aos berros, com uma histeria de fazer inveja aos astros do rock, contemplam o menino da vila. Para ele, essa coisa aí de Vasco, Corinthians, Palmeiras, Figueirenses e afins é bobagem; Neymar pensa no Barcelona e no estrelar confronto esperado por todos no final do ano.
O menino é mágico!
Já sai ganhando ao entrar em campo, balançando seu esvoaçante e vistoso moicano. As crianças, os fotógrafos, os repórteres, as moças sérias de Santos e os Monges Beneditinos do Mosteiro São Bento, todos nós, sedentos por um pouco de encanto, queremos um pouquinho dele. E sendo assim, nem mesmo os adversários resistiram...
Logo aos 50 segundos de jogo, o menino bateu uma falta para área, que foi desviada pelo Zagueiro vascaíno Renato Silva contra suas próprias redes, de onde logo se conclui que, nem as sombras das chuteiras rivais resistem aos encantos ludopédicos do menino craque. E assim o Santos fez 1x0. Com isso, a parte burocrática, pobre, xexelenta da vida, dessa "cousa" aí de “Resultados”, já tava encaminhada, Neymar então pode dar seu show...
Do lado esquerdo do ataque santista, deitou e rolou em cima de Fagner, além de prender mais um volante para marcá-lo. Não adiantou. Neymar foi espetacular. Flutuava entre a zaga do Vasco e a divindade, com inteligência, habilidade, malandragem... Neymar abusava!!
Em uma arrancada pelo lado direito, sentou o goleiro Fernando Prass e deu um gol para Borges experimentar um pouquinho do estrelato. O bom centroavante, no entanto perdeu a chance. Depois, esculachou Renato Silva com um drible, de corar a Zezé Macedo para depois dar a bola pra Ganso acertar a trave. Mas não desistiu!
Puxou um contragolpe e deu uma bola açucarada para Borges acertar o ângulo do goleiro do Vasco, sacramentando então o 2x0 final do placar. Justo demais.
Neymar merece demais a sagração. Dribla para satisfazer sua sanha hedonista, para lavar a alma do cronista ávido por arte, esculacha zagueiros para o deleite de suas Neymarzetes...
Neymar é um escândalo!
É a criança voodoo que o Hendrix cantou, que “Te rouba um doce, mas, devolve qualquer dia desses”, não por nada, apenas pela sacanagem, pra tirar onda, pela picardia.
Com ele o que mais importa é a brincadeira. É a chance que o moleque tem de ser grande. De subverter a ordem dos “sérios”, de mandar as favas os “Objetivos” e os “Plânejametos dos Pofexô” dos bancos de reserva. Neymar é a chance do torcedor, de “não estar nem aí” para entrevistas coletivas empoladas, de não ligar para a miséria da “busca pelos três pontos da tabela”, de deixar pra lá todo o resto das obviedades que infestam o dia a dia do nosso futebol.
Neymar é a arte e nossa chance de fazer com que o as coisas se revolucionem sim por um viés muito mais maneiro e mais transado que as caretices que se apresentam por aí. Por tudo isso, a crônica hoje vai parafrasear a antiga manchete do Jornal com um pedido esperando que este, se eternize:
“Neymar, jogai por nós!!”
Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.
